Orelha Negra: Ampliando horizontes

por Ary Marmo

A paixão pelas sonoridades afro-americanas reuniu de forma despretensiosa cinco grandes músicos portugueses para fazerem o que mais gostam: Música. Depois de uma turnê com Sam the Kid (um dos rappers mais influentes de Portugal), Francisco Rebelo e João Gomes (ambos da Cool Hipnoise), Fred (Buraka Som Sistema), DJ Cruzf, além do próprio Sam criaram o projeto chamado Orelha Negra.

Em pouco tempo a banda de hip hop instrumental ganhou destaque na Europa e em Portugal, tendo o álbum de estreia entre os mais vendidos do país em 2010 e eleito pela critica como um dos melhores do ano, o que lhes rendeu a indicação ao MTV Europe Music Awards. Depois disso gravaram mais um disco e duas mixtapes com a participação de nomes importantes como Valete, Xeg, NBC, Mônica Ferraz, Amp Fiddler, Lucia Moniz, Orlando Santos, entre outros.

Essa semana, o único grupo de Hip Hop em Portugal que não tem um vocalista desembarca no Brasil para tocar no primeiro dia do Rock in Rio, 13/9, com o rapper brasileiro Flávio Renegado, estendendo uma parceria no palco com a música brasileira que, no ano passado, rendeu um encontro no Rock in Rio Lisboa com Hyldon e Kassin. O tecladista João Gomes fala sobre o projeto, a participação deles na edição carioca do festival, os discos, Brasil e muito mais.

Apesar de ser uma banda formada por grandes músicos, imaginavam que iria dar tão certo e ter um dos álbuns mais vendidos de Portugal?
Não. No início não pensamos que este projeto fosse ganhar tantos fãs tão depressa, e uma base tão grande de pessoas, que nos tem apoiado imensamente.

Vocês já estão consolidados em Portugal e na Europa. Como é o cenário atual em comparação ao começo da banda?
Na Europa já existe esse espaço há muito tempo, embora seja mais difícil ter destaque, pois há muita música sendo feita em todo o lado, e a toda a hora. Lisboa está numa zona de periferia em relação às principais cidades, e em Portugal, parece-nos que abrimos algumas portas a esse respeito.

A base de vocês é o hip-hop instrumental, mas passeiam por várias vertentes da música negra. Como é o processo de composição das músicas?
A maior parte das ideias surge a partir de sequências feitas pelo Sam na MPC, que ele não desenvolve tanto, como se fosse fazer um “beat”. Normalmente ele leva-as para a sala de ensaios, e nós usamo-las como mote. Tentamos sempre simplificar ao máximo as estruturas, porque achamos que isso é muito importante quando se trata de música instrumental. As influencias têm a ver com os nossos percursos como músicos individuais, que sempre estiveram ligadas à música negra/afro/latina/rock e Hip Hop.

E como são feitas as escolhas dos repertórios dos discos?
Normalmente é muito difícil e exaustivo. Tentamos sempre gravar o máximo de ideias possível, para depois podermos escolher, mas não temos lançado discos muito grandes ou muito conceituais… até agora o conceito da banda, em si, tem-nos parecido suficiente.

As capas dos discos trazem certa curiosidade, a banda aparece “sem rosto”. É uma questão gráfica ou para dar destaque mesmo a música?
A intenção sempre foi dar destaque mesmo à música. Quando começamos, já todos tínhamos carreira em Portugal, e éramos conhecidos de outros projetos. Não queríamos que a curiosidade em volta da banda estivesse relacionada a isso, mas sim ao que as pessoas ouvissem, sem preconceitos.

Vocês lançaram o disco “Mixtape” em 2011 e resolveram esse ano apostar na continuação com a “Mixtape II”. Como foi a seleção de participações especiais nos dois álbuns?
No primeiro, tentamos ter uma seleção, eclética em termos de estilos musicais representados, com remixes de drum and bass até versões feitas por bandas rock, mas quase tudo feito por músicos de Portugal. Na segunda mixtape, tentamos ser um pouco mais fieis ás “nossas músicas”, e ter artistas que tivessem mais a ver com a nossa carreira. Procuramos abrir mais os horizontes, em termos geográficos, com participações de músicos de vários cantos do mundo.

