Rodrigo Salem, um jornalista brasileiro em Los Angeles

entrevista por Marcelo Costa

Desde que o Scream & Yell surgiu, lá na segunda metade dos anos 90, sempre buscamos deixar explicito o respeito e paixão que tínhamos pela profissão de jornalista. Não à toa, nas edições impressas do Scream & Yell, ainda fanzine, criamos uma seção chamada “Matérias Antológicas”, que visava resgatar textos de jornalistas que considerávamos clássicos e dar eles uma segunda vida, uma certa perenidade (logo que o Scream & Yell estreou na web tratamos de recriar essa seção, ainda hoje no ar com alguns de nossos textos favoritos).

Paralelamente, em 17 anos de internet, o Scream & Yell buscou sempre se posicionar como um veículo independente bastante aberto, amplo e provocativo na tentativa de abraçar as mais diversas manifestações artísticas, ou como definiu resumidamente a Agência Publica em seu Mapa do Jornalismo Independente, “um site de jornalismo musical aprofundado independentemente do apelo do entrevistado: tratando Caetano Veloso, Romulo Fróes e Loomer como iguais, porque todos fazem boa música.”

Desta forma, seria natural que um dos vários públicos característicos do site fossem jornalistas e/ou estudantes de jornalismo, profissionais em formação na área de Comunicação Social que encontraram no Scream & Yell um refúgio de ideias e novidades. Pensando nisso, surgiu uma ideia natural de conversar com jornalistas representativos em sua área de atuação buscando ampliar o leque de conhecimento oferecendo relatos, experiências e um certo aprofundamento dessa profissão que todo dia alguém insiste em dizer que morreu.

Para começar essa série, o Scream & Yell conversa com Rodrigo Salem, jornalista especializado na área de cinema, residindo e trabalhando em Los Angeles como correspondente da Folha de São Paulo, e colaborador de diversos veículos. Rodrigo, nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, começou sua carreira profissional no Diário de Pernambuco ainda nos anos 90, e passou pelas revistas SET, Contigo!, GQ e pelo caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo. No bate papo abaixo, dividido em várias trocas de e-mails, Rodrigo Salem conta um pouco de sua experiência na área, além de histórias do meio cinematográfico. Confira.

De LA para Natal: como o jornalismo surgiu na sua vida? Alguém na família é jornalista? Ou não tinha ninguém pra te dizer “menino, não faz isso com a sua vida não!”? (risos)
(Risos) Ninguém era jornalista, mas digamos que não era uma profissão muito comum na época. Na verdade, estudei para fazer medicina – talvez porque mirava meu pai, que é médico –, mas há poucos dias da inscrição no vestibular, acordei pensando em jornalismo: já gostava muito de quadrinhos, livros, música e cinema. Por que não escrever? Ainda fiz a faculdade de comunicação entre dois caminhos, pois ainda pensei em trabalhar com criação em publicidade. Mas, aos poucos, notei que minha turma mesmo era no ramo do jornalismo: virei editor do jornal do curso, mesmo sendo mais jovem que meus colegas e nunca mais mudei.

Quais foram as primeiras editorias que você trabalhou? Começou em Cultura direto ou rolou passar por Cidades, Esportes e outras?
Sou um caso raro no jornalismo e não gosto do meu exemplo. Acho que um bom jornalista de cultura precisa ou deveria passar por uma editoria mais geral, para poder lapidar o texto. Aprender o beabá para poder experimentar em cultura, que permite uma maior liberdade criativa nos textos (mas não tanto quanto algumas pessoas acham). Mas fui para o Diário de Pernambuco direto para a editoria de cultura. Eu tinha um portfólio extenso de frilas feitos durante a época de estudante para revistas de São Paulo, como Wizard, Herói, General, Bizz… No Recife, em 1997, cobria o que caia no meu colo, porque repórter não tem isso de escolher pauta. Depois, passei mais a fazer música com a saída do setorista da época. Com um ano de jornal, Rogerio de Campos e André Forastieri me convidaram para ser editor da Herói, em São Paulo, mas o jornal cobriu a oferta e me promoveu para repórter sênior. Nesta época, passei a me dedicar mais a cinema, principalmente porque estava fazendo várias colaborações para a revista SET, que era comandada por Isabela Boscov. Quando a revista passou da Abril para a editora Peixes, Roberto Sadovski, um amigo de infância em Natal, virou editor-chefe da revista e me convidou para ser editor da revista. Desta vez, nem passei a oferta para o jornal. Fui direto.

