A nova cena portuguesa: Capicua

por Pedro Salgado, de Lisboa

“Sinto que na música pop há uma tendência de mitificar ou endeusar as mulheres de uma forma romantizada ou hiper-sexualizada. O meu disco pretende mostrá-las como são na realidade e sermos livres na forma que queremos”, diz-me Ana Matos, mais conhecida como Capicua, numa esplanada da Praça das Flores, em Lisboa. A rapper portuense lançou recentemente o álbum “Sereia Louca” com produções de D-One, Conductor e Ride, entre outros, e participações vocais de Gisela João, Aline Frazão e M7.

O sucessor de “Capicua”, de 2012, foco da nossa animada conversa, apresenta a diversidade feminina desmistificada, as nuances da morte e da passagem do tempo. “É um trabalho mais difícil de grudar numa primeira audição e não apela a um público adolescente ou distraído”, avalia Ana. Para além de temas memoráveis como a faixa-título ou “Vayorken”, o disco representa um alargamento de horizontes para Capicua em face da aproximação a universos musicais como a música africana ou o fado, entre outros.

Um desses exemplos é “Mão Pesada”, com pegada roqueira, no espírito de “Blakroc” (um projeto do The Black Keys com MCs de hip-hop), fruto da colaboração com o guitarrista Pedro Geraldes (Linda Martini). A canção, independentemente do seu leve aroma de blues rock, trata do mito que rodeia as mulheres do norte de Portugal e sua expontaneidade. “Eu e M7 (companheira de palco de Capicua) achamos o assunto muito interessante e resolvemos brincar um pouco, mas falando das mulheres que revelam coragem em ser autênticas”, conta Ana Matos.

Durante o período compreendido entre a edição do álbum homônimo de estreia e a sua segunda mixtape, “Capicua Goes West”, com beats de Kanye West, em 2013, a rapper da cidade do Porto foi convidada para tocar ao vivo, colaborando com o músico Mistah Isaac e o grupo They´re Heading West, resultando desses encontros releituras de temas anteriores no formato acústico. “Muitas pessoas me perguntavam onde poderiam encontrar aquelas versões e quando surgiu a ideia de fazer o ‘Sereia Louca’, inclui-as no disco como forma de imortalizar as boas experiências que vivi”, confessa.

“Eu uno e separo todas as margens do mundo / Inundo tudo, mergulho tudo”, canta Capicua na poética “Líquida”, dando voz às rimas inteligentes e ao caráter eminentemente atual que sempre definiram o seu trajeto no panorama do hip-hop português. “A minha música, e o rap em geral, representa uma liberdade de expressão quase existencial”, conclui. Consequentemente, o seu último clipe, “Mão Pesada”, espelha uma ideia do feminino com identidade. De Lisboa para o Brasil, Capicua conversou com o Scream & Yell sobre o seu novo trabalho. Confira:

No álbum de estreia, você adotou uma abordagem direta e em “Sereia Louca” a sua mensagem é mais sutil. O que mudou nos dois últimos anos?
Julgo que isso não tem tanto a ver com as mudanças que vivi nos últimos dois anos e está mais relacionado com o ambiente do disco e deste aspeto aquático e feminino que o rodeia, originando uma linguagem metafórica. O álbum anterior tinha um frescor juvenil, era alegre e expontâneo. Já o “Sereia Louca” é maduro e fala das mulheres na sua sombra de uma forma delicada, no ponto de vista do discurso, e os temas são emocionais. Se calhar, perdeu-se o impacto in-your-face, mas a mensagem manteve-se intacta na frontalidade, embora a linguagem seja mais poética.

As participações do guitarrista Pedro Geraldes (Linda Martini) e da fadista Gisela João visaram um enriquecimento do disco?
Sim! Normalmente tenho uma perspetiva muito pragmática em relação às faixas. Começo com uma ideia para uma música e a partir daí procuro o instrumental certo para servir o ambiente escolhido enquanto na escrita tento encontrar o registo adequado para o tema. Depois, busco a sonoridade e a fala indicada para a emoção pretendida e, por vezes, sinto que é necessário um sample de voz, uma guitarra ou baixo para cumprir aquela visão específica que tenho para a faixa. Nesse sentido, quando preparo um disco não possuo uma ideia pré-determinada e são as músicas que me levam a essas necessidades. É óbvio que é um enriquecimento e sinto que algumas canções pediam algo que não estava no espectro do hip-hop e sugeriam outras linguagens. Não tenho qualquer tipo de pudor em procurar contribuições noutros campos como o rock, fado, música africana (Aline Frazão) ou no universo indie e da folk (They’re Heading West). Eu desenvolvo essas parcerias na medida em que façam sentido na minha música.

