Boteco: Cinco cervejas ciganas da Evil Twin

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por Marcelo Costa

A Evil Twin Brewery é uma cervejaria cigana dinamarquesa nos moldes da Mikkeller, e a similaridade do modelo não é toa: Jeppe Jarnit-Bjergsø, que fundou a Evil Twin em 2010, é irmão gêmeo de Mikkel Borg Bjergsø, da Mikkeller, fundada em 2006. Há, inclusive, uma série de boatos que cercam os irmãos, alguns apontando que eles não se falam e que foi um alívio para Mikkel quando Jeppe se mudou para os Estados Unidos, optando como novo lar (e segunda sede de sua cervejaria) o Brooklyn nova-iorquino. Um funcionário da Mikkeller disse ao New York Times: “Foi um grande alívio quando Jeppe se mudou. Era como a cena cervejeira dinamarquesa não fosse grande o suficiente para os dois”. Porém, nestes apenas quatro anos de história cervejeira, Jeppe produziu um número incontável de boas cervejas, muitas delas disponíveis no Brasil. Abaixo escrevo sobre cinco delas (todas produzidas em Connecticut, EUA), e num próximo post teremos duas colaborativas da Evil Twin com a gaúcha Tupiniquim. Bora.

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Tendo uma de suas sedes no Brooklyn nova-iorquino, não é estranho então que um dos rótulos da casa, a Evil Twin Hipster Ale, seja, segundo o site oficial, uma homenagem “aos modernos globais” de todo o mundo. Apesar da inspiração, a Evil Twin Hipster Ale nasceu em Connecticut e é decididamente norte-americana: apresentada como American Pale Ale, poderia ser uma American Amber Ale ou mesmo uma California IPA. Na taça, a coloração é âmbar alaranjada com creme branco de excelente formação e permanência. No nariz, um caminhão de lúpulo cítrico norte-americano que se desprende em notas que remetem a maracujá e laranja enquanto o malte colabora com uma forte sugestão de resina. Na boca, amargor intenso e pontual, mas não acumulativo: é um pancada rápida que logo é atropelada pela resina derivada do malte, arisca. O final é maracujá e resina (com leve toque de amargor) enquanto o retrogosto reforça a característica básica da receita com… maracujá, resina e amargor. Simples e bem boa.

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Novamente com pegada norte-americana (e também produzida em Connecticut), a Evil Twin Low Life, “a mercenária das cervejas”, segundo o site oficial, é uma Pilsner carregada de lúpulo norte-americano. De coloração amarelo palha e creme branco de excelente formação e longa permanência, a Evil Twin Low Life destaca um aroma lupuladíssimo e de natureza herbal, remetendo a erva doce e camomila. Ainda é possível perceber um leve toque de trigo, cítrico de casca de laranja (como em uma boa witbier), tangerina, feno e terra. Na boca, a surpresa se intensifica com o lúpulo herbal batendo forte na tecla de ervas, mas abrindo espaço para trigo, casca de laranja e tangerina. Há ainda uma pegada interessante de amargor acompanhado de resina numa Pilsner que poderia facilmente ser uma Farmhouse Ale. O final é herbal e cítrico enquanto o retrogosto traz cítrico, herbal, feno, trigo e limão. Excelente.

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De uma Pilsner que parece uma Farmhouse Ale para uma autêntica Farmhouse Ale, a Evil Twin Ryan And The Beaster Bunny, uma cerveja de coloração dourada e creme branco de ótima formação e média permanência. No nariz, intenso aroma cítrico (maracujá, abacaxi, uva verde, limão siciliano e casca de laranja), toque floral e herbal além de percepção de condimentação (canela e semente de cravo) via levedura mais sugestão de pão e feno, derivadas do malte. Na boca, a textura é leve e o conjunto, refrescante. A acidez suave da levedura briga por atenção com a pancada de amargor do lúpulo cítrico, deixando para trás uma camada de notas frutadas (mais limão siciliano e laranja do que maracujá), sugestão de especiarias e, muito levemente, malte e trigo. O final é uma pancada de amargor cítrico, que morre lentamente abrindo espaço para a leve acidez da levedura, que permanece até o retrogosto, causando leve adstringência. Uma delícia.