Antes de chegarmos a São Paulo, como foi essa experiência no Diário, em Recife? Qual o período que você trabalhou lá? Tem alguma entrevista bacana que você fez nessa época que você curte?
No Diário de Pernambuco, entre 1997 e 2000. Foi pós-morte de Chico Science, um cara que conheci ainda como estudante de jornalismo em João Pessoa e que conversamos muito sobre quadrinhos – principalmente, Sandman. Então, a vontade de ir para Recife aumentou muito depois desse choque. Minha entrevista de emprego aconteceu semanas ou dias depois da morte dele. Eu trabalhava numa loja de discos em João Pessoa que era tão boa que algumas pessoas de bandas de Recife iam comprar lá. Conheci várias bandas assim. No Diário de Pernambuco foi como aprendi a ser jornalista de verdade. Foi quando aprendi muito sobre isenção e reportagem com os editores Rodrigo Carreiro e Beto Resende. Algo que não bateu bem com a cultura, de certa forma, paternalista da cidade: os artistas do Recife achavam que precisávamos seguir o mote do “tudo que é daqui é bom.” Então, esse pouco deslumbramento e o fato de não ser da panelinha manguebeat renderam várias inimizades momentâneas, mas que entraram nos eixos com o passar dos anos, quando o artista entende que não é nada pessoal. Um conselho SINGELO que guardo até hoje do autor Raimundo Carreiro, colunista do jornal e um dos escritores mais premiados do Brasil: “Você não pode ter amigos como repórter, porque amigos acham que podem enfiar o dedo no seu cu e sair sorrindo”. Meu Lester Bangs (risos). Não lembro de alguma entrevista que tenha me marcado (deve ter, mas minha memória é péssima, porque lembro que entrevistei até Waldick Soriano em um circo), mas tenho bastante orgulho de ter sido um dos primeiros a escrever sobre o Los Hermanos. Eu tinha uma coluna de música chamada Microfonia e ouvi a demo na época, antes da banda tocar no Abril Pro Rock. Claro que pirei no som. Achei que era mais uma tiração de sarro, pois não existia aquele hardcore romântico no Brasil na época. A banda me ligou assim que chegou ao Recife para o ApR, na rodoviária, e ajudei a chegar ao hotel onde ficariam. Ficamos bons amigos depois daquilo e compreendi melhor o som do grupo, que realmente admiro. Quando o segundo disco saiu, escrevi no jornal que era o mais importante lançamento do rock nacional desde os primeiros discos de Chico Science e Nação Zumbi e mundo livre S/A. Muita gente falou que eu estava louco, choveram e-mails criticando. Mas, novamente, o tempo sempre é amigo da razão.

E perrengue, rolou algum que hoje você ri, mas na época foi tenso?
Na época do jornal, não que me lembre. Já quando comecei a cobertura internacional pela SET, vários perrengues (risos).