Esse caminho tem dado certo. Pretendem lançar outras mixtapes futuramente?
Talvez sim… depende um pouco de como for o próximo álbum.

Já pensaram em gravar com algum cantor brasileiro? Como é a relação de vocês com os músicos daqui?
Já gravamos. Ainda não lançamos, mas gostaríamos muito (o baterista Fred Ferreira dividiu com Marcelo Camelo a produção de “Vazio Tropical”, de Wado). Temos vários amigos músicos no Brasil. Principalmente em São Paulo e no Rio – Kassim, Marcelo Camelo, Criolo, Claudio Andrade, Daniel Ganjaman… Mas nunca tivemos oportunidade de trabalhar mais em conjunto. Talvez numa próxima mixtape.

O que vocês gostam de escutar da música brasileira?
Hoje em dia é difícil escutar música brasileira moderna em Portugal. As músicas das novelas, mais bregas, chegam aqui com muita força… Por outro lado, novas bandas e projetos mais alternativos não são nada divulgados por aqui. Mas todos sempre ouvimos muito Tim Maia, e a cena da Jovem Guarda. MPB classica e Bossa Nova. Tudo o que seja Tropicalismo, Mutantes, clássicos… Também no hip hop ouvimos hoje em dia Emicida e Criolo. Historicamente, o Gabriel foi muito importante em Portugal, porque apareceu numa época em que não havia grande apoio mainstream a esse estilo de música, e ele fez um grande sucesso aqui, tendo influenciado muitos garotos que estavam começando a rappear.

Em 2012, na edição do Rock in Rio Lisboa vocês tocaram com o Hyldon e o Kassin. Como foi a apresentação?
Foi muito boa. Tocamos repertório dos três, foi muito bom fazer a viagem psicodélica do Kassin, e depois aterrisar no planeta cheio de amor do Hyldon. Além disso foi uma experiência única podermos tocar com esse grande nome da música negra em Português: Hyldon!

Esse ano vocês estreiam no Rock in Rio aqui no Rio e serão responsáveis por fechar o primeiro dia no Palco Sunset. Qual a expectativa de vocês?
Esperamos que os nossos fãs do Rio estejam lá, e que esta seja uma primeira apresentação em colaboração, que nos abra portas para regressarmos com o nosso espetáculo normal.

No Rio vocês irão tocar com o Renegado e normalmente não fazem show com voz. O que o público pode esperar da apresentação? Já se conheciam? Como surgiu o convite?
O Flávio Renegado é um grande entertainer e excelente rapper. Pensamos que, se normalmente os nossos concertos acontecem sem um “frontman”, com ele ainda vai rolar melhor. Não nos conhecíamos antes, e foi o programador do palco (Zé Ricardo) que sugeriu a colaboração. Entretanto já estivemos com ele tanto em Lisboa como no Rio, e tenho certeza que vai ser um grande encontro.

Como foi a escolha do setlist? Vai rolar alguma surpresa?
Ainda estamos definindo essas questões… vamos ver… talvez…

Algum projeto novo para esse fim de ano e 2014? Previsão de um novo álbum?
Vamos continuar tocando muito em Portugal. Com esta nossa visita ao Brasil, vamos tentar regressar, ainda antes do final do ano também. Também gostaríamos de lançar os nossos discos fora de Portugal, o que ainda só acontece digitalmente. De resto, temos também outros projetos de estúdio, com outros artistas com os quais colaboramos em Portugal, para lançar em 2014.

– Ary Marmo (@AryMarmo) é jornalista e escreve no Som do Som: www.somdosom.com

Leia também:
– Orelha Negra em 2011: “Trabalhámos muito para ter um som homogéneo” (aqui)
– Orelha Negra em 2012: “O princípio da comunicação musical e pessoal é salutar” (aqui)
– Especial: conheça a nova cena musical portuguesa, por Pedro Salgado (aqui)

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