Lollapalooza Brasil x Lollapalooza Chile

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por Marcelo Costa

No domingo à noite, André Mori (@andremori) me contava no Twitter suas impressões sobre o Lollapalooza Chile:

“Eu vim nos 3 anos. A evolução é clara. A estrutura melhora a cada ano e este ano tinha 70mil pessoas por dia. Sem contar que o Perry Farrell aparece muito aqui. Está direto nos shows. Lembro que em 2011, ao final do show do Jane’s, ele chamou os três produtores ao palco para agradecer e cantar parabéns a um deles. (Este ano foi) praticamente o mesmo line-up (do Brasil). Aqui não teve o 1º dia daí, mas teve Keane e Bad Brains. (Ainda assim) aqui o festival acontece redondo. Entrada em menos de cinco minutos, filas de banheiro/comida idem, metrô/ônibus com 1h a mais rodando nas duas linhas principais. A cidade inteira envolvida com o festival. E vem muita gente de fora. América Latina em peso aqui. Enfim, a produção daqui está muito a frente da nossa e, com certeza, influência as bandas.” No Facebook, André acrescentou: Para mim a grande diferença é que aqui há uma preocupação maior em oferecer de fato um festival e não somente distribuir 30, 40 bandas em 5 palcos e os clientes (não dá para esquecer disso) que se virem para chegar, entrar, comer, transitar entre os palcos e ir embora”.

No show do Queens of The Stone Age no Lollapalooza Chile, por exemplo, o líder do Pearl Jam, Eddie Vedder, apareceu para participar de “Little Sister”. Josh Homme retribuiu a gentileza engrossando o coro da decantada cover de “Rockin’ In The Free World”, que o Pearl Jam praticamente tomou de Neil Young para si (Perry Farrell também marcou presença no palco assim como uma queima de fogos anunciando a despedida do Lollapalooza de terras latino-americanas em 2013). Um pouco antes, no hotel, Eddie Vedder e Josh Homme foram conversar com fãs e distribuíram ingressos para a galera. De eventos exclusivos do Chile, o festival ainda contou com uma apresentação secreta do Chevy Metal, projeto de Taylor Hawkins, batera do Foo Fighters, com participação de Perry no palco infantil. Mais? Nesta segunda, enquanto Alex Kapranos agradecia ao público chileno no Twitter (?@alkapranos Thanks to everyone at the show in Santiago yesterday. I’m still buzzing), Stuart Braithwaite, guitarrista do Mogwai, respondia “@plasmatron @alkapranos probably my favourite city to play. Great place”.

Antes que algum brasileiro comece a criar birra com o Chile (tal qual faz, muitas vezes idiotamente, com argentinos), seria legal olhar para o próprio umbigo. Logo na primeira edição brasileira do Lollapalooza, um atrapalhado Perry Farrell contava que a edição paulistana do festival só tinha por objetivo bancar a edição chilena. Muita gente se sentiu ofendida, mas uma análise isenta e mais delicada pode verificar que algumas bandas não se sentem à vontade tocando no Brasil. Opinião minha: tem muita gente na terra de Feliciano envolvida nesse meio de produção que parece muito mais preocupada com dinheiro do que com a música, e isso reflete não só no descaso de alguns artistas como também no preço alto dos cachês cobrados para shows na Ilha de Vera Cruz (às vezes o dobro do preço cobrado em outros países latino-americanos- algumas vezes o triplo). Por uma razão simples: empresários (a grande maioria deles) estão muito mais preocupados com o lucro do que com um grande show. Quem destes chefões das grandes empresas de entretenimento do país conhece realmente (e admira) uma banda como Alabama Shakes, Bad Brains, Tomahawk e Foals? Elas vieram por escolha ou por que estavam em um pacote? E qual destes homens se preocupa com a produção e o bem estar do público?

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No ano passado tive o prazer de conversar com Alberto Guijarro, responsável pelo Primavera Sound, festival que, para este que vos escreve, é o melhor do mundo (devido a um line-up que foge do óbvio ancorado em parceiros – ATP, Pitchfork, Vice – que definem com liberdade suas atrações nos palcos secundários e que assustariam ainda mais aqueles que se assustaram com o show do Flaming Lips no Lollapalooza Brasil). Na entrevista, Guijarro elenca os shows históricos do festival (“Neil Young em 2009, a volta do Pulp em 2012 e um show mítico do White Stripes debaixo de chuva em 2003”) e indicava os shows a serem vistos na edição daquele ano: “As voltas do Mazzy Star e Afghan Whigs, o novo set do Justice, o Refused e, mais do que todos eles, Jeff Mangum, um cara que é um dos artistas de cabeceira para todos nós que fazemos o festival”. Para conhecer a carreira de Jeff Mangum é preciso ir além das capas de revistas. Enric Palau, do Sónar (que cancelou a edição brazuca pela dificuldade em lidar com o mercado brasileiro) também deu boas respostas em outro bate papo do ano passado. Quantos grandes empresários brasileiros conseguiriam conversar sobre música? Conseguiriam listar seus shows favoritos sem parecerem óbvios?

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Esse olhar explicitamente capitalista pode estar contaminando o showbussiness musical brasileiro. Lógico, não está só. Há ainda a colaboração negativa do Estado e do Município na falta de vontade em auxiliar eventos. Em Londres, durante festivais e eventos de grande porte no Hyde Park (para cerca de 50 mil pessoas), as catracas das quatro estações de metrô na região permanecem abertas para evitar filas e desafogar a saída do público. Em São Paulo, o metrô cede 15 minutos de seu tempo e fecha a porta na cara de milhares de pessoas que pagam IPTU. Por sua vez, taxistas não querem atender a pessoa se não for uma boa corrida para eles e juntamos a isso as reclamações constantes sobre pessoas que não vão a um show porque querem assisti-lo, mas porque é um evento, e, por isso, passam quase todo o tempo conversando (e atrapalhando quem quer ver), acredito que sair de casa para ver um show no Brasil (algo que deveria ser divertido) é cada vez mais um ato requer muita coragem e paciência. A grande questão que fica: o problema são os produtores de shows/festivais, os taxistas, os políticos ou os brasileiros como um todo? Quanto o jeitinho brasileiro, a malandragem e a Lei de Gerson estão ferrando a nós mesmos? Vale pensar com calma…

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– Balanço: Lollapalooza Brasil 2013, por Marcelo Costa (aqui)

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