Então vamos para São Paulo: você trabalhou um bocado de tempo na SET, certo? Foi ali que o Cinema te pegou de jeito?
Trabalhei 10 anos na revista como editor e, então, editor-chefe. Eu já fazia mais cinema no Diário de Pernambuco, quando percebi que gostava mais de escrever sobre a área do que de música. Na SET, a gente (equipe de texto e arte) conseguiu se aprofundar mais uma ideia que tínhamos de explorar essa cultura mais nerd, algo que poucas publicações faziam em veículos de editoras grandes na época – a “Herói” era da Conrad/Acme, uma editora minúscula. Percebendo que a era dos astros estava no fim para a ascensão da era dos “personagens”, deixamos a revista mais atraente para os jovens, explorando super-heróis, adaptações de fenômenos literários e eventos cinematográficos. Hoje em dia, muita gente acha que foi uma decisão óbvia, mas vamos lembrar que estávamos no início dos anos 2000. Nem a Comic-Con de San Diego, que a SET foi um dos primeiros a cobrir in loco, era muito visitada. Mudamos o ritmo das publicações pop, com capas diferentes de uma mesma edição, capa folder, capa com cor especial, capa horizontal. Foi um período rico de criatividade e liberdade – por mais que alguns leitores ficassem putos por darmos capas para certos filmes ao ponto de nos chamar de vendidos, o dono da editora Peixes, Angelo Rossi, não interferia em nada neste sentido. O comercial nunca vetou ou impôs nada na revista. Edições históricas como a de “O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel” ou “Matrix Reloaded” chegaram a vender tanto quanto a revista principal da editora, a Sexy. Isso para uma revista de segmento era um feito e tanto. Tanto que precisamos imprimir mais dessas edições, fizemos revistas pôsteres, especiais etc. A SET virou uma das 10 mais importantes revistas de cinema do mundo sob a tutela da nossa equipe, cobrindo filmagens dos longas mais importantes da época (de “Star Wars” à “Fantástica Fábrica de Chocolates”).

E esses perrengues de cobertura internacional? Teve algum ator prometendo te pegar na porrada? Conta ae, conta ae 🙂
A grande maioria dos eventos chega a ser chato de tanto controle. Mas passei por algumas experiências, digamos, educadoras. Uma que me vem a mente de cara é quando fui convidado para acompanhar as filmagens de “Missão: Impossível III” em três países diferentes. Eram apenas 10 jornalistas convidados e era a primeira vez que Tom Cruise abria o set para a imprensa. No dia da visita ao set da cena na qual Ethan Hunt precisa pular uma ponte ao mesmo tempo q era alvo de mísseis, a irmã de Tom Cruise – que tinha assumido a assessoria do ator havia pouco tempo, no auge da obsessão dele pela Cientologia – chegou para os jornalistas e pediu que não revelássemos em nossas matérias o local exato das filmagens. Neguei o pedido e perguntei a razão. E ela falou que Tom Cruise acreditava que isso estragaria a magia do cinema, pois estávamos em Los Angeles e a cena se passava na Virgínia. Eu repliquei: “Por acaso, Tom Cruise acha que o público acredita que ‘Apollo 13’ foi filmado na órbita da Terra?” Ela ficou possessa e disse que eu teria de sair do set se não aceitasse os termos. Falei que poderiam trazer o ônibus que havia nos levado ao set que iria embora sem problema, mas que não mudaria a minha matéria. Um RP das filmagens botou panos quentes e me deixaram ficar. Mas a irmã de Tom Cruise passou o dia me chamando de trouble boy. Claro que esse tipo de atitude é exceção. Tanto que ela acabou sendo demitida do cargo duas semanas depois, logo após o episódio do sofá da Oprah, e ainda voltei para a última parte da matéria, na China. Lá, Tom Cruise nos recebeu pedindo para tirar fotos ao nosso lado, com Katie Holmes grávida e tal (nota do editor: aqui Rodrigo Salem conta a história completa). Almocei com JJ Abrams num restaurante fechado para a produção em uma cidadezinha perto de Xangai. Foi interessante. Já vi chilique do diretor e roteirista de “Syriana”, que estava comigo sozinho para uma entrevista quando recebeu a notícia por telefone que seu filme não concorreria ao Oscar de melhor roteiro adaptado, mas de roteiro original – que era mais difícil de ganhar na época. Novamente, esses ataques não são bem recebidos em Hollywood (da minha parte, adorei, porque tive algo diferente para escrever) e o diretor meio que sumiu por cinco anos depois desse filme. Há coisas engraçadas também. Eu estava em Cancún cobrindo o lançamento de diversos filmes de um mesmo estúdio e calhou de estar tomando uma cerveja na praia com o ator Wagner Moura nas horas de folga. Matt Damon, que trabalhava com Wagner em “Elysium”, passou por nós com a mulher e mandou: “Vamos praticar parapente, Wagner?”. O brasileiro recusou. E Damon brincou: “Que belo ator de ação é você, hein?” Damon, claro, é uma das melhores pessoas dessa indústria.

