The Cure ao vivo em São Paulo

Texto e fotos por Marcelo Costa

Faz tempo. No século passado, um universo cada vez mais distante, as pessoas que ouviam música tinham seus grupinhos, e não costumavam sair deles (algo cada vez mais raro no mundo “moderno”). Desta forma, os punks ouviam punk rock, os “metaleiros” ouviam heavy metal, os pagodeiros ouviam pagode e as donas de casa, Roberto Carlos. E tinha uma “tribo” (definição da época para cada grupo – com exceção das donas de casa que eram… donas de casa) conhecida como Dark, apenas no Brasil, já que no resto do mundo essa turma que se vestia de preto atendia pelo nome de Góticos. Essas tribos tinham seus “points”, mas nada de se misturar.

A história é um pouco longa e passa pela New Wave, pela Class of 86 (que não deu em porra nenhuma), por U2, Madonna, New Order e Guns n’ Roses, pelas flanelas do grunge, pelos contrastes sociais do Britpop e por mais umas duas dezenas de referências e, voilá, senhoras e senhores, o mundo não acabou no ano 2000 (a não ser que a vida imite o péssimo episódio final de Lost). Os Darks, uma década antes de Joana D’Arc ser queimada com seu walkman, já tinham lá seus mártires, ídolos e heróis, e por alguns álbuns depressivos lançados no começo da década de 80, o Cure, e principalmente seu líder Robert Smith, era reverenciado por este grupo de preto.

Essa idolatria sempre soou um pouco estranha. Apesar de Robert Smith adorar um batom, pintar os olhos (fatos que renderam uma pergunta homofóbica em uma coletiva de imprensa no Brasil, em 1987, mesmo ano em que ele se casou com Mary, até hoje sua esposa – leia sobre aqui), nunca pentear o cabelo e se vestir constantemente de preto, tirando a tríade de álbuns depressivos (“Seventeen Seconds”, 1980; “Faith”, 1981 e “Pornography”, 1982) e uma obra prima posterior (“Disintegration”, de 1989, um álbum que Roger Waters poderia ter escrito se tivesse menos razão e mais coração), o Cure sempre foi uma banda “pra cima”, festeira, apaixonada e divertida.

Quem sabe todas aquelas pessoas que se vestiam de preto e adoravam fofurices pops como “The Lovecats”, “Close To Me” e “The Caterpillar” (a lista é imensa) já estivessem antecipando o modo aberto de se relacionar com música no novo milênio: agora, punks novos ouvem Adele, indies gostam de Caetano; os novos pagodeiros pegam atrizes da Globo e homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher, cachorros e gatos, todos são donos de casa (mas as mães continuam ouvindo Roberto Carlos). E todo esse povo mais a galera do sertanejo universitário, os fãs do Restart que já passaram dos 16 anos (são poucos, avisa a Universidade de Massachusetts) e a turma que aprendeu a gostar de tecnobrega ouvindo Strokes estava no Anhembi, em uma noite de sábado, buscando entretenimento (ok, as atrizes da Globo só foram no show do Rio).

Nada contra ir atrás de entretenimento, muito pelo contrário, quanto mais gente em shows (cinemas, museus, livrarias e teatros), melhor, desde que os presentes entendam que um show é um evento único que, num estalar de dedos, acaba (no caso do Cure esse estalar é mais longo, mas chegaremos lá), e há pessoas presentes querendo assistir ao show. “Show também é lugar de conversar”, alguém pode rebater, mas desde que não seja em um pub fechado, em que o som das caixas sobressaia o som das vozes, é uma grande filhadaputagem ficar contando de seu dia no trabalho com um amigo (a) em voz alta enquanto pessoas ao lado em um espaço aberto querem ouvir o que o maldito cara no palco está cantando. O direito de conversar acaba quando invade o direito ao silêncio. E silêncio, como defendem os orientais, é sabedoria.

Talvez isso seja reflexo do extenso e variado repertório que Robert Smith esteja presenteando os fãs (e a galera que foi ao show porque era o “evento” de sábado à noite em São Paulo) nesta turnê, e muitos destes não se mostram preparados e se surpreendem apesar do vento ter soprado pela cidade durante toda semana a noticia de que o show teria mais de 40 músicas (sendo que mais de 30 delas são fixas no set list). Neste passeio pelo universo do The Cure, Robert Smith, Jason Cooper (bateria), Roger ‘O Donnell (teclados), Simon Gallup (baixo) e Reeves Gabrels (guitarra) satisfazem o público tocando canções que eles talvez já estejam com o saco cheio de tocar assim como números raros que tiram sorrisos dos integrantes da banda. Ainda assim, é preciso admitir: poucas vezes o Brasil recebeu uma banda tão feliz no palco como o Cure nessa turnê.

