Mombojó ao vivo no Sesc Pompeia

por Lucas Brêda

Com a Copa do Mundo chegando perto do fim, os dias sem jogos estão cada vez mais comuns. Assim foi a quinta-feira, 3 de julho – véspera do jogo Brasil e Colômbia, pelas quartas-de-final –, dia marcado para a estreia ao vivo do quinto e mais recente disco do grupo pernambucano Mombojó, “Alexandre”, , lançado em maio deste ano.

Se a choperia do Sesc Pompeia é tida por muitos como um local aconchegante para um bom chopp escuro e um papo com os amigos, ela não foi o local mais adequado para “Alexandre” dar os primeiros passos em vida. O bar totalmente iluminado, as mesas rodeando o palco e uma conversa agradável eram atrações mais fáceis e imediatas do que as densas novas músicas do Mombojó.

Quando o primeiro barulho veio do palco – após a tradicional apresentação do Sesc – já era possível ver algo que se tornaria recorrente durante a apresentação: o uso sem receio das gravações mecânicas para tentar recriar no palco a salada de barulhos que é “Alexandre”. E as batidas iniciais de “Rebuliço” (primeira faixa do álbum e do show) foram reproduzidas mesmo sem nenhum dos integrantes ter dado as caras.

Os pernambucanos subiram ao palco trajando branco (com exceção do vocalista Felipe S, de preto), acompanhados pelo baterista convidado Thiago Babalu (uma vez que o titular Vicente Machado esperava pelo nascimento da filha no Recife). Logo de cara, a espontaneidade com que “Alexandre” foi criado foi substituída por insegurança e falta de sincronia em cima do palco. Em “Hello”, os graves da estrofe principal – cantada em inglês – perderam força na voz oscilante do guitarrista Marcelo Machado, que, por vezes, chegou a deixar o instrumento principal de lado para ajustar configurações de som nos equipamentos ao lado.

Quase como um Frankenstein, o primeiro contato com “Alexandre” em vida é conturbado e requer paciência, e após o estranhamento inicial, tanto os fãs mais antigos quanto os curiosos ali presentes passaram a dar mais atenção ao personagem criado pelo Mombojó. Uma das poucas canções com cara de canção do disco, “Summer Long”, foi a primeira a ser recebida com carinho, trazendo os vocais etéreos da francesa Laetitia Sadier (do Stereolab), pré-gravada, e a letra nostálgica de Felipe S.

“Alexandre” havia se levantado da mesa do laboratório e já conseguia se equilibrar em pé quando a banda resolveu convidar a plateia posicionada nas zonas periféricas para participar do show, dando protagonismo a músicas de “Nadadenovo” (2004) e “Amigo do Tempo” (2010). Apesar de algumas canções – como “Antimonotonia” (2010) – já apontarem para o excêntrico momento atual dos pernambucanos, outras – como “Adelaide” (2004) – soaram como um velho e distante rock a la Los Hermanos que parece não caber no Mombojó dez anos mais cascudo.

Já de volta ao novo álbum, Felipe empunhou a guitarra para a intimista “Hortelã”. Com a simplicidade de voz, guitarra e xilofone, o ruído de pessoas conversando ao fundo ficava ainda mais presente, deixando evidente a incompatibilidade do local para receber este tipo de lançamento. Uma escolha mais coerente seria um teatro – pelo menos para apresentar o disco –, como fez o Apanhador Só no ano passado, com o também denso “Antes Que Tu Conte Outra”, apresentado na integra no teatro do Sesc Belenzinho.

De “Alexandre” ainda marcaram presença “Diz o Leão”, de ritmo contagiante, e a morna “Dance”, além do interlúdio instrumental “Ping Pong Beat” (guiada por samplers de batidas de bolinhas de ping pong) e da pedante “Cuidado, Perigo!” (que ficaria mais interessante sem os vocais). “Pro Sol”, última do disco, foi também a derradeira do disco novo na noite.

O encerramento ainda contou com China na eletrizante “Deixe-se Acreditar” , maior hit do grupo, que, essa sim, casou muito bem com o clima chopp/amigos proporcionado pelo local deixando clara a oposição entre “Nadadenovo” e Alexandre” e escancarando diferenças que soam interessantes na teoria. Mas, em cima do palco, a década de distância entre os álbuns parece um século, e o chopp escuro é a opção mais chamativa para quem se identifica apenas com uma das fases do grupo.

Sendo “Alexandre” um disco complexo, que cresce a cada audição, a tendência é que suas faixas também cresçam ao vivo, com a banda mais firme e habituada aos novos sons. Como disse Felipe em entrevista à Rolling Stone Brasil: “A gente quer tentar criar um capítulo diferente. Se sentirmos que as pessoas estão notando uma diferença em relação ao que já fizemos, vamos atingir nosso objetivo”. O capítulo está criado, e o maior desafio atual do Mombojó é conseguir encaixar “Alexandre” – um dos discos do ano – tanto na playlist do fã mais antigo quanto no repertório padrão do grupo.

– Lucas Brêda (@lucasbreda94) é alagoano, mineiro e paulista. Escreve na Rolling Stone Brasil.

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– Mombojó em 2010: sem alardes ou histrionices, apenas fazendo música como arte (aqui)

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