Depois da SET você foi para a GQ, certo? Como foi sair de uma publicação especializada em cinema para outro com foco central no universo masculino? Como foi a adaptação?
A editora Peixes foi comprada e o executivo que assumiu era conhecido por desmembrar as empresas e vendê-las ou simplesmente deixá-las desaparecer. Percebi que logo algo aconteceria com a editora inteira, por mais verdes que os números da revista fossem na época. Foi quando me chamaram para ir para a Editora Abril, onde fiquei como editor da Contigo!, uma experiência sensacional para lidar com uma revista semanal de grande público. Minha mãe ficou, finalmente, orgulhosa. Nesta época, ainda consegui entrevistar com exclusividade algumas pessoas como Harrison Ford, Meryl Streep etc. Por isso, quando o diretor de redação Ricardo Cruz me chamou para compor a equipe para criar a primeira GQ no Brasil, a transição não foi tão chocante. A GQ, em qualquer país do mundo, é reconhecida por grandes matérias e por perfis de destaques em cultura e estilo. Então, não foi uma adaptação tão difícil. Difícil foi encontrar o tom da revista, que era revolucionária em termos de Brasil. Encontrar aquele leitor/consumidor, o homem que gosta de se vestir bem, ser bem informado e possuir um estilo próprio. Uma revista assim tão sofisticada nunca tinha sido feita no Brasil em grande escala, então dificuldades sempre existem até a publicação encontrar seu caminho, o que, eventualmente, aconteceu. É um projeto do qual me orgulho bastante, pois trabalhei com grandes jornalistas, fotógrafos e produtoras para produzir um material inovador pela primeira vez no país. Não é brincadeira: nos EUA, quando você fala que trabalha para a GQ, qualquer um se impressiona. Até o oficial da imigração mandava: “Uau, GQ? E no Brasil? Que sorte”. haha

A GQ é realmente bem bacana! E eu não sabia dessa história da Contigo!!! Cobrir famosos é um grande aprendizado. As pessoas costumam achar que é fácil, que é glamoroso e tal, mas é uma editoria que exige muito do profissional. Falando em exigências, da Abril tu foi para a Folha de São Paulo, integrar a equipe do caderno Ilustrada, um dos mais importantes do país. Você chegou a pensar lá atrás: quero trabalhar um dia na Ilustrada? Como foi a experiência?
Saí da GQ (Globo Condé-Nast) para a Folha de S. Paulo. Sempre fui leitor da Ilustrada quando era menor, fã de carteirinha de André Barcinski, André Forastieri, Ivan Finotti, Sérgio Dávila e tantos outros. Também lia o Rio Fanzine. O jornalismo cultural mais pop certamente teve impacto em mim, mas sempre gostei mais de revista: textos grandes e muita brincadeira visual. E comecei a carreira em jornal por três anos. Por isso, a experiência não veio com a pressão nos ombros – além da pressão comum de qualquer mudança de redação. Obviamente que você sente de cara que o impacto e a amplitude do que você escreve são bem maiores. Fazendo uma comparação, é como sair da direção de bons filmes indies para fazer um longa de estúdio. Acredito que me encaixei bem numa bela equipe que já estava formada pela editora Fernanda Mena.

