Cinema: As Sessões

por Adriano Costa

A poliomielite, ou paralisia infantil, é uma doença contagiosa causada por um vírus que infecta principalmente as crianças, mas também pode chegar a adultos. Transmitido por via fecal-oral, a multiplicação do vírus começa na garganta e nos intestinos e dali alcança a corrente sanguínea e até mesmo o cérebro. Com a invenção de uma vacina e sua maior utilização a partir dos anos 70/80, a doença hoje praticamente não existe mais em países desenvolvidos, mas infelizmente continua fazendo vítimas em países pobres dos continentes africanos e asiáticos.

O norte-americano Mark O’Brien foi um dos que sofreram com a doença, contraída por ele aos 6 anos de idade, em 1955, e que o deixou paralisado do pescoço para baixo. A sua vida já virou filme, em 1996, quando o documentário “Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O’Brien”, de Jessica Yu, ganhou o Oscar da categoria em curta-metragem. Mesmo assim, o diretor Ben Lewin resolveu novamente levar a vida do jornalista e poeta falecido em julho de 1999 para as telonas, agora em formato de um longa com 98 minutos de duração.

O diretor de “O Favor, O Relógio e o Peixe Muito Grande” (1991) também sofreu com a poliomielite, mas teve danos bem menores. O filme “As Sessões” (”The Sessions”, 2012) foca no final dos anos 80, quando por conta de algumas circunstâncias, Mark O’Brien começou a utilizar uma terapia envolvendo o descobrimento e desempenho sexual, que resultou em um artigo chamado “Se Consultando Com Uma Substituta”. Esse artigo foi a base para o roteiro também escrito por Ben Lewin, o que colabora e muito para o resultado final.

No ponto em que o filme começa a se desenvolver, seu personagem está com 38 anos e, por razões claras, ainda é virgem e nunca nem foi masturbado. Vive praticamente dentro de um respirador, um pulmão de ferro, uma máquina que o ajuda a sobreviver e onde trabalha e dorme, sendo que só pode ficar fora por volta de três a quatro horas. Católico devotado, mas dotado de um senso de humor agudo e afiado, Mark O’Brien parte para essa jornada com o medo dominando a mente e a desconfiança das suas capacidades pesando sobre os ombros.

John Hawkes (o Teardrop de “Inverno da Alma”) é quem interpreta o papel principal e faz isso com uma desenvoltura impressionante. No papel do padre que serve de amigo e confessionário está William H. Macy (“Fargo”), com sua habitual qualidade. Como a terapeuta sexual temos Helen Hunt (“Melhor É Impossível”) em uma atuação tão a vontade e tão categórica que lhe valeu uma indicação para o Oscar desse ano como melhor atriz coadjuvante. Indicação, que também cairia muito bem nas mãos de John Hawkes, diga-se de passagem.

“As Sessões” têm como grande mérito as atuações do trio de personagens principais, contudo agrada também pelo tom com que a direção conduz os bons diálogos e pela ausência de dramas baratos e apelativos que poderiam ser tão facilmente utilizados nesse caso. O heroísmo de levar uma vida nas condições a que está sujeito e ainda ser produtivo, não é o foco principal do filme, mas sim a busca em conseguir um pouco de prazer onde antes só existia humilhação e vergonha e assim fazer parte de um universo comum a tantos.

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– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

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