Boteco: Kasteel, má-intenção viciante

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por Marcelo Costa

A Brouwerij Van Honsebrouck foi fundada em 1865 em Ingelmunster, uma cidadezinha de pouco mais de 10 mil habitantes nos Flanders Ocidentais da Bélgica (bem próxima da fronteira com a França). Ainda no comando da família (a sétima geração de Van Honsebrouck responde pelos negócios), a cervejaria produz, provavelmente, algumas das cervejas mais assertivamente alcóolicas de toda Bélgica. A linha Kasteel, por exemplo, de seis cervejas, traz apenas uma de 6.5%, a Kasteel Hoppy, lançada em 2013. As demais flutuam entre 7% (Kasteel Blond), 8% (Kasteel Rouge) e 11% (Kasteel Donker, Kasteel Tripel e Cuvée du Chateau), isso sem contar a Brigand, uma Belgian Golden Strong Ale de 9% de teor alcoólico. Ok, que as cervejas belgas são bastante alcóolicas, a gente já sabia, então qual a diferença das Kasteel? Simples: eles não disfarçam o álcool, o que, muitas vezes, desiquilibra o conjunto, mas parece jogo limpo: é bastante óbvio o que você está bebendo. Por isso, apelidei a linha da Kasteel como carinhosamente mal-intencionadas. Use com sabedoria. Vamos a elas:

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A Kasteel Blond 7º exibe uma coloração dourada e espuma branca de ótima formação e longa permanência, com rendas belgas abraçando a taça. No aroma, deliciosas notas frutadas e cítricas bailam de mãos dadas com uma percepção de malte envolvente que sugere trigo e aveia mais uma pitadinha condimentada da levedura belga sugerindo cravo, banana, feno, limão siciliano, maracujá e maçã verde, conjunto que aproxima esta blond ale de uma witbier. No paladar, de corpo médio e textura suavemente frisante, muito equilíbrio: o dulçor do malte sugerindo caramelo consegue conviver em harmonia com a presença ativa do lúpulo, que distribui notas cítricas e pouco amargor. Há algo de limão siciliano, que percorre do aroma ao paladar, e segue firme até o final, interessante, acompanhado de sugestão de pão e aveia. No retrogosto, uma leve presença cítrica. Uma boa blond ale.

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A Kastel Tripel 11º poderia ser apresentada com uma versão mais alcoólica e saborosa da Blond 7º, embora vá além. De coloração dourada com leve turbidez a frio e creme branco de excelente formação e longa permanência, a Kastel Tripel 11º é uma tripel flamenga com aroma intenso de lúpulos cítricos belgas, que remete a maçã e uva verdes, e, por conseguinte, a vinho branco, devido à percepção intensa de álcool. Em meio ao nevoeiro proporcionado pelas notas cítricas e pela intensidade dos 11% de álcool é possível perceber notas frutadas derivadas do malte (banana e pera), um pouco de trigo e aveia e certa condimentação da levedura. O paladar mantém o encantamento do aroma com um começo bastante frutado (banana, banana e banana) e depois um formigamento alcoólico intenso num conjunto que soa intencionalmente desiquilibrado, com a doçura do malte dando as boas vindas para, logo na sequencia, ser amortecida pelo álcool, que reúne amargor, picância e leve acidez, e irá assim até o final. O retrogosto é calor, um toque cítrico e notas frutadas (banana). Bem boa!

