Três perguntas: Russell Slater

por Marcelo Costa

Cerca de três meses atrás, Russell Slater me procurou no Facebook com algumas perguntas sobre a nova música brasileira. Russ é britânico, vive em Brighton, cidade praieira próxima de Londres, e é um apaixonado pela música da Amérida do Sul, que conheceu quando passou pelo continente sul-americano cinco anos atrás. Quando foi procurar informação sobre os artistas que tinha conhecido na viagem, não encontrou quase nada em inglês, e decidiu criar um site para cobrir essa lacuna. Nascia a Sounds and Colours: http://www.soundsandcolours.com.

“Rapidamente o blog ganhou destaque e muita gente perguntou se poderia contribuir”, relembra Russ, que agora tem colaboradores “com base em todo o Reino Unido, EUA e América do Sul cobrindo uma quantidade absurda de acontecimentos culturais”. Na Sounds and Colours você poderá ler sobre a nova house music chilena e sobre os argentinos do El Mató A Un Policía Motorizado, sobre o filme brasileiro “O Som ao Redor” (lá, “Neighbouring Sounds”) e também explorar a música callajera afro-colombiana.

Prestes a lançar uma edição impressa focada no Brasil (“Sounds and Colours Brazil”) com colaboração de Hermano Vianna, Pablo Miyazawa e José Teles, entre outros, Russell falou ao Scream & Yell sobre o cenário atual da música britânica elencando dubstep, Arctic Monkeys e o vício de muitos novos artistas ingleses em quererem soar americanos (inclusive no sotaque!) e diz que há algo realmente especial acontecendo na nova música brasileira: “Esqueça Caetano, João Gilberto e Milton: a nova geração está ai e ela é tão boa!”, recomenda.

Como surgiu Sound & Colours e sua paixão pela música da América do Sul?
Cerca de uns cinco anos atrás, eu passei mais de um ano viajando pela América do Sul – especialmente por Brasil, Argentina e Uruguai. Durante esse tempo descobri um grande número de estilos de música que eu não tinha conhecimento. Coisas como The Roots of Chicha, do Peru, Eduardo Mateo, do Uruguai e Secos & Molhados e Os Novos Baianos no Brasil. Sempre que eu tentava descobrir mais sobre essa música, eu não consegui encontrar nada em Inglês (no caso de Eduardo Mateo é impossível encontrar qualquer informação mesmo em espanhol!). E então eu decidi começar um blog que cobriria a música alternativa menos conhecida da América do Sul. Rapidamente o blog (Sound and Colours) ganhou destaque e muita gente perguntou se poderia contribuir. A partir daí, o site tornou-se muito mais do que um blog e começamos a escrever sobre filmes, arte e literatura, além de música. Agora temos colaboradores com base em todo o Reino Unido, EUA e América do Sul cobrindo uma quantidade absurda de acontecimentos culturais. É engraçado como as coisas funcionam!

Vocês já lançaram um projeto chamado “Sounds & Colours Colômbia” e agora estão desenvolvendo um projeto semelhante sobre o Brasil. Como é esse projeto?
A Sounds & Colours Colômbia foi a primeira publicação impressa que fizemos. A ideia era fazer algo que fosse parte livro, parte revista e parte fanzine, reunindo artigos, ilustrações e fotos que retratassem uma ampla gama da cultura colombiana, e que também trouxesse um CD com músicas da nova geração do país. Esse projeto foi lançado no ano passado e está perto de esgotar (ainda é possível compra-lo aqui). Impulsionado por este sucesso, decidimos fazer outro livro / CD, desta vez sobre o Brasil. Fomos pesquisando, escrevendo e produzindo este último projeto durante os últimos seis meses, e na verdade estamos perto de publicá-lo.

A Sounds and Colours Brazil (que pode ser encomendada aqui) terá uma grande variedade de artigos e trabalhos artísticos, englobando a música de todo o Brasil, com muita coisa sobre as cenas alternativas de São Paulo, Rio, Salvador, Belo Horizonte, Recife e Belém. Entre os nossos colaboradores estão Hermano Vianna, Pablo Miyazawa, Arthur Dantas, José Teles e muitos outros jornalistas respeitados e pesquisadores de todo o mundo. Haverá também seções sobre cinema, literatura, carnaval e arte – com trabalhos especiais de Raul Luna, Pedro Gutierres e Zansky – bem como um CD de 20 músicas de artistas brasileiros, e muito mais.

Como você vê a música feita na Grã-Bretanha hoje? E no Brasil?
Há uma música incrível sendo feita na Grã-Bretanha, gente como Richard Dawson, Joeyfat, Bilge Pump e David Thomas Broughton são alguns dos meus favoritos, mas todos eles estão atuando fora do mainstream. Como acontece com qualquer país, a música mais excitante e criativa é muitas vezes difícil de encontrar. No entanto, também acho que a Grã Bretanha não vive o seu melhor momento musical. Há poucas bandas populares fazendo algo interessante. Mesmo o Arctic Monkeys, que começou com um projeto marcante, está lentamente ficando menos interessante, e o dubstep foi uma tentativa de comercializar um grupo vagamente conectado de músicos, dos quais apenas um ou dois tinha realmente algo interessante a dizer. E tal como acontece em muitos outros países, também há muita gente cantando com sotaque americano aqui!

Um dos problemas com a música britânica é que grande parte da música (feita aqui) é construída em torno de ritmos simples que são perfeitos para o rock e para a dance music, e assim a maioria dos experimentos são com textura, dinâmica e melodia. No Brasil, os músicos também estão usando esses elementos, mas colocam diversos ritmos, tradições e instrumentos folclóricos na mistura, assim como uma sensibilidade pop inata. Sem contar o fato de que há também uma incrível gama de diferentes cantores como Criolo, Tulipa Ruiz, Lucas Santtana, Siba e Marisa Monte (só para citar alguns), o que significa que existem muitos artistas inteligentes, criativos e interessantes para admirar. Não tenho certeza que esse é o caso da Grã-Bretanha (atualmente). É por tudo isso que ouço a música nova brasileira. Há algo realmente especial acontecendo que os brasileiros realmente deveriam se orgulhar. Esqueça Caetano, João Gilberto e Milton: a nova geração está ai e ela é tão boa!

Uma das reportagens que estará em Sounds and Colours Brasil

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Criolo: na linha de frente da quebra de preconceitos, por Bruno Capelas (aqui)
– Dois olhares sobre Tulipa Ruiz, por Tiago Agostini e Juliana Simon (aqui)
– Lucas Santanna: “o problema não são as canções”, por Renan Simão e Sérgio Viana (aqui)
– “Avante”, de Siba: um disco atemporal repleto de bons momentos, por Mac (aqui)
– Marisa Monte: “O amor é uma forma de inteligência”, por Marcelo Costa (aqui)

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