Chegamos a Los Angeles 🙂 Como rolou essa história de você mudar prai e há quanto tempo você trabalha como correspondente?
Durante a faculdade, eu morei alguns meses em NY e sempre quis ter a experiência de morar como adulto em outro país. Estar sozinho (em termos de socialização) em outro lugar sempre me pareceu a melhor forma de conhecer a sua cultura de origem e a dos outros. Obviamente que isso é mais uma declaração poética que prática (risos). O fato é que já estava no meu terceiro ano de Folha de S. Paulo e havia momentos no ano que ficava mais longe de casa do que desejava. Teve o componente de querer voltar a estudar e o fato da bolha imobiliária em São Paulo estar no auge. Antes da crise institucional brasileira, um aluguel em SP e em LA eram quase equivalentes – com o bônus de não precisar viajar tanto e de morar na cidade perfeita para minha área de atuação. Minha mulher também queria deixar o jornalismo um pouco de lado e estudar music business e marketing, cursos que a UCLA oferece com reconhecimento. No fim do ano, completo quatro anos em Los Angeles. Não é uma adaptação fácil. LA é a cidade menos amistosa dos EUA. Não que seja feita de pessoas escrotas, mas por ser uma cidade de idas e vindas. Pessoas aqui estão interessadas em fama ou em sonhos quase impossíveis, então a grande maioria está procurando por conexões e não amizades. Ao mesmo tempo, você tem acesso a muita cultura pop. Hoje é a cidade que, por causa da tecnologia, une cinema, música e tecnologia. É uma cidade que pode te engolir facilmente, mas interessante para quem gosta de cinema. Estudei roteiro por quase dois anos e aprendi coisas e conheci pessoas que me deram uma visão mais aprofundada da arte e da indústria.

Você cobriu in loco o Globo de Ouro e Oscar este ano. O que você achou das cerimônias? Qual é seu balanço da temporada 2016 e o que espera para 2017?
Foi meu primeiro ano cobrindo os dois eventos de uma só vez. Foi interessante ver a diferença entre os dois. Enquanto o Globo de Ouro possui um clima mais relaxado para quem está dentro do Beverly Hilton Hotel, com jornalistas trombando e conversando com as estrelas da noite, o Oscar segue um padrão organizacional quase militar – atentados a eventos em outros países deixaram o prêmio mais paranoico. As entrevistas do Globo de Ouro são mais longas após as premiações, enquanto as do Oscar são curtas. Mas a comida do Oscar é melhor. (risos) A safra 2016 foi uma das mais fracas que testemunhei nestes 20 anos de cobertura. Fica muito claro que Hollywood decidiu deixar a qualidade de lado para apostar em mercados mais inocentes e lucrativos, como o chinês, usando blockbusters de US$ 200 milhões que nada possuem de substância e só apelam para efeitos especiais anestésicos. Não é algo novo, claro. O mesmo fenômeno ocorreu em meados dos anos 1990, quando a influência de “Duro de Matar” começou a se diluir. Antes de “Matrix”, “Clube da Luta” e outros filmes grandes surgirem, Hollywood era dominada por filmecos esquecíveis que apostavam nos exageros. 2017 vai seguir essa linha, pois o mercado internacional está se expandido em uma velocidade maior que o doméstico (americano). Mas há saídas, infelizmente complicadas para quem mora no Brasil: ir aos cinemas para ver os filmes independentes, que estão em uma das suas melhores fases, ou mergulhar no Netflix, que está sendo a válvula de escape de vários desses longas alternativos. Mas não se engane: independência é onde está o bom cinema. Veja quantos filmes independentes foram indicados ao Oscar e quantos foram bancados por estúdios – alguns disfarçam, claro, usando selos alternativos, como “Sony Classics”.

