Beck e a sabedoria das cicatrizes

por Gabriel Innocentini

“Cycle”, a faixa inicial, serve como declaração de intenções de Beck Hansen em seu novo disco, “Morning Phase”, o primeiro de composições originais desde “Modern Guilty” (2008). Nos brevíssimos quarenta e dois segundos, sem palavras, Beck apresenta o senso de meditação, de paciência e de crescimento dramático – sem explosão catártica – que iremos encontrar nas próximas doze canções.

A transição elegante para a segunda faixa, “Morning” (musicalmente gêmea de “Guess I’m Doing Fine”), traz de volta o clima do aclamado “Sea Changes” (2002). Terreno conhecido, que tem levado alguns a considerarem este disco uma sequência daquele. Há em “Sea Changes” um sentimento doloroso que atravessa o disco de ponta a ponta, uma dor elegante, como diz o poeta, mas uma dor ainda fresca. Ali havia a vontade de ferir na quase indiferença com que Beck cantava o refrão de “Lost Cause” e se perguntava se o destino do amor era então dizer aquelas palavras ferozes.

Entre aquela fúria Beck interpõe agora uma distância (ouça “Turn Away”, logo após “Phase”, outra breve faixa instrumental). O tom meditativo se expressa também na repetição dos versos e no andamento calmo. “Summerteeth”, do Wilco, também utiliza a estrutura repetitiva, mas sempre desembocando num final catártico (“A Shot in The Arm”, “Via Chicago”, “I’m Always in Love”, “ELT”). Beck não sai da trilha da calmaria.

A espectral “Wave” é um exemplo, um delicado trabalho de orquestração a 60 bpm (conduzido por seu pai, David Richard Campbell), que também encontra eco em “Unforgiven”, a criação de um buraco negro espacial e musical em que os amantes podem enfim se encontrar. Sabedoria das cicatrizes – e não apenas das feridas abertas e autoindulgentes como antigamente (a estrofe final de “Paper Tiger”, por exemplo) – mérito da idade e da distância reflexiva adotada no álbum.

“Blue Moon” é outra canção a demonstrar a nova perspectiva encontrada por Beck. Depois de um início nada animador (“I’m tired of being alone”), o refrão apresenta versos que pareciam impossíveis no tempo de “Sea Changes”: “So cut me down to size so I can fit inside/ lies that will divide us both in time”.

Trabalhando num limite mais estreito, ao abandonar a imagem do mar tumultuoso para se concentrar na da onda, Beck consegue explorar melhor o espaço introspectivo de suas canções. Ele confessou o descarte de muitas letras e ideias musicais até encontrar um novo tipo de composição, a dificuldade de tocar guitarra após lesões nas costas, o paciente trabalho de estúdio (primeiro em Nashville, depois em Los Angeles), a necessidade de tocar as canções cada vez mais devagar com a banda (a mesma de “Sea Changes”).

Essa espécie de profundidade achatada é uma das melhores qualidades da recém-conquistada maturidade de Beck. A fase matutina nada ensolarada, que se afunda pela sombra fria, termina sua jornada em “Waking Light”, tentativa de catarse frustrada, com solo de guitarra e tudo.
Talvez a chave de “Morning Phase”, mais que na palavra manhã, esteja na palavra fase. Tempo que se desdobra sem certezas nem ironias, manhã gélida que acalenta pela beleza. Basta apurar o espírito e ter coração para ouvir.

– Gabriel Innocentini (siga @eduardomarciano) é jornalista e já escreveu para o Scream & Yell sobre Tom Waits (aqui), Thomas Pynchon (aqui), Charles Bukowski (aqui) e Jennifer Egan (aqui)

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– “Sea Change”, simplicidade num dos discos mais tristonhos de 2002, por Julio Costelo (aqui)
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