Três discos de Ali Farka Touré

por Marcelo Costa

“Talking Timbutku”, Ali Farka Touré & Ry Cooder (World Circuit)
O primeiro disco do bluesmen Ali Farka Touré data de 1976 e até o final dos anos 80 (com mais seis discos) ele seguiria como um segredo bem guardado da música africana. Constantemente comparado a John Lee Hooker, sua carreira musical dá uma guinada quando, aos 49 anos, ele assina com o selo World Circuit, que começa a distribuir “Ali Farka Touré”, álbum de 1988, no Ocidente. Seguem-se os elogiados “African Blues” (1990), “The River” (1990) e “The Source” (1992), trilogia que flagra o músico em seu auge, momento em que ele decide se recolher a sua fazenda de arroz e abandonar a música. Por insistência de seu produtor, ele parte para Los Angeles em 1994 para gravar “Talking Timbutku”, premiado no mesmo ano com o Grammy de Melhor Álbum de World Music. As 10 canções do álbum (nove de Touré mais a tradicional malinesa “Diaraby”, rearranjada pelo guitarrista) flagram Touré alternando o canto entre quatro dialetos de Timbutku (Peul, Bambara, Tamasheq e Songhai) e a musicalidade entre a guitarra elétrica, a acústica, o banjo e a njarka, pequeno violino tradicional de Mali, acompanhado de Cooder (guitarra, marimba, bandolim), do lendário baterista Jim Keltner e de um duo percussivo e vocal africano que não só impede que o álbum, mesmo gravado em LA, seja uma simples adaptação anglo-saxã de um estilo africano como amplia a musicalidade de Touré destacando a melodia cativante de “Soukura”, o som da njarka na empolgante “Sega” e o bluezaço “Amandral”, cantado no dialeto Tamasheq, uma variação do Tuareg.

“In the Heart of the Moon”, Ali Farka Touré & Toumani Diabaté (World Circuit)
2004: dois mestres da cena musical de Mali tocam juntos em uma sala do último andar de um hotel em Bamako, com vista para o rio Níger. O resultado é “In the Heart of the Moon”, primeira parte da trilogia “The Hotel Mandé Sessions” (seguida por “Savane”, de Touré, e “Boulevard de l’Independence”, de Diabaté, ambos de 2006), que marca a união de dois músicos de lados opostos do Mali: do Norte surge o experiente guitarrista e vocalista Ali Farka Touré (65 anos), que une a música tradicional do Mali com o blues norte-americano; do Sul aparece o jovem Toumani Diabaté (40 anos), um músico talentoso especializado na kora, espécie de harpa com 21 cordas exclusiva da África Ocidental. Aqui Touré e Diabaté recriam sete canções tradicionais malinesas de forma emocional e lírica – o baixo do maestro cubano Orlando “Cachaito” Lopez, o piano kawai tocado por Ry Cooder (em duas faixas) e a percussão de Joachim Cooder e Olalekan Babalola foram adicionados de forma delicada posteriormente, colorindo os arranjos. Inevitavelmente, a estrela é a kora, e Touré (que só canta em duas faixas) se atém ao violão (de forma simples, sem floreios) abrindo espaços para que Diabaté hipnotize o ouvinte. De seus discos solo, Touré recria (o verbo é perfeito), com os improvisos de Diabaté, canções como “Kadi Kadi” (do álbum “The River”, de 1990), “Hawa Dolo” (de “Source”, 1992) e “Gomni” (de “Talking Timbuktu”, 1994), que perdem impacto, mas ganham delicadeza. Daqueles discos para “esquecer” tocando por dias e dias…

“Savane”, Ali Farka Touré (World Circuit)
Lançado postumamente em 2006, quatro meses após a morte de Ali Farka Touré, aos 66 anos, “Savane” encerra a trilogia de discos gravados no Hôtel Mandé, em Bamako. Touré já estava com câncer, e não queria/podia viajar, e a saída foi improvisar um estúdio no último andar do hotel. Se “In the Heart of the Moon” (2005) mostrava Ali Farka Touré levantando a bola (e a guitarra) para que Toumani Diabaté cortasse de forma majestosa (com a kora), “Savane” (sem Diabaté) é um autêntico disco de blues africano mostrando Farka em um dos melhores momentos de sua carreira. O último esforço solo do mais conhecido e amado guitarrista da África é absolutamente impecável. De todos os seus álbuns, “Savane” é também o que mais apresenta músicos não africanos, como o bluesman britânico Little George Sueref na harmônica e o norte-americano Pee Wee Ellis (da banda de James Brown) no sax. “Erdi” abre o disco ancorada em um riff básico de guitarra, que serve de cama para solos de harmônica e dos instrumentos africanos ngoni e njarka. No final, Ali entra na farra solando e a música cresce ainda mais. “Yer Bounda Fara” é mais melódica e sedutora enquanto “Beto”, a terceira faixa, é um delírio bluesistico de primeira grandeza. “Savane”, a faixa título, é arrepiante. Abre com Ali na guitarra e o ngoni (tocado por Mama Sissoko e Bassekou Kouyate) soando dolorido, cutucando as feridas do freguês por quase oito minutos de duração (e de alternância de solos). Mais nove faixas fazem a ponte entre África e América deste que, segundo Martin Scorsese, carregava o “DNA do Blues”. Um disco majestoso para encerrar uma carreira majestosa.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Entrevista: Edgard Scandurra fala sobre o encontro com Toumani Diabate (aqui)

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