Tudo bem que o excelente último disco, “4:13 Dream”, seja de cinco anos atrás e tenha passado batido pelo grande público, que também não deu muita bola para o dispensavel “The Cure”, de 2004. O belíssimo “Bloodflowers” (2000), Robert Smith antecipava em entrevistas, seria solenemente ignorado pela dificuldade de ser reproduzido ao vivo enquanto “Wild Mood Swings” só é lembrado como o disco do palhacinho na capa (ok, tem “Mint Car”). O que sobra: “Wish”, último grande álbum de sucesso do Cure, lançado 21 anos atrás, é o responsável pela dobradinha de abertura da noite, “Open” e “High”. De cabelo desgrenhado, voz impecável quando mantida no mesmo tom (ele evitará agudos a noite inteira) e acompanhado por uma banda afiada, Robert Smith abre o show como se avisando: “Podem conversar porque essas duas só os fãs conhecem”.

A partir de “Lovesong”, a quarta canção, single do amado “Disintegration”, começa um desfile de hits que até os garotos que entraram no show para afanar celulares (quem estivesse com seu aparelhinho à mostra era orientado a tomar cuidado pela senhora que vendia chicletes e guloseimas no meio da galera) puseram-se a cantar: primeiro a quase balzaca “In Between Days”, cantada em coro por pessoas que frequentavam do Rose Bombom ao Aramaçan, do Morcegóvia a Torre Dr. Zero, do Borracharia ao Matrix, da Funhouse ao Beco, num dos momentos mais bonitos de toda a noite, e que seria estendido encantadoramente pelo número seguinte, uma das canções de amor mais belas já escritas, “Just Like Heaven”, em versão fidelissima a original, com a bateria galopando à frente, os teclados fazendo a cama e o riff de guitarra voando por cima. Uma jóia pop.

A festa abre passagem para o primeiro grande momento climático da noite: o quarteto “From the Edge of the Deep Green Sea”, “Pictures of You”, “Lullaby” e “Fascination Street” soma quase meia hora (o tempo de show do Vaccines na turnê do primeiro disco) e tanto encanta como afasta o público, que parte para os bares atrás de cerveja. Na área vip, que parece ser interminável e tomar todo o Anhembi, as filas para comprar um copo com cereais não maltados, lúpulo, água, fermento e conservantes aumenta, o pessoal contratado não dá conta, e o quase caos surge: público vip bate no balcão querendo ser atendido e o atendentes não treinados batem cabeça. Foram 25 minutos (outros show do Vaccines) devidamente cronometrados para sair do bar com um copo de cerveja (de longe, na muvuca do balcão – o bar ficava uns 200 metros atrás do palco – era possível ouvir como se num radinho de pilha “Play for Today”, “A Forest” e “Shake Dog Shake”).

“Charlotte Sometimes” e “The Walk” devolvem o sorriso ao rosto e “Friday I’m Love” conquista até uma vovô, que vira para a filha e para a neta, com olhos felizes, e declara: “Eu adoro essa música!”. O trecho final da primeira parte, com o show próximo das duas horas, é para afastar incautos cansados (embora eles pareçam duros na queda) e deixar só os fãs esperando pela festa do bis (que irá durar o tempo de dois shows do Vaccines): são três de “Wish” (“Doing the Unstuck”, “Trust” e “End”), uma de “Wild Mood Swings” (“Want”), uma do “4:13 Dream” (“The Hungry Ghost”), um single quase esquecido que serviu para alavancar uma coletânea (“Wrong Number”, do álbum “Galore”) e, enfim, um hino para os velhos fãs: “One Hundred Years”.

