O cancioneiro de Giancarlo Rufatto

por Lafaiete Júnior

Natural de Coronel Vivida, no interior do Paraná, Giancarlo Rufatto já passou por Curitiba e atualmente mora em São Bernardo do Campo, em São Paulo. Mesmo assim ele não nega suas origens e influências, que passam inclusive pela banda de Humberto Gessinger. “Pega mal dizer, mas tenho certeza que me influenciaram bastante”, admite. “Na região que cresci, os Engenheiros do Hawaii foram maiores que Legião Urbana, era quase nível Beatles”, relembra.

Giancarlo Rufatto lançou recentemente seu quarto álbum, “Cancioneiro”, um disco sério, pop lo-fi, denso e até reflexivo. “Cancioneiro” é também o trabalho mais redondo do músico até agora, que já colocou na praça três discos anteriormente: “14 Canções” (2008), “Machismo” (2010) e “A vida Secreta das Referências” (2012), além de vários EPs. Tudo disponível para download gratuito em seu blog (www.giancarlorufatto.blogspot.com.br) – disco novo incluso.

Rufatto parece ser um artista constantemente lúcido, que entende seu tamanho, sua visibilidade e vai seguindo seu caminho aparentemente sem pretensão. E na maior parte das vezes sempre com uma piada ou comentário pop a respeito de si mesmo e daquilo que está à sua volta. Cultura pop é possivelmente sua maior bíblia, seu maior caderno de referências. Isso tanto em seus perfis nas redes sociais quanto em suas músicas.

“Eu preencho minhas letras com imagens que as pessoas já viram, mesmo que nem sempre seja óbvio”, diz o músico em entrevista ao Scream & Yell para falar sobre “Cancioneiro”, o início de sua carreira, o fim da banda Hotel Avenida, Jeff Tweedy e Bob Dylan, a distribuição de música em streaming, a sombra de Deus e muito mais. Conversa boa.

Qual a sua primeira lembrança musical?
Acho que é a canção “Caminhoneiro”, do Roberto Carlos. Venho de uma família de caminhoneiros, meu avô gostava muito dessa música e eu morei os primeiros anos com ele. Meu pai era baixista de uma banda de baile do interior do Paraná, mas como passei pouco tempo com ele acho que isso não me influenciou em nada.

Lembra quando fez sua primeira música?
A primeira que dá pra chamar de música era uma chamada “Seres Vivos”. Lembro porque minha bandinha ganhou um prêmio de composição num festival da cidade. A música era bem ruim, mas só existiam cinco bandas participando. O prêmio foi bem bom, era maior que um salário mínimo da época (risos).

Você teve muitas bandas antes de “seguir carreira solo”?
Tive uma dúzia na adolescência, mas eram aquelas bandas que duram três, quatro ensaios. Da primeira banda “séria”, que durou de 1999 a 2001, a lenda diz que fui expulso pelo guitarrista. Só fui ter uma banda novamente em Curitiba quando montei a Móbiles, mas ai já tinha um disco e um EP gravado com o alterego Lo-fi Dreams e um “joinha” da TramaVirtual (risos).

E como foi o processo de produção do disco “Cancioneiro”?
Tinha a ideia do álbum guardada desde 2007, desde que comecei assinar com meu nome nas músicas. Cheguei a gravar três volumes de demos, que acabaram entrando em outros álbuns ou gravadas pela Hotel Avenida, mas o álbum em si foi sempre abortado pois fugia do tema e caia sempre na música sobre relacionamentos. Depois que gravei “A Vida Secreta das Referências” (de 2012) resolvi que era bom parar e pensar um pouco, já tinha música demais. Minha filha nasceu e aí entrei numas de revisitar o passado, me encher de esperança e tal. Quando larguei o emprego e mudei de Curitiba sobrou tempo pra pensar no disco enquanto cuidava da minha filha em tempo integral, mas bem pouco tempo pra gravar. Acho que este disco ficou mais bem resolvido porque tive de aceitar o prazo longo, levei semanas pra terminar coisas que eu costumava fazer em horas e isso me fez melhorar em algumas coisas, principalmente em timbres. Tudo o que eu não queria era repetir o mesmo álbum, falar de relacionamentos e tal.

