CDs: Jack White, Damon Albarn, Oasis

por Marcelo Costa

“Lazaretto”, Jack White (Third Man/Columbia/Warner)
Em seu segundo álbum solo, que mantém a cor azul como marca, Jack White funde as duas bandas que o acompanharam na tour de “Blunderbuss” e segue apostando num coquetel que une rock, soul, funk, country e folk enquanto tenta despistar quem procura em suas letras respostas para sua complicada vida pessoal dizendo que boa parte dos temas saiu de um caderno de contos que ele havia escrito quando tinha 19 anos (agora ele tem 38), mas fica difícil acreditar quando o personagem de boa parte das canções zomba do amor (algumas vezes em legitima defesa). Separado de Karen Elson desde 2011, mãe de seus dois filhos, e proibido pela Justiça de chegar perto da modelo, White parece distribuir recados nas letras de “Lazaretto”, um hospital para leprosos. Na primeira faixa, “Three Women”, com poderoso arranjo de órgão, ele diz que tem três mulheres, “Red, blonde and brunette”, e antes que você o condene, avisa: “Se elas continuam vindo aqui toda noite é porque devem estar recebendo algo em troca”. Na faixa título, que soa uma sobra de “Blunderbuss”, Jack diz que está “se sentindo como Detroit, mas irá retornar das cinzas” (a cidade anunciou falência em 2013). O lado denso do álbum ainda conta com “Would You Fight for My Love?”, blues estilizado conduzido por piano, guitarradas e White contando que “não basta amar, é preciso provar para a amada”, a trilha sonora de western “I Think I Found the Culprit” e a intensa “That Black Bat Licorice”. O lado calmo do disco conta com os folks limpos, stonianos e cativantes “Temporary Ground”, “Alone in My Home”, ambas com vocais de Lillie Mae Rische, “Want and Able” e “Entitlement”, que flagram um Jack White solitário, se sentindo um fantasma, embora o disco (e a raiva) mostre(m) que ele está mais vivo do que nunca.

Nota: 8
Preço em média: R$ 25 (nacional)

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– Cinco vídeos: Jack White por Gary Oldman (aqui)

“Everyday Robots”, Damon Albarn (Parlaphone/Warner)
Aguardado desde que o Blur anunciou um hiato em 2003, a estreia solo de Damon Albarn demorou tanto a sair que o Blur voltou, fez duas grandes turnês, e Albarn passou 10 anos entre colaborações em Mali (“Mali Music”, 2002), estourando mundialmente com o Gorillaz, montando bandas com ex-integrantes do Verve e Clash (The Good, the Bad & the Queen) e Tony Allen e Flea (Rocket Juice & the Moon) até, enfim, debutar solo. Após tanto exercício de musicalidade e falta de ego, “Everyday Robots” impressiona por soar desesperançado e delicadamente despido de grandiloquência. Com produção dividida entre Albarn e Richard Russell, dono da gravadora XL e parceiro de Damon na produção do último (e ótimo) álbum de Bobby Womack, “Everyday Robots” tem como ponto de partida a dicotomia “Natureza vs Tecnologia”. Albarn imagina um tempo em que seremos apenas polegares apertando botões (de computadores, celulares) na tristonha faixa título, embalada por piano e cordas emulando portas enferrujadas. O clima se estende para “Hostiles”, com Damon desejando compartilhar um dia de silêncio (cada vez mais raro nas grandes cidades). A épica “You and Me” rememora os dias drogados do passado com Brian Eno criando climas e vocalizações (ele ainda divide os vocais com Damon em “Heavy Seas Of Love”, a ótima faixa de encerramento) enquanto a bonita melodia de “The Selfish Giant”, inspirada num conto homônimo de Oscar Wilde, conta com a presença de Natasha Khan, do Bat For Lashes. “Mr. Tembo”, com o coral The Leytonstone City Mission, reaproxima Albarn da África (e do clima soul de “Tender”, do Blur) e “Lonely Press Play” resume o intento de um belo disco para ser ouvido em silêncio: “Se você se sentir solitário, aperte o play”. Aperte.

Nota: 9
Preço em média: R$ 25 (nacional)

Leia também:
– A Inglaterra tem cheiro de Blur (aqui)

“Definitely Maybe – 20th Anniversary Edition”, Oasis (Big Brother Recordings/Sony Music)
Responsável por um furacão que colocou Londres no centro do universo pop nos anos 90, a edição comemorativa do álbum de estreia do Oasis ganha lançamento nacional em versão tripla: o álbum original remasterizado, um segundo CD com 99% dos b-sides da época (apenas a versão ao vivo de “Bring It on Down”, presente no single “Shakermaker”, ficou de fora) e um terceiro CD com 17 raridades (10 faixas ao vivo – metade numa loja em Paris, metade no Manchester Academy e um registro intenso de “Supersonic” feita pela Radio 1, da BBC, em Glasgow – 5 demos, um mix alternativo de “Columbia” e uma versão orquestral instrumental de “Whatever”). Um dos destaques do pacote são os comentários de canções feitos por Liam e Noel e retirados de entrevistas entre 1994 e 2014. Noel conta que “Definitely Maybe” era apenas um disco “sobre amigos dividindo uma garrafa de cidra, ouvindo um disco dos Beatles até furar, falando merda, vomitando, conversando com garotas estranhas e, talvez, fazendo sexo. É um disco sobre escapismo”. Sobre “Rock ‘N’ Roll Star”, Liam lembra o começo e sarreia: “Imagina: a gente tocando para duas pessoas e gritando que éramos estrelas do rock”. Noel conta como “I Hate Myself and Want to Die”, do Nirvana, o influenciou a escrever “a canção que mudou tudo”, “Live Forever”, crítica o partido conservador (ao falar de “Up in the Sky” e “Bring It on Down”) e explica que essa “tendência política (das letras) era real porque eu estava escrevendo com o coração (o que estava sentindo e vivendo)”. Sobre os b-sides, Noel diz que “Sad Song” é um “tesouro escondido” e que “Whatever” foi uma das poucas canções que eles gravaram e deixaram o estúdio “150% felizes” com o resultado. Um relançamento para ler, ouvir alto e guardar com muito carinho.

Nota: 10
Preço em média: R$ 50 (nacional)

Leia também:
– Faixa a faixa: “Definitely Maybe”, do Oasis (aqui)

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

3 thoughts on “CDs: Jack White, Damon Albarn, Oasis

  1. Gostei muito do “Lazaretto”, e também do “Everyday Robots”, e é uma feliz (ou triste?) coincidência que ambos, de uma forma ou de outra, estejam abraçados com a solidão!

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