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A Evil Twin Falco é uma American IPA dos dinamarqueses, uma cerveja de coloração amarelo palha com leve turbidez a frio, creme branco de excelente formação e longa permanência. No nariz, a primeira surpresa é a total ausência do malte tostado, o que já podia ser percebido pela cor, o que foge de alguns aromas comuns encontradas em Americans IPAs, como caramelo e resina. Seguindo por outra via lupulada, os dinamarqueses optam por notas frutadas, cítricas e herbais, com leve lembrança da Evil Twin Low Life, devido a um leve toque de ervas presente. Há ainda sugestão de limão e maçã verde. Na boca, o amargor cítrico é limpo e caprichado, com uma pontada forte no primeiro toque, uma leve sensação de mel, e, novamente amargor cítrico e herbal até o final, amargo e puxado para limão siciliano. No retrogosto, refrescância e amargor cítrico intenso, com leve adstringência. Bem boa.

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Para fechar essa primeira sequencia de Evil Twin, a opção foi a Lil’B, uma Russial Imperial Stout de 11,5% de álcool. Na taça, a cerveja apresenta uma coloração preta intensa, com creme bege escuro de boa formação e permanência, principalmente para um estilo tão alcoólico. No nariz, o álcool surge em primeiro plano acompanhado de notas derivadas da torra do malte, como chocolate (puxado para o amargo) e café. Ainda é possível sentir sugestão de madeira, ameixa, baunilha e levíssimo defumado. Na boca, a expectativa antecipada pelo álcool não se consolida totalmente, já que o adocicado surge em igual nível de importância, equilibrando o amargor e a picada do álcool, que, inevitavelmente, aquece o peito e ruboriza a face. No sabor, chocolate amargor, açucar mascavo e café se juntam ao álcool e levam as ideias do bebedor pra passear. O final é álcool caramelado em açúcar mascavo enquanto o retrogosto traz chocolate e calor. Bela.

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Balanço
Não espere novidades da Evil Twin Hipster Ale, só espere uma grande cerveja de pegada norte-americana, ou seja, lupulada e malteada em excesso. O resultado é uma session beer de primeira, amarga, resinosa e cítrica na medida. Simples e deliciosa. Ainda melhor é a Low Life, uma Pilsner com jeitão de Farmhouse Ale, devido à dose carregada de lúpulo herbal colocada na receita, que transforma essa cerveja refrescante em algo complexo, com reminiscências de ervas, trigo, cítrico de casca de laranja, tangerina, feno e terra. Baita acerto, que é ampliado na Evil Twin Ryan And The Beaster Bunny, verdadeira Saison Farmhouse Ale dos dinarmaqueses, e um baita exemplar do estilo, com amargor cítrico caprichado, levedura influenciando o perfil da cerveja, e final amargo e especial. Muito, mas muito boa. Seguindo com a Evil Twin Falco, a interessante proposta de IPA sem malte tostado, o que elimina do conjunto o toque de caramelo e resina enquanto valoriza ainda mais a opção lupulada (cítrico e herbal). O resultado é uma bela IPA, que mantém o alto nível de cervejas da casa dinamarquesa / norte-americana. Para fechar com chave de ouro esse primeiro passeio pelas cervejas da Evil Twin, nada melhor que uma Russian Imperial Stout, e a Lil’B honra o estilo, com álcool evidente surgindo caramelado por açúcar mascavo. É muito boa, mas vá com cuidado.

Evil Twin Hipster Ale
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 5,5%
– Nota: 3,47/5

Evil Twin Low Life
– Produto: American Pilsner
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: ,5%
– Nota: 3,65/5

Evil Twin Ryan And The Beaster Bunny
– Produto: Farmhouse Ale
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,68/5

Evil Twin Falco
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,45/5

Evil Twin Lil’B
– Produto: Russial Imperial Stout
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 11,5%
– Nota: 3,82/5

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Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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