Qual é a história da foto da capa do disco?
É uma foto do álbum de família, um primo mais velho e eu na época que morava na casa dos meus avós, no começo dos anos 80. As fotos que envolvem o disco também aparecem na capa do disco anterior, queria que tivesse uma ligação entre os discos mesmo sendo sobre temas diferentes.

Entre Bob Dylan ou Jeff Tweedy, qual você escolhe?
Criador ou criatura? Dylan é tipo o papa e Jeff é o padre da minha paróquia. Sou mais próximo do segundo, mas o segundo não faz nada sem a existência do primeiro.

Com qual artista brasileiro você gostaria de tocar?
Sabe que nunca pensei nisso? Tocar não sei, mas deve ser legal jogar conversa fora com o [Humberto] Gessinger.

Pensando sobre isso, me parece que vocês dois têm algo em comum no lance de estarem de certa forma à margem de algo e mais na sua. Cada um à sua maneira, mesmo o Gessinger sendo um artista bem popular. E o seu trabalho tem um filtro bem pop. Você se identifica com a persona dele?
Eu também vejo isso. O Gessinger fez uma carreira estável independente do que a TV vendia, acho que se fosse hoje não seria compreendido. Na região que cresci os Engenheiros do Hawaii (e o Nenhum de Nós também) foram maiores que Legião Urbana, era quase nível Beatles e tocavam direto. Eu ouço os Engenheiros e vejo que as letras dele são cheias de referencias culturais e senso de humor. Pega mal dizer, mas tenho certeza que me influenciaram bastante. Eu gostava muito das entrevistas – tem jornalista que até hoje afirma que as entrevistas do Humberto são melhores que os discos (risos). Tenho problemas quando conheço artistas que realmente gosto, eu travo completamente. Teve uma vez que organizamos um show do Erasmo Carlos na Virada Cultural de Curitiba e eu fiquei paralisado, mal consegui apertar a mão daquele gigante.

Exceto a própria música, o que você acha que mais influencia o seu trabalho?
Acho que sou muito influenciado pelas divagações sobre o nada, aquele papo que rola nos filmes que não têm nada a ver com o curso da história em si. “Cancioneiro” é todo feito através destas divagações que a gente joga no Twitter sobre a vida da cidade da gente e que antigamente os pais chamavam de fofoca. A sombra de Deus também está presente em várias músicas que escrevi desde que comecei neste negócio, mas não Deus no sentido da religião, e sim na crença em algo que te faz levantar todos os dias. Pra mim esse é o verdadeiro mistério do homem comum.

Você tem alguma conclusão ou ideia sobre o que faz o homem comum levantar todos os dias?
Não, só sei que música é que não é.

A Cecília ouve tuas músicas? Ela já demonstra algum interesse?
Ela me ouve mais no violão que nas músicas prontas. Eu gravei muitas coisas usando o iPad como sintetizador e isso ela realmente adorou porque tem muitos aplicativos intuitivos que é só passar o dedo para o som rolar.

O nascimento da Cecília mudou alguma coisa na sua maneira de encarar a música dentro desse esquema independente? Ou de se ver dentro desse esquema… Falo mais em relação a perspectivas de futuro e tal.
Quando ela nasceu eu pensei que seria bom dar um tempo, eu já não estava tocando com banda e logo descobri que um bebê preenche espaços enormes. Mas logo no primeiro mês de vida da menina me convidaram para um festival patrocinado pelo Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul, uma coisa simples que virou um dilema. Eu sou muito low profile quanto a ter uma carreira séria. Sempre quis ser meio como Mark Linkous, do Sparklehorse, gravar mais que tocar – principalmente porque gravar nunca me custou nada.

