Três CDs: Wado, Apanhador Só, Tom Zé

por Marcelo Costa

“Vazio Tropical”, Wado (Oi Música)
Passados 12 anos desde a estreia com “Manifesto da Arte Periférica” (2001), Wado chega ao 7º disco despindo-se musicalmente. A produção de Marcelo Camelo valoriza o mapeamento do abandono proposto pelas canções. Em seus discos solo, Camelo vem se especializando em esvaziar o arranjo para valorizar a canção (influência de seu envolvimento com o Hurtmold), e usa o mesmo método em “Vazio Tropical”. O que diferencia a obra do produtor para a de seu produzido é que Wado preza a canção, e quanto mais Camelo despe os arranjos, mais Wado surge, de peito aberto, observando mendigos nas multidões e partidos enquadrando sonhos, como diz a letra de “Cidade Grande”, que já havia sido gravada por Cris Braun – a comparação entre as duas versões (a de Cris, mais robusta e impávida; a de Wado, mais franzina e melancólica com destaque para o delicado trompete de Bubu) mostra o caminho que será seguido em todo o álbum. “Rosa”, parceria com Cícero, traz Wado em seu melhor: “Os olhos dela ensinam estrelas a brilhar, vai doer / Os braços dela ensinam ondas a quebrar, vai doer / Vai doer, mas depois vai passar”. A dor está intrinsicamente ligada ao amor. Vai doer, mas depois vai passar. “Flores do Bem”, bela canção de MoMo com participação do próprio, reverencia Chico Buarque (que deveria grava-la em seu próximo disco) enquanto “Zelo”, outra parceria com Cícero, que divide os vocais com Wado, soa uma canção para ninar o amor enquanto se espera o tempo passar. A voz chorosa de Marcelo Camelo combina com a melancolia de “Tão Feliz” enquanto “Canto dos Insetos” e “Cais Abandonado” dissecam o abandono. “Quarto Sem Porta” e “Primavera Árabe” promovem o lado chameguinho de um álbum tropical, mas cinza, um esforço conjunto entre produtor, produzido e participantes, de louvar o silêncio em um disco bonito que, quanto mais se cala, mais fala.

Nota: 9
Ouça online: http://www.rdio.com/artist/Wado/album/Vazio_Tropical/

Leia também:
– “Samba 808 ao vivo”: Wado soube andar muito bem com as próprias pernas (aqui)
– “Fábula”: Cris Braun sabe bem o som que busca. E ele é bonito, bem bonito (aqui)

“Antes Que Tu Conte Outra”, Apanhador Só (Independente)
Eis o beneficio da independência. Após lançar um álbum pungente em 2010, “Apanhador Só”, repleto de canções pop classudas que davam um passo à frente da influência (nefasta) que o Los Hermanos exerce sobre a cena independente nacional do novo século, o Apanhador Só começou um processo de piração que incluiria um lançamento em fita cassete de canções rearranjadas para um projeto acústico-sucateiro e também um compacto em vinil branco, “Paraquedas”, que funciona como objeto de transição entre o álbum de estreia e o recém-lançado “Antes Que Tu Conte Outra”, disco corajoso bancado por fãs via crowdfunding que, provavelmente, nunca seria lançado por uma major, tamanha a esquisitice das canções que confundiriam homens de grandes gravadoras viciados em cifrões. Desconstrução, microfonias, citações, desarranjos, despirocações, Tom Zé e, principalmente, o Paralamas do magnifico “Severino” (1994) são algumas das chaves que permitem adentrar o mundo complexo de “Antes Que Tu Conte Outra”, que não é daqueles discos fáceis, sem arestas, que você ouve uma vez e já entende. Pelo contrário: o novo Apanhador Só, repleto de camadas (construídas com tecladinhos de brinquedo, ukelele, scratch, latinha de chumbinho, cama de mola e muito mais), pede atenção e dedicação, e canções como “Vitta, Ian, Cassales” (com citação atravessada de “Walk on The Wild Side”), o anti-jingle “Líquido Preto” (composto antes da polêmica com a propaganda de Tom Zé), o primeiro single “Despirocar” mais “Torcicolo”, “Nado” e a balada tristonha “Cartão Postal” são pérolas brutas esperando a lapidação do ouvinte. Não se precipite: “Antes Que Tu Conte Outra” é um grande disco. Ali pra dezembro será, inevitavelmente, um dos melhores discos que você irá ouvir este ano. Vá com calma e aproveite o passeio. Vale muito a pena.

