Boteco: quatro cervejas da Tupiniquim

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por Marcelo Costa

Surgida no segundo semestre de 2013, a Cervejaria Tupiniquim é fruto do investimento do importador Christian Bonotto, responsável pela marca Beer Legends, que decidiu apostar em um rótulo próprio destacando a arara azul como símbolo de sua cervejaria. As primeiras cervejas da casa foram produzidas na fábrica da Saint Beer, em Forquilhinha (SC), isso até a inauguração do prédio próprio em Porto Alegre, em fevereiro deste ano, onde atualmente a Tupiniquim desenvolve um número vasto de rótulos para colocar no mercado (em março eles já tinham 20 receitas aprovadas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), sendo que os destaques são as colaborativas com cervejeiros de renome como o dinamarquês Jeppe Jarnit-Bjergsø, da Evil Twin Brewing; o sueco Henok Fentie, da Omnipollo; e o norte-americano Brian Strumke, da Stillwater. Abaixo você conhece três das colaborativas da casa gaúcha e uma sazonal produzida para a Páscoa.

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Abrindo o passeio pelas cervejas da Tupiniquim com a Extra Fancy IPA, colaboração dos gaúchos com Jeppe Jarnit-Bjergsø, da mezzo dinamarquesa, mezzo norte-americana Evil Twin Brewing, que decidiram criar uma American India Pale Ale tradicionalíssima, aromática e bem intensa, cortesia dos lúpulos Centennial e Northern, mais um carregamento de Cascade despejados na receita, que ainda recebe suco de limão Tahiti (o bagaço do limão é adicionado no dry-hopping). De coloração amarelo palha com leve turbidez, a Extra Fancy IPA exibe um creme branco de ótima formação e permanência. No nariz, o aroma é espetacular, com muitas notas cítricas sensacionais (maracujá e principalmente limão) e percepção de malte e levedura. Na boca, o amargor é uma pancada cítrica caprichada de 70 de IBU, com clara percepção do limão. O amargor é teimoso e persistente, marcando a garganta e permanecendo do final cítrico (limão) ao retrogosto, que traz reforço do limão (com se você bebesse uma limonada azeda cujo gosto permanecesse na boca por um longo tempo). Grande cerveja.

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A Tupiniquim Chocolate não é colaborativa, o que permite avaliar a produção autoral dos gaúchos, neste caso através de uma Sweet Stout que recebe adição de açúcar de cana na receita. De coloração marrom escura bem próxima do preto e creme bege de média formação e permanência, a Tupiniquim Chocolate destaca um aroma intensamente achocolatado e, em segundo plano, caramelo e baunilha – a sugestão de café, natural em uma cerveja que utiliza malte torrado, é quase imperceptível, o que valoriza o dulçor. Na boca, o adocicado que remete a chocolate surge no primeiro toque, mas o amargor pontual (um pouco pelo lúpulo e outro tanto derivado da torra do malte) chega a tempo de equilibrar o conjunto, que, aguado, não soa tão profundo quanto o esperado, e decepciona. O final é chocolate e caramelo com um leve azedinho enquanto o retrogosto traz achocolatado com água.

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Voltando às colaborativas, a Lost in Translation IPA Brett é a segunda parceria dos gaúchos com o dinamarquês Jeppe Jarnit-Bjergsø, da Evil Twin, que planejaram uma receita que une malte de cevada, malte de trigo, aveia, lúpulo e Brettanomyces, a tradicional levedura encontrada nos arredores de Bruxelas. De coloração dourada com creme branco de média formação e permanência, a Lost in Translation IPA Brett destaca no nariz as notas típicas derivadas da levedura (puxando para um leve azedo) aliadas a um leve toque herbal (ervas), frutado (banana) e cítrico (abacaxi e uva verde). No paladar, uma deliciosa confusão de sabores que mais se aproximam de uma Farmhouse Ale do que de uma IPA. Há cítrico (maracujá e abacaxi), frutado (banana), herbal (capim limão), um azedinho que amarra a boca (sensação parecida com a de comer jaca) mais acidez. O final é cítrico, herbal e suavemente amargo enquanto o retrogosto traz casca de limão, leve azedume e banana. Muito boa.

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Fechando este primeiro quarteto da Tupiniquim com mais uma colaborativa da casa, desta vez com o cigano Henok Fentie, da cervejaria sueca Omnipollo. O resultado da parceria foi a Polimango Double IPA, uma cerveja de 80 de IBU e 9,5% de teor alcoólico. Na receita para 2 mil litros, 30 quilos de lúpulo (15 quilos na fervura e os outros 15 no dry-hopping), variando entre Columbus, Centennial e Mosaic, mais aveia e… farinha de polenta. De coloração dourada com leve turbidez a frio, a Polimango Double IPA exibe um creme branco de boa formação e permanência. No nariz, notas cítricas frutadas (maracujá e pêssego), florais e herbais (ervas e pinho) dominam a percepção do bebedor, mas é possível perceber um leve toque de caramelo no conjunto. Na boca, a pancada de amargor é forte, mas rápida, abrindo o leque gustativo para notas frutadas (abacaxi), herbais (reforço de pinho) e levemente adocicadas (caramelo). O final é cítrico e amargo enquanto o retrogosto reforça o amargor, que se intensifica conforme a garrafa vazia. Excelente.

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Balanço
A Extra Fancy IPA já entra na briga pelo posto de uma das melhores IPAs nacionais, com aroma encantador, amargor assertivo e conjunto equilibrado que valoriza o limão siciliano adicionada na receita. Uma baita IPA colaborativa. A Tupiniquim Chocolate, por sua vez, decepcionou. Aguada demais e remetendo a chocolate artificial, a cerveja de Páscoa dos gaúchos lembra bastante a Backer Brown, outra próxima do estilo que não consegue combinar o chocolate com uma boa cerveja. A benchmarking do estilo, Youngs Double Chocolate Stout, está quilômetros a frente. A outra parceria da Tupiniquim com a Evil Twin, Lost in Translation, novamente surpreende com um conjunto aromático complexo replicado delicadamente no aroma, profundo e delicioso. Há de tudo um pouco: amargor cítrico (comportado demais para uma IPA), herbal e frutado deliciosos e bem casados com oi azedume natural proporcionado pela levedura belga. Há um pouco de tudo aqui: Weiss, Witte, Saison, IPA… Uma baita cerveja. Fechando o pacote com outra IPA, mas desta vez uma Double IPA, feita em colaboração com Henok Fentie, da cervejaria sueca Omnipollo. Juntos, Tupiniquim e Omnipollo criaram uma cerveja extrema e apaixonante, com muito álcool, amargor assertivo e sugestões cítricas e frutadas deliciosas. Ainda prefiro a Lost in Translation IPA Brett, mas as duas estão num nível excelente para Brasil. Vale ir atrás… correndo.

Tupiniquim Extra Fancy IPA
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6,3%
– Nota: 3,75/5

Tupiniquim Chocolate
– Produto: Sweet Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4,9%
– Nota: 2,56/5

Tupiniquim Lost in Translation IPA Brett
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6,5%
– Nota: 3,93/5

Tupiniquim Polimango Double IPA
– Produto: Double IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 9,5%
– Nota: 3,91/5

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