Entrevista: Teatro Mágico

por Marcos Paulino

Pela primeira vez, o Teatro Mágico, grupo que mistura música, teatro e circo, criado há 10 anos em Osasco, está experimentando a sensação de chegar a um público realmente de massa. A faixa “Canção da Terra”, do disco “A Sociedade do Espetáculo”, recém-lançado, está na trilha sonora da novela “Flor do Caribe”, da TV Globo. É uma chance para que milhões de brasileiros se interessem pelo trabalho de uma trupe que, se não toca nas rádios nem aparece na televisão, lota teatros, ginásios e casas noturnas, e tem uma multidão de fãs cultivada principalmente na internet.

Criado por Fernando Anitelli, o Teatro Mágico traz nas letras politizadas e socialmente engajadas um tanto do viés messiânico que marcou as trajetórias de poetas como Renato Russo e Cazuza. Daí talvez venha a comoção coletiva que se costuma ver nos shows do grupo. “No começo o Teatro Mágico era uma bagunça organizada”, conta Anitelli, que relembra as origens do grupo e fala sobre o atual momento do Teatro Mágico em entrevista ao PLUG, parceiro do Scream & Yell.

Como surgiu a ideia de montar um grupo musical que também apresentasse números de circo?
O Teatro Mágico surgiu em 2003, com a ideia de unir as coisas que aconteciam em um sarau, levando para o palco a brincadeira, o teatro, o circo, a dança. Como eu frequentava muitos saraus, conheci pessoas de várias áreas. Chamei todo mundo pra participar, então no começo o Teatro Mágico era uma bagunça organizada, tinha mais gente no palco do que na plateia. Nesses 10 anos, nos tornamos uma companhia artística. Estamos no terceiro álbum e gravamos o terceiro DVD, que vamos lançar em maio. Mas na verdade o Teatro Mágico é o anseio de misturar variadas artes, o que não é novidade nenhuma, porque o circo mistura a música, o malabarismo, a poesia. Acho gostoso não poder rotular o Teatro Mágico como um grupo de música ou um grupo de teatro.

Dessa multidão de artistas que passaram pelo grupo, como se chegou à formação atual?
Foi um processo natural. Definimos o que queremos falar e buscamos pessoas que possam traduzir isso de forma musical e teatral. Na primeira formação, eram mais amigos que músicos e atores. Fomos amadurecendo o projeto e hoje temos músicos que tocam com João Bosco, com Milton Nascimento, gente que está concorrendo ao Grammy, bailarinas, pessoas que estudaram circo na Itália. A renovação do grupo se dá diariamente no trabalho.

Como você vê este momento que o Teatro Mágico está vivendo?
Com muita alegria. O Teatro Mágico cada vez mais se consolida como um projeto de qualidade, com o público presente. Trazemos à tona assuntos que muitas vezes os artistas pop que a juventude está curtindo não trazem, como a questão da mulher, da democracia na comunicação, dos movimentos campesinos dos sem-terra. Começamos o ano tocando em Portugal e, quando voltamos, soubemos que o Jayme Monjardim queria uma música nossa em “Flor do Caribe”. E ainda assim continuamos com os textos politizados, com a mesma postura independente, mantendo o rabo preso com o próprio público.

Hoje falta poesia na música brasileira, principalmente naquela voltada ao público jovem?
Gente fazendo tem, o que falta é um espaço mais democrático de acessibilidade à cultura. O que ouvimos na rádio e vemos na TV é o que meia dúzia de multinacionais quer colocar todo dia. A internet acaba sendo uma ferramenta muito mais transparente pra se saber o que está acontecendo. Tem gente compondo coisas bacanas, fazendo coisas legais, mas tem que buscar, ir atrás. Hoje a necessidade de parecer com alguma coisa que deu certo está latente. Então o pagodeiro faz uma música muito parecida com a que o sertanejo faz, que parece muito com o que o rock jovem canta, que é muito parecido com o axé. São todas as dores dos amores. Pasteurizou-se a produção musical.

Por que o Teatro Mágico reúne bons públicos nos shows, tem seguidores fiéis na internet, mas não consegue aparecer na grande mídia?
Sem estarmos nos grandes veículos de massa, juntamos mais 7 mil pessoas num show em São Paulo. O que acontece é a velha maneira das rádios trabalharem junto às gravadoras, que não é tão pura assim. Muitas vezes, o que está ali não é o que o povo está querendo ouvir, mas o que as rádios se cooptaram pra tocar. A música hoje não é tratada como cultura, mas como um comercial de chiclete, que você precisa pagar pra tocar. Entrar grupos novos nas rádios é muito difícil, por isso a internet é uma saída criativa, atual e constantemente em evolução. É o artista falando com o público diretamente, sem atravessadores.

Vocês já estão pensando num próximo projeto?
Além do DVD que será lançado em maio, teremos um CD ao vivo com canções inéditas e algumas releituras de sucessos que o Teatro Mágico teve nestes 10 anos. Estamos num momento de transição, com figurino novo e novos aparelhos. Ficamos felizes da vida em saber que muita gente está interessada em saber do que se trata este nosso novo momento.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira.

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