O show nem parece acabar, pois a banda não sai do palco e já emenda o primeiro bis, que concede ao Rio de Janeiro o título de vencedor de melhor repertório da turnê 2013 do Cure no Brasil: foram três músicas do álbum “Disintegration” na cidade carioca (“Plainsong”, “Prayers for Rain” e “Disintegration”) contra três do álbum “Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me” em São Paulo (“The Kiss”, “If Only Tonight We Could Sleep”, “Fight” – porra, ao menos se uma delas fosse “Catch” nós poderíamos ter diminuído o placar!) que servem para mandar alguns desanimados para casa. A grande massa (o número divulgado foi de 30 mil pagantes, embora parecesse menos) permaneceu e recebeu o que queria no segundo bis: da sexy “Dressing Up” ao baixo contagiante de “The Lovecats”, da psicodelia de “The Caterpillar” ao apuro pop de “Close To Me”, da dançante “Let’s Go to Bed” a empolgante (mesmo com vocal contido) “Why Can’t I Be You?”, do hino “Boys Don’t Cry” (que fez alguns chorarem) à favorita de Robert Smith (e de muitos fãs) “10:15 Saturday Night” até o encerramento com a “proibida” “Killing an Arab” (transcrita no set como “Killing Another”), o Cure fez todo mundo pular, dançar e cantar felizes.

No saldo final foram 3 horas e 15 minutos que cansaram as pernas da molecada (enquanto os 53 anos de Robert Smith pareciam inabaláveis) e deixaram a sensação de uma grande noite. Em São Paulo (assim como em outras cidades das últimas turnês), o Cure fez um show longo que alternou grandes hits (que levantavam o público, e funcionavam exatamente para isso) com alguns números menos conhecidos (que dispersavam a galera, e funcionavam para a banda curtir). Famoso por ter um som problemático, o Anhembi, ao menos no lado direito do palco da área vip, não estava perfeito, mas também já viveu noites muito piores (bem piores, né Arcade Fire), e vale elogiar o trabalho de câmeras e a edição de imagens que apareciam no telão (pessoal do Lollapalooza Brasil, contrata eles para 2014, por favor), excelente.

Como epílogo vale citar o quão gentleman Robert Smith foi não só ao ouvir e escolher ele mesmo (sob indicação de fãs, sem interferências de gravadoras) as duas bandas brasileiras que abriram os dois shows, a gaúcha Lautmusik e a paulista Herod Layne (que causou uma tempestade de noise capaz de se ouvir do lado de fora do Anhembi), mas também em visitar cada uma delas em seus respectivos camarins antes dos shows, conversar amenidades e sair deixando garrafas de vinho e champagne de presente. Mais: após o show, despedida do Brasil com os integrantes das duas bandas nacionais se confraternizando com o Cure no camarim deles. Robert Smith questionava Alessandra Lehmen, vocalista do Lautmusik, se ela acreditava que o fato de abrir dois shows do Cure iria ajudar no futuro da banda enquanto confirmava a proximidade da aposentadoria dizendo que, dificilmente, o Cure retorne ao Brasil mais uma vez. Ainda lamentou que o pessoal da pista normal, muito mais animado que o da pista vip, estivesse tãoooo longe do palco. Fernando Lopes, do site Flogase, acompanhou a Herod Layne nos dois shows, e contou em detalhes a aventura em dois posts (Bandas Pequenas no Mundo das Grandes: Parte 1 e Parte 2) enquanto Elson Barbosa, baixista, dava sua própria versão ao blog do jornalista André Barcinski (leia aqui). Se foi realmente a última apresentação do Cure em terras brasileiras, Robert Smith deixou as melhores impressões possíveis em shows e atos. Ao menos uma vez neste ano, os Darks foram dormir sorrindo. E não só eles…

SET LIST
01. Open
02. High
03. The End of the World
04. Lovesong
05. Push
06. In Between Days
07. Just Like Heaven
08. From the Edge of the Deep Green Sea
09. Pictures of You
10. Lullaby
11. Fascination Street
12. Sleep When I’m Dead
13. Play for Today
14. A Forest
15. Bananafishbones
16. Shake Dog Shake
17. Charlotte Sometimes
18. The Walk
19. Mint Car
20. Friday I’m in Love
21. Doing the Unstuck
22. Trust
23. Want
24. The Hungry Ghost
25. Wrong Number
26. One Hundred Years
27. End

PRIMEIRO BIS
28. The Kiss
29. If Only Tonight We Could Sleep
30. Fight

SEGUNDO BIS
31. Dressing Up
32. The Lovecats
33. The Caterpillar
34. Close to Me
35. Hot Hot Hot!!!
36. Let’s Go to Bed
37. Why Can’t I Be You?
38. Boys Don’t Cry
39. 10:15 Saturday Night
40. Killing an Arab

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Herod Layne e LautMusik, Bandas Pequenas no Mundo das Grandes, no Flogase (aqui)
– “Robert Smith mandou vinho e champanhe para o nosso camarim!”, por Elson Barbosa (aqui)
– Discografia Comentada: conheça todos os discos do The Cure, por Samuel Martins (aqui)

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