Já são quase 20 anos cobrindo cinema. Revela para os leitores quais são os atores realmente legais na indústria? E os difíceis?
Sempre bom ter em mente que é uma relação profissional, muitos atores sabem da importância da aparência para a mídia. Por exemplo: você lê muitas coisas sobre Tom Cruise e Cientologia e contratos secretos de confidencialidade, mas nunca encontrei alguém tão profissional e cortês na minha carreira. E olhe que perguntei a amigos que trabalharam com ele nos bastidores e já vi o cara escapar de perguntas escabrosas (“Você acredita em ET. Então, como você acha que encontraremos outros planetas?”). Matt Damon sempre é muito simpático, ao ponto de ser quase um tédio se você está procurando por algo mais contundente. Jamie Foxx é um showman, assim como Will Smith. Angelina Jolie é um prazer entrevistar, não apenas pela beleza e inteligência, mas por não desviar de nenhum assunto, por falar extremamente bem e ainda pedir para não ter nenhum assessor por perto – algo raro em Hollywood. Passei uma noite sem dormir quando soube que teria 30 minutos com Woody Allen em Cannes, mas ele se mostrou uma pessoa incrível, um retrato fiel dos seus personagens e foi um dos auges da minha carreira. Peter Sarsgaard é fanático por futebol brasileiro e, especificamente, por Sócrates. As entrevistas difíceis nem sempre são relativas a atitudes rudes dos entrevistados. Philip Seymour Hoffman, por exemplo, odiava falar sobre seus métodos e não escondia como odiava fazer entrevistas de divulgação dos seus filmes. Era quase doloroso entrevistá-lo. A última vez que o encontrei foi em Veneza, quando falamos sobre “O Mestre”, de Paul Thomas Anderson. Terrence Howard foi o mais insano: a entrevista passou por momentos de constrangimento com uma assessora brasileira que precisou correr atrás de McDonald’s para ele até a afirmação de que ele tinha a cura para o câncer. Foi uma das minhas matérias preferidas, claro. Amanda Seyfreid é outra meio estranha: ela chegou chorando para uma entrevista e falou que o cãozinho dela estava doente. Tentamos perguntar mais para acalmá-la, mas aparentemente é algo que ela fazia sempre: o assessor dela só dizia para seguir em frente, para não ligar para o drama (o cão estava no quarto ao lado). Laurence Fishburne foi intragável comigo, principalmente quando perguntei sobre sua adaptação de “O Alquimista”, de Paulo Coelho. Eu adoro entrevistar Jennifer Lawrence, mas esteja preparado para ouvir se fizer alguma pergunta sem sentido, porque ela não tem papas na língua. Jim Jarmusch é outro que odeia falar sobre os sentidos por trás dos seus filmes, mas ama conversar sobre tudo, é sincero e não dá entrevistas com menos de uma hora, seja para quem for. Tom Hardy é quase bipolar: na minha primeira entrevista com ele, chegou com uma lanterna apontando para meus olhos para “descobrir a verdade” e gravou a entrevista inteira –inclusive mandando um “Não estou aqui para falar sobre isso” quando perguntei de Batman, anos atrás. Em “Mad Max”, foi todo brincalhão. É uma fauna interessante essa de Hollywood, tenho planos de escrever um livro sobre todas essas experiências.

A gente cobre cerveja artesanal no Scream & Yell e você vêm fazendo algumas pautas bacanas na área. Como é morar na Califórnia, uma das mecas da cerveja artesanal no mundo? Você tem um Top 3 de cervejas que bebeu este ano?
Bem, você foi uma das pessoas que me levaram para a cerveja artesanal. E admito que não sabia o que era uma IPA de verdade até me mudar para a Califórnia. Ainda estou longe de entender do assunto, mas acredito que já tenha uma bagagem para saber o que é ruim ou bom neste mundo. Na Califórnia, comecei a visitar as cervejarias e, hoje, é um dos meus programas preferidos como turista, sempre tento encaixar algumas nas viagens. Hoje, já visitei cerca dei 50 cervejarias nos EUA e estou preparando um projeto chamado “The Hop Tourist”, um guia online de serviços dessas cervejarias menos concentrado nas cervejas e mais nas dicas, serviços, comidas, atrações por perto delas etc. Ficando nas IPAS, meu TOP 3 seria: 1) Swish, da Bissell Brothers; 2) Bomb Atomically, da Monkish; e 3) Very Green, da Tree House. Hoje, na minha opinião, as duas melhores cervejarias de IPA dos EUA são a Monkish e a The Veil.

Voltando ao jornalismo, há uma interessante transição na sua história profissional entre revistas semanais, mensais e os diários. Quais as diferenças principais em cada redação, quanto à produção de material mesmo? Como são os planejamentos de pauta, como foi a sua percepção do dia a dia em cada dessas redações?
Eu comecei em diário, passei para mensal (SET), fui para uma semanal (Contigo), voltei para uma mensal (GQ) e retornei para um diário (Folha). Círculo completo. A diferença entre os três modos de publicação é grande, principalmente no que diz respeito ao tempo. Quando cheguei à SET vindo do Diário de Pernambuco, minha produção era muito mais rápida que o necessário. Então, aprendi a pensar um pouco mais na pauta, explorar os assuntos relacionados a ela, pensar em arte com calma (e com a ajuda das designers). Editar a “Contigo” depois de uma mensal foi o oposto: corrida contra o tempo. Mas tive contato com uma redação pequena, porém azeitadíssima, quase uma máquina para produzir uma revista semanal de alta circulação que podia ter até 100 páginas. Me dedicar apenas à edição foi o mais difícil para mim, então sempre escapava para fazer textos para a “Bravo”, que era a redação vizinha. ahaha A “GQ” foi mais a dificuldade de criar uma revista do zero e para um público que muitos acreditavam não existir no Brasil. Já o jornal é a volta da loucura de correr atrás de pauta, disputar exclusividades, ficar mil vezes atento aos erros que podem surgir em fechamentos rápidos. Mas jornalismo é jornalismo em qualquer local. É procurar a verdade, se manter isento, ter fontes confiáveis e ter o leitor sempre na mente.

Nos anos 90, o André Forastieri publicou um texto na Folha dando dicas para quem queria trabalhar com jornalismo musical – e o Alvaro Pereira Jr publicou um texto semelhante em 2003. O que você diria para o/a estudante que está na faculdade e sonha em trabalhar com jornalismo cultural, com cinema? Quais as dicas de Rodrigo Salem?
O próprio Forastieri costumava começar suas palestras em faculdade meio neste tom: “Caiam fora enquanto podem”. (risos). Falando sério, a experiência do jornalismo cultural é muito pessoal e muda ao longo do tempo. Coisas como “não pago para ver filme” ou “viajo para os EUA para fazer entrevistas” são superatraentes para quem está do lado de fora e começando, mas tornam-se vazias com o passar do tempo. Ainda mais hoje em dia, com o jornalismo impresso cada vez mais entrando em retração e “jornalistas” oferecendo trabalhos grátis (e empresas oferecendo o espaço para “visibilidade” em vez de pagar pelos textos). Ou seja: a grana não está aqui. É uma escolha que você terá de fazer com mais urgência que eu. Se você Meu conselho seria: aprenda tudo que gira em torno da veiculação de uma notícia, de programação à edição de vídeo. O Brasil ainda engatinha em YouTube sérios de jornalismo cultural. A grande maioria é formada por aventureiros sem o menor conhecimento do assunto ou que fazem usos de adjetivos hiperbólicos para fazer vídeos sobre cinema. Alguns outros encontraram um nicho em algo antiético, mas, como poucos se formaram em jornalismo, poucos estão se lixando, caso de fazer entrevistas pagas por estúdios sem avisar isso para o leitor. Isso vai acontecer mais e mais enquanto não existe regulamentação. YouTubers e “influencers” que recebem para falar bem de certos filmes, para divulgar hashtags, mas que não avisam ao leitor de tal prática. Então, aprenda para ser um ótimo jornalista de impresso, mas corra para dominar outras ferramentas. No futuro, o indivíduo será tão importante quanto um veículo, mas esse indivíduo precisará navegar em inovações midiáticas constantes.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

2 thoughts on “Rodrigo Salem, um jornalista brasileiro em Los Angeles

  1. Fui assinante da SET por muito tempo, especialmente durante a gestão do Sadovski que contava com diversos textos do Salem. Não tenho pudor em dizer que achava o tom dele um tanto empolgadão demais com certos lançamentos da época, apesar de ter sido um veículo importante enquanto a internet ainda não tinha atingido a maturidade atual. Dito isso, que bela entrevista! Perguntas muito boas e respostas sinceras, desenvolvidas, que jogam uma luz tanto para quem busca norte na profissão quanto para quem é mero curioso como eu. Muito legal. Espero que haja outras, aumentou meu respeito pelo cabra.

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