Nota: 9
Download: http://www.apanhadorso.com/

Leia também:
– O guitarrista Felipe Zancanaro conta sobre o projeto “Acústico Sucateiro” (aqui)

“Tribunal do Feicebuqui”, Tom Zé (Independente)
Em março de 2013, pseudo-intelectuais de plantão saíram à caça de Tom Zé acusando o músico de divulgar uma marca imperialista, no caso, a Coca-Cola, da qual Tom Zé foi garoto propaganda (aos 76 anos). Incomodado, o músico abriu o coração em seu blog, e, insatisfeito, foi além: lançou um EP virtual gratuito, “Tribunal do Feicebuqui”, com cinco canções sensacionais analisando a polêmica. A conversa de Tom Zé com músicos da nova geração, iniciada em “Tropicália Lixo Lógico” (2012), alcança aqui seu auge. Na canção de abertura, “Tom Zé Mané”, Marcelo Segreto (Filarmônica de Pasárgada), Gustavo Galo (Trupe Chá de Boldo), Tatá Aeroplano e Emicida constroem um painel ironicamente corrosivo: “Vendido, vendido, vendido! A preço de banana! Já não olha mais pro samba / tá estudando propaganda”. Emicida ainda contemporiza: “Se fosse Dolly”, para finalizar: “Que é que custava morrer de fome só pra fazer música?”. Em “Zé a Zero”, a questão se inverte: “Quando ligo na TV caio duro no sofá (…) É copa coca acolá fazendo propaganda do Tom Zé” (e ainda guarda uma frase definitiva: “Mas navega lentamente pois é indie e dependente”). “Taí”, escrita 40 anos atrás para uma propaganda de refrigerante, volta recalchutada enquanto “Papa Francisco” (letra esperta de Tim Bernardes, d’O Terno) filosofa: “Meu coração fundamentalista pede socorro aos intelectuais / Pois a diferença entre esquerda e direita já foi muito clara, hoje não é mais”. Com textos afiados (tão raros hoje em dia) e uma roupagem musical de alta qualidade, o único defeito de “Tribunal do Feicebuqui” é ser apenas um EP, mas há possibilidade de se transformar em álbum cheio e físico até o fim do ano, o que seria melhorar ainda mais o melhor disco nacional de 2013 até agora.

Nota: 9,5
Download: http://www.tomze.com.br/

Leia também:
– Entrevista: Tom Zé fala sobre “Tropicália Lixo Lógico”, Chico César e “Todos os Olhos” (aqui)

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

17 thoughts on “Três CDs: Wado, Apanhador Só, Tom Zé

  1. Não entendi o disco do Apanhador Só, acho experimental fora de hora, não sei. Caberia num terceiro, quarto disco, não agora. Sei que tem coisas que mais parecem formato de banda (ali no miolo do álbum) e outras que são malucas. Acho bem vindo, mas não gostaria que fosse pretexto pra mutilar a banda.

  2. Esse disco da Apanhador tá sensacional, de fato, e já nas primeiras ouvidas até.

    Só que Líquido Preto não é uma declaração de amor a coca…muito pelo contrário (ainda bem)!! ouve com atenção ali..é um bom tapa de luva..

  3. O Tom Zé divulgou que devolveu o dinheiro da propaganda da Coca-Cola.
    Ou seja, sentiu o baque, o ataque dos “pseudos intelectuais”.
    E eu que até agora ainda não achei/tomei nenhuma latinha com o nome de Irará. rsrrsrsrsrsrrsrs

    PS: O Mac é uma babação danada com o Wado.
    O vocal dele me incomoda.

  4. Alguém me explica. Se um disco desses recebe 9 o que Acabou Chorare receberia? é de um ponto a diferença entre eles?Pra mim,depois de ouvir bastante até onde meu gosto pôde suportar wado e apanhador só, são previsíveis. O fato de a produção deles ser excelente e bem apadrianhada não deveria determinar a qualidade da musica deles. Me parece que é essa a convenção atual entre os críticos,baixar a barra pra fortalecer a Pane… aliás a cena.. Eles são sim artistas bastante dedicados, e com certo talento, mas ainda não produziram nada muito inspirado, tendo como base todo o que a musica brasileira já produziu. O ultimo disco do edvaldo Santana – Jataí, O ultimo do caetano, do Tom zé , tem canções únicas, memoráveis. Eles são substituíveis , esquecíveis .5 no máximo pra Wado e Apanhador só.

  5. Rodrigo, toda crítica é uma tentativa de avaliar um objeto de arte dentro de um espaço/tempo. È simplista pegar o disco que hoje você considera clássico e dizer algo desse tipo. Porque crítica também é um exercício de tiro no escuro, inevitavelmente. Os discos do Led Zeppelin foram detonandos quando lançados, e hoje são clássicos. “Yoshimi”, do Flaming Lips, recebeu 5,5 estrelas num máximo de 5 da Uncut, e isso quer dizer que ele é melhor que o Led Zeppelin? Não, apenas que naquele espaço/tempo ele era, para o crítico em particular e a revista em geral, um álbum sensacional. E isso tudo porque resenha é também, é sobretudo, pessoal. Você pode achar que os discos acima são esqueciveis, nota 5, eu não. Na minha opinião, e por isso o texto é assinado, eu acho que eles são nota 9 e o disco do Caetano, nota 5 (há resenha no site). E é a minha opinião. É como eu vejo essa produção cultural. Pra mim, esses três trabalhos acima são alguns dos melhores discos do ano no quesito música brasileira. Você não precisa concordar, mas é a minha opinião. O que para você pode ser previsivel, para mim pode não parecer.

  6. Ouvi esses dias o disco do Apanhador Só e fui pego logo de primeira. Se toda a esquisitice fosse assim, o Brasil estava salvo. Mesmo que o problema aqui não é qualidade, mas visibilidade de trabalho tão bons quanto estes 3 comentados. Tom Zé no topo!!

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