Três HQs: Sweet Tooth, O Inescrito e A Máquina de Goldberg

por Adriano Costa

Desde que a Editora Panini assumiu a publicação das linhas da DC e da Marvel no Brasil, é inegável o bom trabalho que vem sendo feito. Há de se discordar de alguns pontos, como o tempo de atraso ainda vigente nas publicações maiores, ou a equivocada junção de títulos para formar UM mix das revistas, resultando às vezes no esquecimento de boas séries. No entanto, isso são detalhes dentro de um todo. No geral, o trabalho é bem realizado e cada vez está mais amplo.

O selo Vertigo da DC é um dos que vem recebendo os melhores cuidados e a prova disso são dois recentes lançamentos inéditos por aqui. O primeiro é “Sweet Tooth – Depois do Apocalipse”, de Jeff Lemire, e o segundo é “O Inescrito”, de Mike Carey e Peter Gross. Os dois em acabamento encadernado apresentam as cinco primeiras edições de cada, originalmente publicadas no decorrer de 2009. “O Inescrito” ainda ganha alguns textos e mais extras de esboços como bônus.

O primeiro volume de “Sweet Tooth” é “Saindo da Mata”. Nele, Jeff Lemire conta a história de uma terra sofrida, após quase todos os humanos serem extintos devido a uma infecção generalizada. As crianças que agora nascem no planeta são híbridos de humanos e animais. O foco está no jovem Gus (que carrega traços de cervo na anatomia), que depois de ver o pai falecer começa a ser caçado, pois a espécie dele é altamente valorizada nesse mundo novo. É quando entra em cena o velho Jepperd.

Jepperd é um homem forte, que por razões bem próprias, resolve salvaguardar a vida de Gus e conduzi-lo a uma reserva para sua espécie. Nessas primeiras edições, a série ainda está apresentando os personagens, mas exibe cores escuras e boas passagens de ação, tratando praticamente de sobrevivência e busca de identidade. Quem já leu mais (através de importados ou dos sites de scan da rede), sabe que tudo vai engrenar ganhando contornos mais dramáticos. Vale a espera.

“O Inescrito”, por sua vez, já começa apoderando-se do leitor. Mike Carey e Peter Gross apresentam Tommy Taylor, um jovem que vive do sucesso do desaparecido pai, um escritor responsável por uma franquia de extremo sucesso com um jovem bruxo, onde o filho foi o molde para a criação. A história do jovem bruxo é uma alusão direta a Harry Potter, e rende algumas tiradas inspiradas, enquanto crítica as adorações extremas da sociedade.

Viajando pelo universo da literatura e fazendo dessa opção uma afiada faca que corta a linha entre fantasia e realidade, “O Inescrito” é original dentro da prerrogativa a que se propõe. Com direito as fantásticas capas de Yuko Shimizu abrindo as edições, viajamos por um mundo onde até o falecido escritor inglês Rudyard Kipling serve como alavanca para o desenvolvimento da trama. E, entre todas essas citações, temos um dos grandes trabalhos dos quadrinhos da atualidade.

Já “A Máquina de Goldberg”, de Vanessa Barbara e Fido Nesti, foi o primeiro de um novo projeto da editora Companhia das Letras, através do seu selo Quadrinhos na Cia., que é inteiramente dedicado à nona arte. Esse projeto visa reunir escritores e desenhistas relativamente novos. A estreia fica nas mãos da jornalista Vanessa Barbara (“O Livro Amarelo do Terminal”) e do ilustrador Fido Nesti (“Os Lusíadas” em quadrinhos).

O roteiro de Vanessa Barbara acompanha um menino gordinho, fã de punk rock e sem muito traquejo social, em um acampamento de férias chamado carinhosamente de “Montanha Feliz”. Getúlio (o garoto em questão) não está muito a vontade com essa verdadeira missão, onde além de suportar todas as zombarias dos colegas de classe, também tem que lidar com a perseguição implacável do professor de educação física responsável pelo acampamento, um ex-militar e ex-boxeador nada confiável.

Em meio a luta pessoal para “sobreviver”, Getúlio invade a casa do zelador do acampamento, um senhor estranho e calado de nome Leopoldo, que guarda alguns segredos. Entre esses segredos está a dedicação espartana em criar máquinas de Goldberg, assim conhecidas por transformarem rotinas banais (como abrir uma porta, por exemplo) em complicados sistemas de evolução. Esse tipo de projeto foi imaginado há mais ou menos uns cem anos atrás pelo cartunista e inventor estadunidense Rube Goldberg (daí o nome).

Para uma máquina de Goldberg ser realmente interessante, tem que conter as junções mais absurdas possíveis. Amostras disso nós podemos ver na abertura do seriado infantil “Castelo Rá-Tim-Bum” ou mais recentemente em um comercial caprichado da Red Bull (vídeo aqui). No caso da obra em questão ela inclui dezenas de bugigangas se intercalando e serve não somente como um grande personagem coadjuvante, como a via que proporcionará a vingança esperada por Leopoldo e, conseguinte, Getúlio.

“A Máquina de Goldberg” trata sobre adequação e comportamento juvenil e usa a vingança como condutora das motivações. Com uma premissa inicial boa (apesar de comum), o trabalho se perde no meio do caminho e acaba não convencendo por completo. Isso ocorre principalmente devido à mistura (sem explicação aparente) na identidade dos personagens, variando características estrangeiras e nacionais, assim como pelas medianas soluções encontradas para elaborar o desfecho.

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– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

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4 thoughts on “Três HQs: Sweet Tooth, O Inescrito e A Máquina de Goldberg

  1. O Inescrito é bom, mas não achei a premissa tão original assim. Parece beber da mesma fonte que Fables, e usar recursos que Alan Moore usa a rodo, e que até James Robinson já usou no Starman. Tenho medo, aliás, que isso comece a virar uma escola algo engessada, como de certa forma aponta o prefácio do Bill Willingham.

  2. Leo, acho a premissa original sim, mas isso não quer dizer que não haja influências de outras histórias (como quase tudo na cultura pop, de modo geral). O próprio Alan Moore citado vive se engalfinhando com o Grant Morrison sobre quem copiou quem. Original, no sentido de único, é coisa quase impossível de se perceber no mundo atual. O prefácio do Bill Willingham, na minha ótica, aponta mais para uma semelhança geral de certas histórias dentro do universo que ele chama de Terra de LAF. E o bacana é que desse ponto em diante, “O Inescrito” só melhora.

  3. Esperava muito de Sweet Tooth, e comprei O Inescrito apenas para conhecer, sem esperar muito. Acabei me decepcionando um pouco com a primeira e me apaixonando a primeira lida pela segunda.

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