No Coração do Mar, Charlotte Rogan

por Adriano Costa

Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) prestes a eclodir no Velho Mundo, uma jovem recém-casada entra com seu amado marido no navio Empress Alexandra com o destino marcando uma volta aos Estados Unidos. Olhando de maneira seca e de modo rápido, o casamento que foi sacramentado na Europa parece ser mais uma linda história de amor, no entanto, à medida que as páginas de “No Coração do Mar” avançam, percebe-se que não é tão simples assim. Mesmo que exista uma paixão envolvida há também muita turbulência e ações premeditadas.

Apenas quando o Empress Alexandra sofre um acidente e naufraga em pleno alto-mar é que a autora britânica Charlotte Rogan coloca o leitor a par dessas curvas do relacionamento. Na loucura para achar uma salvação, o marido coloca a esposa Grace Winter dentro de um bote salva-vidas extremamente lotado e repassa ao marinheiro que tomará conta da pequena embarcação uma misteriosa encomenda. Com as cartas mais ou menos jogadas na mesa é que a autora começa a deslanchar os principais pontos da obra.

Inspirado em um caso judicial antigo (não confundir com o livro de titulo nacional homônimo de Nathaniel Philbrick, lançado em 2000 pela Cia das Letras, e que também se inspira em um naufrágio, no caso o do navio baleeiro “Essex” que em 1820, no Pacífico, foi abalroado por uma baleia, e inspirou outra história, “Moby Dick”), “No Coração do Mar” é um livro que se ocupa em tratar dos limites da humanidade de cada um quando a própria sobrevivência está em risco. 21 dias presos dentro de um bote sem condições higiênicas e sem água ou comida satisfatórias podem transformar qualquer pessoa (lembra do filme “As Aventuras de Pi”, de Ang Lee?). Porém, até que ponto pode-se atribuir culpa as ações exercidas nesse período? Até que ponto os atos praticados sobre esse tipo de pressão podem ser julgados? Essas e outras perguntas buscam respostas no livro.

No entanto, entre as histórias de antes do naufrágio, da briga pela sobrevivência e do cansativo julgamento posterior, a grande estrela da obra é a personagem principal. Com uma roupagem de inocência embutida no primeiro olhar, Grace Winter é uma personagem extremamente complexa e o olhar do leitor fica dividido entre a ambiguidade das suas práticas em confronto com seus pensamentos. E por deixar a sua estreia navegar em áreas extremamente cinzas ao invés de um preto e branco mais comum, é que “No Coração do Mar” se destaca e merece ser lido, principalmente enquanto não chega ao cinema – o livro terá adaptação com Anne Hathaway (“Os Miseráveis”) como produtora e a protagonista.

“No Coração do Mar” (“The Lifeboat”, no original) foi lançado em 2012 na Grã-Bretanha e recebeu bons elogios de publicações como o Guardian e The Independent. Chegou ao Brasil em 2103 passado pelas mãos da Editora Intrínseca com 240 páginas e tradução de Flávia Rossler. É o primeiro livro da autora, que passou anos escrevendo em segredo em casa até tomar coragem de mostrar o trabalho para alguém. Bem escrito e com boas nuances psicológicas envolvidas, é um trabalho que desafia lentamente o leitor.

A Editora Intrínseca disponibilizou um trecho para leitura. É só clicar na imagem abaixo

– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

One thought on “No Coração do Mar, Charlotte Rogan

  1. Murphy sai muito, muito bonito. Sem dúvida, o filme mantém o ar de auto aventuras da literatura americana da era de autores como Nathaniel Hawthorne e Herman Melville. In the Heart of the Sea “(Eu desligo o link para quem quiser dar uma olhada: http://br.hbomax.tv/movie/TTL603317/No-Coracao-Do-Mar) é um espetáculo visual muito interessante que recebe cenas específicas com força suficiente. Além disso, o filme também adiciona duas reflexões interessantes: em primeiro lugar, com Melville como eixo sobre o ato de escrever, sobre o medo de nossa própria incapacidade ea luta interna entre revelando e inventar, entre a transmissão da verdade e da captura da essência; ea segunda, sobre os interesses comerciais eternas e a tirania do dinheiro.

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