Entrevista: John Ulhoa, Pato Fu

por Tiago Agostini

Em 2012 o Pato Fu comemorou 20 anos de carreira com uma temporada de quatro shows tocando na íntegra o disco “Gol de Quem?”, no Sesc Belenzinho, em São Paulo. “Eu escuto os primeiros discos do Pato Fu com um sorriso meio maquiavélico, de “como essa porra deu certo?”. É um som muito improvável, umas tosqueiras”, diz o guitarrista John sobre a experiência de rever a obra da banda para a série de shows especiais.

Nos 20 anos de carreira, O Pato Fu construiu a reputação de ser uma das bandas mais inventivas do rock nacional. Inicialmente um trio, formado por Fernanda Takai, John Ulhoa e Ricardo Koctus, a banda logo ganhou comparações com Os Mutantes, fosse pela formação ou pelo gosto pelas experimentações com anárquicas com teor pop. A gênese da banda pode ser exemplificada pelas bandas favoritas do casal líder: enquanto John é fã de Devo, Fernanda idolatra o Duran Duran.

Com ótimos e versáteis músicos – a banda acrescentaria ao longo do caminho Lulu Camargo e Xande Tamietti –, o Pato Fu possui no casal John e Fernanda uma espécie de pilar. Enquanto o guitarrista é o mentor intelectual da brincadeira, Fernanda sempre foi, de certa forma, a cara da banda, a doçura que contrapôs desde o início a loucura sonora que o Pato Fu pode se tornar em alguns momentos. A união destes opostos fez do Pato Fu um dos grupos mais importantes da história na música brasileira.

Para marcar os 20 anos da banda, o Scream & Yell conversou com o guitarrista John Ulhoa sobre os shows do “Gol de Quem?, relembrou a primeira fase da banda, e avisou: “Queremos fazer um outro disco de inéditas”. Fala John:

O convite para o show com o repertório do “Gol de Quem?” veio do Sesc?

Sim, mas acho que tem a ver, é a escolha correta. Apesar de não ter sido nosso álbum mais popular, o que mais vendeu, para muita gente que começou a ouvir a gente nos 90, boa parte do nosso público dos 30 pra cima, o “Gol de Quem?” foi o primeiro, a porta de entrada. Isso faz dele um clássico para uma grande parte do nosso público. Eu escuto as bandas que eu gosto desde adolescência e não é o primeiro disco que bate, é o primeiro que eu ouvi.

Já tinham pensado em recriar algum dos discos?
Quando relançamos o “Rotomusic de Liquidificapum” até pensamos ligeiramente em fazer isso, mas ele é um disco muito obscuro. As pessoas falam bastante dele, mas é muito pouco ouvido.

E imagino que ele seja bem mais difícil de executar também.
Mais ou menos. É quase igual ao “Gol de Quem?”. Ele é mais rock, mais violento, mais pesado, mas não mais difícil. Os dois são esquizofrênicos pra caralho. Acho massa que, quando a gente colocou a noticia por aí, a resposta foi do caralho. Eu ficava pensando se a gente tem essa representatividade das pessoas quererem ouvir um álbum, mas foi do caralho, porque assim que anunciaram (os shows), apareceu aquele monte de gente falando pra tocar em outras cidades.

E vocês pensam em fazer em outras cidades? Titãs e Paralamas começaram no Sesc esse projetos, com o “Cabeça Dinossauro” e o “Selvagem?” e já expandiram.
Vamos sentir a pegada agora. Os ingressos desses dias se esgotaram muito rápido, foi um sinal de que isso pode funcionar em outras cidades, fora do esquema Sesc. Queremos muito. Não acho que a gente vá fazer uma turnê do “Gol de Quem?”, mas serve como comemoração. Estamos fazendo 20 anos agora, acho legal.

E como está a preparação? É o último disco com bateria eletrônica, como é voltar a ele depois de 17 anos e recriar ele ao vivo?
Eu pus alguns aparelhinhos meus velhos aqui pra funcionar e eles funcionaram, o que já uma pequena vitória. Mas a gente vai usar bastante dos timbres originais desse troço. Estamos remontando aquele padman e o martelinho de “Ring My Bell”, que usávamos na época, que são coisas bem típicas do show que a gente fazia. Por outro lado, vamos tocar com baterista e teclado. Então faremos aqueles arranjos como eram, mas com essa versão anos 2000 mesmo. Acho que os timbres vão estar bem representados ali. O dado pitoresco é que passei por uma cirurgia no ombro, então estou fazendo tudo com uma mão só. É um puta trabalho de recuperação, mal estou conseguindo tocar guitarra, mas na hora vai rolar.

Até o show você vai estar recuperado?
Tenho feito shows do “Música de Brinquedo”, que é sentadinho. Até o dia do show não estou recuperado, estou fudido. Vamos tocar assim mesmo. A cirurgia é tranquila, mas a recuperação é lenta. O mais difícil não vai ser nem o show, mas ter que ensaiar, produzir tudo, que me toma horas. Vamos dar um jeito. O padman, por exemplo, se eu não conseguir tocar, o Xande toca.

E você falou o negócio de tocar com teclado, lembrei que em um show do Sesc, com o Dudu (Tsuda), vocês tocaram “Mamãe Ama Meu Revólver” porque ele pediu e vocês brincaram que ele ia ter que inventar alguma coisa, porque a música não tem teclado. (risos) O Lulu está tendo muito trabalho?
Ele vai fazer mais ou menos isso. As músicas que tinham algum teclado ele está tirando, mas as que não tinham ele acha alguma coisa pra fazer.