Acompanhando teu trabalho desde muito tempo, você sempre me pareceu um cara mais outsider em relação à cena musical ou aos grupos de Curitiba. Queria que você falasse um pouco sobre isso, se tem motivo e tal. Teve o lance com a Hotel Avenida que nunca entendi direito, foi uma banda super legal e acabou super rápido também.
Acho que tem a ver com esse low profile que eu falei. Em Curitiba havia diversos nichos e nenhuma cena, tanto que o que eu fazia era mais percebido fora da capital. Curiosamente a Hotel Avenida foi um projeto paralelo de vários músicos da cidade que tinham suas próprias bandas. A Hotel começou com um EP que eu gravei com o Ivan Santos, do OAEOZ, em 2008. A banda era meio jam band, um projeto paralelo de todo mundo, com eu e o Ivan como fixos e os outros músicos randômicos. Em 2009 lançamos dois EPs e um single, fizemos vários shows e ai todo mundo saiu pra tocar suas bandas. No fim de 2010 a gente tentou reformular a parada, fazer alguns shows, umas músicas novas e tal, mas não deu muito certo – muito por minha culpa. A música “Luzes da Páscoa”, do “Cancioneiro”, chegou a entrar no repertório ao vivo banda, mas nunca foi gravada.

Por que você acha que esse segundo momento da Hotel Avenida não deu muito certo muito por sua culpa?
Eu já estava em outra, estava escrevendo e gravando muita coisa em casa. Aí fizemos um show em São Paulo que não foi muito legal e escrevi um texto contando a experiência no meu blog e eles se ofenderam, mas o texto era sobre mim, não sobre eles, enfim, passou. Na minha visão bandas têm datas de validade, devem acabar antes de se levar a sério demais, os músicos montam outras bandas, a vida segue. O chato é que nunca mais falei com o Ivan depois disso e se você procurar no YouTube vai achar um disco inteiro que foi perdido quando a banda acabou, acontece.

Agora você mora em São Bernardo do Campo. Espera alguma coisa ou algum amor de SP em relação ao seu trabalho com a música?
Acho que quando você se move pela internet não faz muita diferença onde você mora, talvez se eu fizer alguns shows seja capaz de sentir a recepção, mas pela internet é tudo muito parecido, morar aqui, em Curitiba ou no Pará.

Além do download gratuito, seu disco foi lançado também em alguns sites de streaming. Você acha que é um bom caminho para artistas pequenos? Do ponto de vista de um possível retorno financeiro e até mesmo de visibilidade e oportunidades que podem surgir a partir disso?
Acho que, pelo menos em 2014/2015 é meio obrigatório que seu disco esteja em streaming, assim como era o Myspace em 2006. O interessante é que o streaming é outro nicho, uma audiência completamente diferente. Na semana em que “Cancioneiro” foi lançado, entrou nas recomendações e nos playlists da Deezer, então pude acompanhar quem ouvia e deu pra perceber que era um pessoal diferente do “indiês” tradicional, um povo que ouve de tudo, achei muito legal isso.

Isso de certa forma tem a ver com o seu trabalho, tanto que você já fez versões de alguns clássicos do pop, como Leandro & Leonardo, Roxette, Radiohead e tal. Será que esse não seria o seu “nicho de público” por excelência por assim dizer? De um povo que ouve de tudo. Um lance meio que de música para FM, em que as pessoas simplesmente escutam aquilo que está tocando… Porque me parece que isso não é um problema pra você, ao contrário de artistas indies que parecem ter medo de qualquer coisa popular.
Pode ser, acho que hoje faço a música que sempre quis fazer, é pop pra mim. Quando escrevi as músicas do “Machismo” tinha na cabeça que eu queria que meus pais fossem capazes de ouvir, sem cabecismos típico do indie, mas eles acharam triste demais (risos). Minha mãe sempre diz que eu deveria vender minhas músicas para os Chitãozinhos ou pro Leonardo, seria um sonho (risos). “Cancioneiro” só tem uma única música sem refrão e tem muito texto, muita imagem, tem crianças na capa, deveria ter colocado um gato também pra ganhar mais likes.