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Não arredando o pé de sua deliciosa vocação alcoólica, a próxima da turma da Brouwerij Van Honsebrouck é a Kasteel Donker 11º, outra cerveja maldosa (no bom sentido – risos) de 11% de álcool. De coloração marrom escura quase chegando ao preto, a Kasteel Donker 11º exibe uma espuma de ótima formação e média permanência. No aroma, notas frutadas que remetem a frutas escuras (ameixa e uva passa) e adocicadas (caramelo, chocolate, açúcar mascavo e baunilha) saltam à frente, mas é possível notar um toque amadeirado e, muito facilmente, o álcool, bastante perceptível no conjunto. No paladar, a textura é levemente licorosa e melada antecipando uma porrada de dulçor (caramelo, chocolate, açúcar mascavo e baunilha) que é amaciada por… álcool (levemente frisante, picante e cítrico). Novamente intencionalmente desiquilibrada, a Kasteel aqui aposta em conjunto fortemente doce e alcóolico, que pode surpreender bebedores. O final é longo, licoroso e melado, com forte sensação de frutas escuras (ameixa principalmente), e se confunde com o retrogosto, que aquece longamente. Indicada para dias frios, bem frios.

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Já a Kasteel Rouge é a delicada fruit beer da Brouwerij Van Honsebrouck, se pode se adjetivar de delicada uma cerveja de 8% de álcool. A base da receita é a Kasteel Brune, que aqui é maturada por seis meses em barris com suco de cereja e cerejas inteiras, o que concede ao conjunto uma coloração avermelhada puxada para rubi, com creme de baixa formação e permanência. No aroma, notas intensas de frutas vermelhas (cereja e amora) com um leve azedinho que remete a kriek, mesmo estando diante de uma fruit beer. O álcool, como em todas as Kasteel, está presente, mas acaba se dispersando em meio a acidez da fruta. No paladar, muito adocicado da fruta amaciando os 8% de álcool num conjunto que remete a uma geleia de cereja alcoólica, meio doce, meio azedinha, uma delícia viciante. É quase o meio termo entre uma kriek e uma fruit beer. O final é adocicado, frutado e azedinho, e tudo isso retorna no retrogosto. Excelente.

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Se foi aconselhado retirar as crianças da sala durante a descrição de todas as cervejas anteriores extremamente alcoólicas da Kasteel, a Cuvée Du Chateau eleva o conselho a outro patamar: chame aquele amigo seu fã de vinho, e que não vê qualidades em uma boa cerveja. Sabe a sede do castelo em Ingelmunster? Então, a turma da cervejaria abriu o novo século envelhecendo a Kasteel Donker 11% por… 10 anos em barris de carvalho nos porões do castelo. A primeira leva chegou ao mercado em 2010 e essa da foto é a “terceira turma” da Cuvée Du Chateau, ano 2012. De coloração marrom escura quase chegando ao preto com espuma majestosa bege, de pouca permanência, a Kasteel Cuvée Du Chateau mantém intactos os 11% de álcool da Kasteel Donker 11º, e amplia os aromas e sabores da versão original. O toque amadeirado da versão de base cresce com a maturação e sugere vinho do Porto tanto quanto exibe notas de frutas escuras em profusão (ameixas e amores) e muito adocicado (baunilha, açúcar mascavo e melaço queimado). O álcool também está ali, mas, ao mesmo tempo que amplifica aromas e sabores, o envelhecimento consegue inserir a portentosa graduação alcoólica no conjunto, de forma que não fica tão agressivo como nas versões tradicionais da casa (embora seja perceptível). No paladar, o adocicado intenso se une a certa vivacidade característica dos melhores vinhos formando um conjunto arrebatador, que finaliza com algo adocicado, alcoólico e frutado (puxado pra uva!), O retrogosto é… sorrisos.

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A Brigand (nome dado em homenagem aos camponeses que expulsaram os franceses de Ingelmunster em 1798) é uma Belgian Golden Strong Ale de 9% de teor alcoólico e coloração entre o dourado e o âmbar claro, com excelente formação de creme, de média permanência. As principais características da Brouwerij Van Honsebrouck estão presentes aqui: desequilíbrio que valoriza o álcool, notas intensas de aroma e paladar e o calor que sobe após a degustação de apenas uma garrafinha. No aroma, um belo duelo entre lúpulo (floral e cítrica) e a força do malte distribui notas adocicadas (leve caramelo) com uma pitadinha de sensação cítrica (maracujá e laranja bem discretos) e condimentação derivada da levedura. O paladar é forte e tem uma textura frisante, cortesia dos 9% de álcool que criam salivação imediata, e primeiro ataque rápido de dulçor. Na sequencia, não é a lupulagem que pula à frente, mas sim a carga personal da levedura, que confere ao conjunto um tiquinho de acidez além de – em contato com o malte – sensação de resina. No final, a levedura ainda dá as cartas inserindo acidez e, com auxilio do lúpulo, leve amargor evitando o final adocicado. No retrogosto, pêssego, resina e calor.

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Balanço

Começando pela Kasteel Blond 7º, talvez a Blond Ale mais exótica que já bebi. Primeiro por carregar 7% de álcool completamente escondidos. Segundo por flutuar com delicadeza entre uma Weiss alemã e uma Witbier belga. Bem frutada, com percepção cítrica deliciosa, a Kasteel Blond 7º surpreende, mas é brincadeira de criança (belga) se colocada ao lado da Kastel Tripel 11º, rótulo que não faz nenhuma questão de esconder seus 11% de álcool, ainda que distribua intensas notas frutadas (banana e pera) e cítricas (maçã e uva verdes). O conjunto soa bastante desproporcional, mas impressiona não só pelo calor que promove, mas também pelo sabor. Uma cerveja que causa quentura, e que não esconde isso. Perfeita para mal-intencionados de plantão. Da mesma forma, a versão Belgian Dark Strong Ale da Kasteel chamada Donker 11º não está para brincadeira. Bastante adocicada tanto quanto alcóolica, a Kasteel Donker 11º é perfeita para o inverno por promover aquecimento rapidamente. Se quiser prova-la, espere por bastante doçura presente em todas as fases (mas mais intensas no paladar, principalmente no primeiro toque e no final – o meio é puro álcool). Intencionalmente desiquilibrada para desiquilibrar o bebedor. Cuidado com essa menina, cuidado.

Cuidado redobrado também com a Kasteel Rouge. O álcool, como em todas as Kasteel, está presente, mas acaba se dispersando em meio à acidez da cereja (talvez seja a Kasteel que melhor “disfarça” a graduação). No paladar, muito frutado adocicado amaciando os 8% de álcool num conjunto que remete a uma geleia de cereja alcoólica, meio doce, meio azedinha, delícia viciante. Quase o meio termo entre uma kriek e uma fruit beer. A Kasteel Cuvée Du Chateau é uma Belgian Dark Strong Ale que tem tudo para fazer um bebedor de vinho feliz. Envelhecida por 10 anos em uma cave milenar, a cerveja que se despeja na taça é brilhantemente alcoólica – com quase tudo que tem a marca Kasteel – e intensamente saborosa, remetendo a frutas escuras, vinho do Porto, calor, boteco no fim da madrugada com todo mundo falando ao mesmo tempo, alegria de um abraço, coisas assim. É uma daquelas cervejas que mostram que é possível transformar a bebida alcoólica mais consumida no planeta em algo… surpreendente. Palmas, palmas e palmas. Fechando a turma, a Brigand, uma Belgian Golden Strong Ale acintosa, que enfrenta o bebedor com olho no olho, e, se você bobear, o arqueiro te derruba. Muito boa, mas não minha preferida. Abaixo, você descobre…

Kasteel Blond 7º
– Produto: Belgian Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,15/5

Kastel Tripel 11º
– Produto: Belgian Tripel
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 11%
– Nota: 3,43/5

Kasteel Donker 11º
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 11%
– Nota: 3,41/5

Kasteel Rouge
– Produto: Fruit Beer
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,51/5

Kasteel Cuvée Du Chateau
– Produto: Belgian Dark Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 11%
– Nota: 4,17/5

Brigand
– Produto: Belgian Golden Strong Ale
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 9%
– Nota: 3,40/5

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