Boteco: Quatro Tupiniquim e uma Stillwater

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por Marcelo Costa

Uma das duas novidades deste começo de 2015 dos gaúchos da cervejaria Tupiniquim lançadas na série Frutas de Jardim, a Tupiniquim Amora tenta ser uma Farmhouse Ale fermentada com Brettanomyces (levedura selvagem belga) com adição de polpa de amora. De coloração vermelho translucido aguado com creme branco de media baixa formação e permanência, a Tupiniquim Frutas de Jardim Amora apresenta um perfil aromático suavemente ácido, com predomínio da levedura belga e sugestão da fruta adicionada antecipando acidez e azedume. Na boca, acidez frutada e leve azedume que surgem de forma mais intensa do que no aroma, ainda que desapareçam rapidamente deixando para trás um fiozinho de amargor ácido enquanto a fruta assume o controle no trecho final, frutado e comportado. No retrogosto, frutado quase imperceptível.

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A outra da série Frutas de Jardim segue o padrão da anterior: uma tentativa de Farmhouse Ale fermentada com Bretta e adição de polpa de framboesa. De coloração vermelho translucido aguado com creme branco de media baixa formação e permanência, a Tupiniquim Frutas de Jardim Framboesa repete a paleta aromática da versão com amora, soando um pouco mais adocicada num conjunto que valoriza mesmo a acidez derivada da levedura e a sugestão frutada derivada da framboesa. Na boca, mais fruta (vermelha) e menos acidez de que na versão com amora, o que melhora o conjunto, ainda que não o destaque. Parece que a receita podou as arestas dos ingredientes para não provocar o paladar do bebedor. Desta forma, o final é frutado é suavemente ácido enquanto o retrogosto sugere frutas vermelhas com muita suavidade.

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Medalha de Prata na categoria American IPA do South Beer Cup 2014 (com 105 cervejas de oito países no total), a Tupiniquim Anunciação é uma IPA padrão escola norte-americana, sem invencionices. De coloração âmbar alaranjada com creme levemente bege de boa formação e permanência, a Tupiniquim Anunciação IPA apresenta bastante lupulado, com intensas notas herbais (pinho) em primeiro plano e frutado cítrico (maracujá e casca de laranja) na base, além de resina também intensa. É possível ainda perceber mel e caramelo. Na boca, início doce preparando o terreno para a pancada de amargor, intensa, mas não violenta, permitindo sentir cítrico (maracujá e toranja), herbal (pinho) e mel. O final é amargo, cítrico e resinoso enquanto o retrogosto reforça a defesa do amargor com cítrico e herbal. Ok na proposta.

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Da linha mais simples e econômica da cervejaria, a Tupiniquim Helles é a versão dos gaúchos para o estilo Munich Helles, uma versão mais suave das Bohemian Pilseners tchecas (algo bem próximo de uma Premium Lager alemã). De coloração âmbar translucida com creme branco de boa formação e média permanência, a Tupiniquim Helles exibe um aroma notadamente maltado (com um toque de tosta) liberando sugestão de pão e bastante biscoito além de leve caramelo. Na boca, o conjunto agrada com rápido doçura caramelado e subsequente amargor pontual que traz consigo sugestão de pão, biscoito e um leve torrado que remete suavemente a café. O final junta leve amargor com sugestão de café e biscoito. No retrogosto, café. Muito boa para o estilo.

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Para fechar, uma receita da Stillwater Artisanal produzida na fabrica da Tupiniquim. As duas cervejarias já dividiram uma cerveja (a ótima Saison de Caju), mas a Stillwater Clássica Tropical leva assinatura apenas da Stillwater, e impressiona numa receita de Saison que junta levedura Bretta (a mesma das duas fracas Frutas do Jardim e da excelente Lost in Translation) com polpa de manga. De coloração amarelo palha e creme branco de boa formação e permanência, a Stillwater Clássica Tropical apresenta um aroma cativante com bastante percepção de frutas (manga com intensidade mais abacaxi e lima), azedume suave assim como notas florais e sugestão de feno, ervas e mato (fazenda, fazenda!). Na boca, mais personalidade: há doçura frutada (manga bastante perceptível) com acento cítrico logo no primeiro toque encoberta na sequencia pela ação levedura, que adiciona (comportadamente) acidez, azedume e intensifica a sugestão herbal da lupulagem, sem apagar a característica refrescante do conjunto. O final começa frutado (manga), passa pelo amargo e finaliza levemente adstringente. No retrogosto, amargor, azedume e manga. Uma aula de Saison.

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Balanço
Para uma nova aposta dos gaúchos (e de muitos micro cervejeiros que veem no estilo Saison / Witbier uma oportunidade de ampliar o mercado), a Tupiniquim Amora é bastante sem graça, pálida, se posicionando entre uma Sour e uma tentativa aguada de Farmhouse que pode conquistar fazendeiros gourmet belgas. A decepção se amplia com o custo beneficio um complicador no caso da Tupiniquim, que oferece pouca cerveja (300 ml) por um preço alto se comparado a padrões internacionais (o acerto impecável de receitas como Polimango e Lost in Translation IPA Brett justificam o investimento do bebedor. As demais…). A versão com Framboesa melhora o conjunto em relação a com amora, mas a sensação é de que colocaram água com gás num copo com vinho, diluindo o conjunto. É isso que ambos parecem: diluição de alguma coisa que até poderia ser boa, mas não funcionou aqui. Já premiada no South Beer Cup 2014, a Tupiniquim Anunciação IPA é simplíssima, mas ao menos não desonra o estilo como as anteriores. É, até, excessivamente básica ao ponto de lembrar IPAs artesanais produzidas em casa por amigos reforçando a ideia de que, sem colaboração externa, a Tupiniquim desce alguns bons degraus no ranking. Quarta do pacote, e uma que eu tinha poucas expectativas, a Tupiniquim Helles foi uma agradável surpresa, soando ligeiramente melhor que uma concorrente regional, a Coruja Strix Extra. Há sugestão de malte tostado que acaba remetendo a café e valoriza um conjunto de excelente drinkability. Único senão: desce tão bem que uma garrafa de 310 ml não dá pra nada. Fechando o quinteto com uma cigana produzida na Tupiniquim: Stillwater Clássica Tropical, uma aula de Saison (com manga!). Tudo que falta e soa errado na linha Frutas de Jardim aqui é exibido com maestria. Da coloração ao aroma alcançando um paladar exemplar. Já é uma das minhas três preferidas produzidas na fábrica gaúcha (ao lado da Polimango e da Lost in Translation IPA Brett).

Tupiniquim Frutas de Jardim Amora
– Produto: Fruit Beer
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 2,40/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 18 – 310 ml

Tupiniquim Frutas de Jardim Framboesa
– Produto: Fruit Beer
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 2,45/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 18 – 310 ml

Tupiniquim Frutas Anunciação IPA
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 6,6%
– Nota: 3,14/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 18 – 310 ml

Tupiniquim Helles
– Produto: Helles
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 5,2%
– Nota: 2,96/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 10,50 – 310 ml

Stillwater Classica Tropical
– Produto: Saison
– Nacionalidade: Estados Unidos
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 3,81/5
– Preço pago em São Paulo: R$ 19 – 310 ml

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Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)
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