Tenho a sensação de que é a primeira vez que você organizou um “esquema de lançamento” para um disco seu, aliado com sua mudança para São Paulo… É por aí? Está tentando dar um passo adiante nesse sentido?
Eu fiquei uns dois meses ouvindo o disco pra ver se valia a pena lançá-lo decentemente. Eu tenho um problema com meus discos: desapego deles muito rapidamente e quando eles começavam ser ouvidos, eu já estava em outra. Com esse eu senti que tinha algo que poderia ser explorado, levado pra mais gente, uma tentativa de contrariar o que diz o refrão da faixa-título.

Falando nela, a faixa “Cancioneiro” me faz ligar você diretamente com o rádio, numa coisa de música para um povo bem mais amplo. Ela é um pop bem gostoso e as imagens que ela gera são interessantes se pensado nesse público mais popular… Você acha que teria chance de ter um retorno maior nesse sentido?
Eu não sei, eu nunca fiz música pensando no retorno, acho que é trauma da época que mudei pra Curitiba e achei que viveria o conto do rock. Mas a época era outra, não parece, pois são apenas dez anos, mas quase não existiam cantores indies no começo dos anos 2000. Hoje todo mundo é muito profissional, todo mundo já sai grande no primeiro disco e sinto que já me acostumei com o fato de que sou um artista menor e que a maioria dos artistas que amo também é.

As letras das músicas “Poucas e Pequenas Coisas”, “Cancioneiro” e “Uma Casa, Não Um lar” me fazem pensar em uma coisa: se alimentar de cultura pop é antidepressivo para a rotina ou até mesmo para a realidade vida? O que você acha disso?
Acho que a cultura pop te dá uma sensibilidade enorme quando ensina a se colocar no lugar dos outros. Tem aquele lance da empatia que a Legião Urbana é o melhor exemplo, de ouvir algo que parece estar falando diretamente pra você. Eu preencho minhas letras com imagens que as pessoas já viram, mesmo que nem sempre seja óbvio, tipo a música do Rush em “Cancioneiro” ou uma frase sobre meias em “Dance, Dance, Dance” que saiu de Forrest Gump. “Gospel” tem uma ligação com True Detective (risos). É o tipo de coisa que eu amo na música pop, as referências secretas. Sou uma vítima do tempo que os artistas apareciam na revista usando uma camiseta de banda e a gente ficava tentando descobrir o que era.

“Gospel”, que fecha o disco, é de certa forma é até bem esperançosa. “No fim, só é preciso ser bom”? Realmente acredita nisso?
O mesmo cara do início do disco que diz em “Enseada” que o mundo não é bom também diz em “Gospel” que o mundo ser difícil não é motivo pra que você seja uma pessoa ruim. Lembra daquela frase do Rocky Balboa sobre a vida não ser sobre quantas vezes você cai, mas sim quantas vezes se levanta? Então, é basicamente isso.

O que você espera da sua vida de músico independente para os próximos anos?
Coloquei na cabeça que depois dos 30 anos ia fazer outra coisa ou pelo menos ia parar de me repetir. Acho que se continuar lançando álbuns será em tempos mais esparsos, coisa de três, quatro anos. Mas vamos ver, depende muito de como esse disco vai andar pra frente, talvez seria bom fazer alguns shows, mas sempre que faço um plano, algo maluco acontece e tenho que mudá-lo imediatamente.

– Lafaiete Júnior (@lafaietejunior) é jornalista e assina o blog Veia Urbana

Leia também:
– Giancarlo Rufatto fala sobre “Tooth & Nail”, disco de 2013 de Billy Bragg (aqui)
– Giancarlo Rufatto fala sobre Pato Fu, discos de vinil e o blog para a filha Cecília (aqui)
– Giancarlo Rufatto: “Machismo” é uma piada sobre sentimentalismo masculino (aqui)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *