Boteco: Três cervejas da Flying Dog

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por Marcelo Costa

Aberta em 1990 em Aspen, no Colorado, a Flying Dog Brewery conquistou rapidamente uma bela reputação entre os cervejeiros, coroada com a eleição da Flying Dog “Doggie Style” como a Melhor Pale Ale da América, em 1991, no Great American Beer Festival. Com a popularidade crescente, a cervejaria mudou-se de Aspen para Denver em 1994, e, em 2008, foi transferida para a cidade de Frederick, no Estado de Maryland. Adepta ferrenha da escola norte-americana de exageros “cervejisticos”, a Flying Dog mostra personalidade desde seus rótulos, desenhados por Ralph Steadman, ilustrador da obra de Hunter S. Thompson – uma frase do jornalista gonzo estampa todos os rótulos: “Good people drinking good beer” – até o conteúdo caprichado de suas garrafas. Com 10 rótulos em sua linha principal, nove na linha sazonal, e mais de 10 em tiragens limitadas, o cardápio da Flying Dog Brewery é um deleite. Exportada de Maryland para 45 Estados norte-americanos, as cervejas da Flying Dog já chegaram a figurar nas prateleiras brasileiras, mas uma reunião confusa de diversos fatores (mais sobre no último parágrafo) fez com a matriz norte-americana cancelasse a distribuição brasileira. Em Nova York, encontrei algumas delas. O relato segue abaixo.

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No rótulo divertido, uma caveira de chapéu (com jeitão de Hunter S. Thompson) convida: “Ok! Let’s Party”. A festa aqui é comandada pela Flying Dog Gonzo Imperial Porter, uma delicia que reúne três estilos de maltes (Black, Crystal e Chocolate) e três de lúpulo (Warrior, Northern Brewer e Cascade) e já foi premiada com a medalha de ouro no World Beer Cup 2008. Já adianto: ouro merecido. Na taça, um liquido preto projeta um creme de formação e permanência excelentes. No nariz, tudo aquilo que você espera de uma Imperial Porter: café, chocolate, ameixa além de sensação de vinho do Porto e notas amadeiradas. Os 9,2% de álcool estão muito bem inseridos, mas é possível perceber algo leve no aroma. Já no paladar, o álcool aparece mais, mas no final da dose. O primeiro ataque é de doçura, com as notas frutadas (ameixa), adocicadas (chocolate) e derivadas de torrefação (café) surgindo ainda mais nítidas. De corpo médio para alto e textura indo do suave para o licoroso, a Flying Dog Gonzo Imperial Porter é o tipo de cerveja que pode viciar, de tão complexa e sensacional. Por exemplo, após tanta doçura no paladar, o retrogosto é levemente amargo, puxando para o final do copo de café. Uma delicia. Bora pra festa?

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A próxima da lista é a Flying Dog Horn Dog Barley Wine, estilo surgido na Inglaterra buscando englobar cervejas tão fortes quanto vinho. No caso desta preciosidade da Flying Dog são cinco tipos de malte (Crystal, Munich, Carastan, Chocolate e 2-Row Pale) e três de lúpulo (German Perle, Northern Brewer e Cascade) que, após o processo tradicional de ales, é maturada em barris de carvalho por três meses (há edições especiais com 13 meses de envelhecimento disponíveis apenas no bar da cervejaria) com uma segunda maturação na garrafa (ou seja, ela continua se transformando). Na taça, um liquido de cor âmbar com leve turbidez revelou uma bela formação de creme de média permanência. No aroma, intensamente frutado e viciante, notas de mel, madeira, baunilha, pêssego, damasco, vinho do Porto e algo que remete a Coca-Cola vão e voltam remetendo a muitas outras coisas pelo caminho. No paladar, a textura licorosa logo remete a adocicado (melaço) e frutado (pêssego e nozes), mas a porrada de álcool (10,2%) não passa desapercebida, e belisca o céu da boca. O calor aquece a garganta e toma o corpo enquanto o retrogosto adocicado remete a banana caramelizada. Uma cerveja deliciosa para beber devagar (deixando esquentar) e sempre.

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Fechando esse curto e embriagado passeio pelos rótulos da Flying Dog com o cachorro louco da cervejaria (de cueca e partindo pra cima da taça), a Double Pale Ale, uma cerveja de 11,5% de graduação alcoólica, e muita personalidade. A cor é âmbar cristalino e o creme tem boa formação e permanência. No aroma, o malte de caramelo chama a atenção, mas algo de herbal e cítrico (derivados do lúpulo) também se destacam ao lado do álcool, discreto, mas perceptível. No paladar, o amargor dá às boas vindas fazendo você pensar que está bebendo uma Double IPA e não uma Double Pale Ale. Notas cítricas e herbáceas se divertem encobrindo o melaço derivado do malte, que nada consegue fazer diante de tanta destreza amarga – até o álcool fica em segundo plano diante de tanto lúpulo. O corpo é de médio para alto e a textura macia e menos licorosa do que se espera de uma cerveja tão alcoólica. O calor sobe do peito, passa pela garganta e cora o rosto. Impossível ficar impassível. No retrogosto, amargor, amargor e mais amargor. Algo de cítrico, e, se você for a fundo, caramelo, mas o que pega aqui é amarração que o amargor deixa após passar tinindo pelo território. Para lupulomaniacos, afinal, de doce já basta a vida.

Onde encontrar Flying Dog no Brasil? Não tem. Na verdade, a Flying Dog foi uma das primeiras afamadas micro cervejarias norte-americanas a aportar no País, mas uma série de fatores envolvendo prazos de validade da cerveja norte-americana vendida no Brasil, regulamentações do governo brasileiro quanto à logística de transporte, e “inspiração” de rótulos da Flying Dog em cervejas nacionais, fez com que o imbróglio ficasse conhecido como o “Caso Flying Dog” (leia aqui e aqui) e que a matriz cancelasse sua parceria com a distribuidora nacional, a Tarantino – a Anderson Valley, que também integrava a mesma parceria, continua sendo importada, o que permite vislumbrar um retorno das Flying Dogs ao Brasil no futuro. Em Nova York e outras cidades norte-americanas, porém, é possível encontrar com facilidade (nos lugares certos) boa parte da linha tradicional da cervejaria ao preço de US$ 3 até US$ 4,50 (garrafas de 355 ml). Independente das várias leituras possíveis do Caso Flying Dog, o imbróglio levantou uma discussão interessante acerca das validades das cervejas que são importadas para o Brasil, e a ineficiência do governo brasileiro de lidar com este novo mercado, cada vez mais amplo e com mais sede. Enquanto isso, aguardamos uma nova oportunidade para beber Flying Dog em casa. Que não demore.

Flying Dog Gonzo Imperial Porter
– Produto: Imperial Porter
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 9,2%
– Nota: 4,45/5

Flying Dog Horn Dog Barley Wine
– Produto: Barley Wine
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 10,2%
– Nota: 4,29/5

Flying Dog Double Pale Ale
– Produto: Imperial IPA
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 11,5%
– Nota: 4,37/5

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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