Você costuma ouvir a discografia do Pato Fu?
Não, é raro. Acabo ouvindo porque, como produzo as coisas aqui em casa, escuto como referência se alguém me pede algum som. Mas é muito raro eu botar essas coisas pra ouvir de verdade, por prazer.

E quando pegou o “Gol de Quem?’, teve alguma música que rolou uma nostalgia de tocar?
Cara, escuto os primeiros discos do Pato Fu com um sorriso meio maquiavélico, de “como essa porra deu certo?”. É um som muito improvável, umas tosqueiras. A Fernanda sempre cantou bem, mas eu e o Rica cantamos desafinados, muito de qualquer jeito, e aquela porra foi assim mesmo. Então acho legal que a gente tenha preservado isso com uma certa inocência. Me dá a sensação de que era uma boa ideia. Em especial, tem uma música chamada “Onofle” que o Lulu brincava nos últimos tempos, quando a gente imaginava a lista de um show novo, que tínhamos que tocar (risos). Eu sabia que ele estava brincando, porque é uma música muito… Ela é toda… Na época tocávamos com bateria eletrônica, e eu sempre tentava fazer uma música que fosse muito exagerada no andamento, algo de “vamos tocar isso aqui no máximo”. No primeiro disco foi “Rotomusic”, no segundo foi “Onofle”, no terceiro “Capetão”. Era botar efeito na voz, acelerar a música, letra fora da métrica, essas coisas. E “Onofle”, de todas, é a mais samba do criolo doido.

E se você pudesse recriar outro disco do Pato Fu, qual seria?
Outro pra fazer assim ao vivo? Realmente, nunca pensei em fazer isso. O “Ruído Rosa” tem umas músicas (“Day After Day’ e “Que Fragilidade”) que acho muito legais, e que na turnê não tocamos. Algumas eram muito complexas, precisavam de muita coisa de estúdio, e naquela época já tínhamos muita música. Quando começa uma turnê nova é difícil tocar todas as músicas de um disco, fica um monte de música que as pessoas querem ouvir de fora. Na nossa carreira a gente sempre pôs muita música nova nos shows, mas esse eu achava o disco todo legal e algumas que eu queria a gente não tocou ao vivo.

E além das músicas do “Gol de Quem?”, vai ter mais coisa no show?
Sim, se não é um show curto demais. Acho que vamos pesar mais nas coisas de época, músicas que eu canto. Quem está a fim de ver o “Gol de Quem?” tem essa nostalgia da época que eu cantava mais. Ainda não temos certeza de como vamos completar o show, mas acho que é o espírito do “Rotomusic” e coisas dessa época.

A Fernanda já disse que vocês estão pensando em disco novo. Como está isso?
Bem, esse ano temos um bando de coisas para trabalhar. A Fernanda está divulgando o disco com o Andy (Summers), ainda esse ano terá shows. Estamos pensando em um disco novo, temos outro projeto secreto que vai ser feito com o Giramundo ainda este ano e temos músicas inéditas, mas é mais provável que esse disco saia no início de 2013. E queremos fazer alguma espécie de pacote da alegria que junte os 20 anos, essa data cabalística. Até talvez a turnê do “Gol de Quem?” possa ser isso, ainda estamos matutando. Mas nosso próximo projeto não é o “Música de Brinquedo 2”, apesar de um monte de gente pedir. A não ser que tenhamos alguma ideia mutcho loca, que não tive ainda, mas a princípio queremos fazer um outro disco de inéditas.

– Tiago Agostini (@tiagoagostini) é jornalista. Todas as fotos por Liliane Callegari

Leia também:
– Discografia Comentada do Pato Fu, por Tiago Agostini (aqui)
– “Música de Brinquedo” ao vivo no Ibirapuera, por Marcelo Costa (aqui)
– Pato Fu duas vezes ao vivo em São Paulo, 2010, por Tiago Agostini (aqui)
– O tempo amigo do Pato Fu, por Marcelo Costa (aqui)
– Quatro vídeos: Lados b do Pato Fu, por Marcelo Costa (aqui)
– “Daqui pro Futuro”, Pato Fu, por Marcelo Costa (aqui)
– “Onde Brilhem os Olhos Seus”, Fernanda Takai, por Marcelo Costa (aqui)
– “Toda Cura Para Todo Mal – DVD”, Pato Fu, por Marcelo Costa (aqui)
– Pato Fu ao vivo em Taubaté, 31/03/00, por Marcelo Costa (aqui)
– “Toda Cura Para Todo Mal” faixa a faixa por Fernanda Takai (aqui)
– “MTv ao Vivo”, Pato Fu, por Fábio Sooner (aqui)
– Scream & Yell entrevista Fernanda Takai, por André Azenha (aqui)
– “Rotomusic de Liquidificapum 15 Anos”, Pato Fu, por Marcelo Costa (aqui)
– “Toda Cura Para Todo Mal – DVD”, Pato Fu, por Marcelo Costa (aqui)
– Pato Fu libera vídeos em site especial, por Marcelo Costa (aqui)

9 thoughts on “Entrevista: John Ulhoa, Pato Fu

  1. Quando uma banda celebra 20 anos de carreira, normalmente, aposta em uma de duas vias. Ou edita uma coletânea com os seus melhores momentos (incluindo alguns indéditos), e em contrapartida apresenta, ao vivo, um trabalho emblemático mais antigo. Faz sentido que o Pato Fu aposte numa releitura de “Gol de Quem?”, porque o grupo mineiro sempre esteve um passo à frente da concorrência, por uma questão orgânica e de estilo também.

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