Para além da faixa-título, em que medida o sonho influencia o seu método de composição?
Neste disco, o conceito de sereia foi levado a várias dimensões. Do ponto de vista formal, o álbum tem duas metades, como as sereias. O primeiro CD (Cabeça) tem 10 músicas novas com instrumentais ao estilo do hip-hop habitual e na segunda parte (Cauda) estão seis versões acústicas de trabalhos anteriores. O caráter hibrido do disco representa os dois lados das sereias. Relativamente à temática, existe a questão da mulher e da água, bem como a luz e a sombra (que as acompanha), porque são sedutoras, mas ao mesmo tempo maléficas e sinistras e essa duplicidade interessava-me muito. Em termos musicais, todos os instrumentais da primeira parte do disco têm samples de voz e eu quis lembrar o canto da sereia de uma forma simbólica e sutil. Essa mesma ideia (que também representa um grito), está presente no trabalho, uma vez que existe a toada encantatória, à procura do belo, mas ao mesmo tempo é um clamor, porque fala de coisas que não são confortáveis ou funciona como denúncia. O próprio álbum, enquanto statement, representa o grito como canto, mas também a imputação. Por vezes, queremos fazer coisas que não são da nossa natureza, como a sereia que queria usar sapatos, viver emoções análogas, calçar os sapatos dos outros, experimentando habitats que não são os nossos.

Gosto particularmente da música “A Mulher Do Cacilheiro”. Como você associou a componente imagética com um certo desencanto social?
A parte interessante do exercício de contar histórias é tentarmos sentir a emoção do outro sem a ter vivido. É como calçar os sapatos das pessoas e imaginar aquela vida ou experiência. Nessa música, especificamente, para além de eu me ter colocado nos sapatos daquelas mulheres, há um duplo olhar: o de quem vive a experiência e o de quem a observa. Isso não é difícil de fazer, porque faz parte da humanidade. O que nos caracteriza como seres humanos é sentirmos o que os outros vivem ou tentarmos imaginar o cotidiano do nosso semelhante. É por aí que nos relacionamos, gostamos e compreendemos os outros. Aquela mulher do barco, mesmo estando no rio Tejo, na margem sul de Lisboa, com toda a história de 500 anos de colonialismo e milénios de patriarcado anteriores, segregação urbana, etc, também poderia ter sido uma mulher viajando de trem na Europa ou num ônibus na cidade do Porto. Apesar de circunscrito a esse contexto é fácil entender aquela realidade, porque todos os dias nos cruzamos com mulheres em todo o lado. Eu tive a preocupação de fazer um retrato quase cinematográfico, uma vez que existe sempre uma tentativa na escrita de puxar as pessoas para a música e tentar captar a sua atenção. Há várias formas de fazer isso, desde logo o impacto da emoção, a abordagem cômica (despertando sorrisos), e até o romantismo. Mas, também podemos tentar que os indivíduos visualizem a história que estamos a contar e, neste caso, tentei transportar as pessoas para aquele barco.

Existe alguém que você admire na cena hip-hop brasileira?
Eu e M7 temos uma ligação afetiva com o Brasil por várias razões. Porque gostamos muito de novelas, filmes, séries e, além disso, todas as semanas assisto ao programa “De frente com Gabi”, da Marília Gabriela. Na verdade, vejo mais televisão brasileira do que portuguesa (risos) e gosto muito da forma como eles utilizam a língua portuguesa duma forma criativa, desempoeirada e livre. Tanto eu como M7 utilizamos alguns jargões brasileiros na nossa forma de falar. Uma grande amiga nossa vive em São Paulo e, por isso, temos uma vontade enorme de ir lá. O rapper brasileiro que mais me surpreendeu foi o Projota. Ele tem um lado emocional e puro que eu aprecio, muito autobiográfico, mas também ligado à rua. Também gosto de Criolo, Emicida e Marcelo D2. Infelizmente, chega pouco rap brasileiro a Portugal e acredito que devem existir muitos outros bons artistas que não conhecemos e o inverso ainda é mais verdadeiro. É preciso estreitar o mar e embora eu saiba que o mercado brasileiro é gigante, e eles não têm necessidade de buscar música em outros lugares, existe bom rap em Portugal, Angola e Moçambique e apesar de tudo estamos mais próximos dos países lusófonos africanos do que do Brasil. Gostaria de conhecer mais projetos brasileiros, mas o que chega a Portugal é apenas a ponta do iceberg.

Você sente que contribuiu para uma maior visibilidade do hip-hop português com “Sereia Louca”?
Espero que sim. A minha música teve bastante destaque e eu tento que o disco não apareça numa lógica de exceção. Existe uma tendência para apresentar o meu trabalho e o de outros rappers, que furam no circuito mainstream, do tipo: “Ah! Mas este é diferente”. Não é isso que eu pretendo, porque tenho muito orgulho em fazer parte da cultura hip-hop e do trabalho desenvolvido pelos meus pares. Às vezes, as pessoas não têm noção disso, em face do imenso underground desconhecido e que tem poucas hipóteses de se promover no circuito mais abrangente. Por essa razão, gostaria que o meu trabalho ajudasse a divulgar o hip-hop enquanto cultura e o rap em geral e não tanto como uma exceção à regra.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui

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