Entrevista: Cris Braun

por Andressa Monteiro

Paciência, planejamento e muito cuidado parecem ser os pontos fortes da carreira de Cris Braun, cantora que está lançando seu terceiro álbum, “Fábula“, oito anos após seu segundo disco, “Atemporal“ (2004). “Tive shows com projetos paralelos, discotecagem, meu programa de rádio e cuidados com a casa e cachorros”, explica.

Um longo intervalo de sete anos também espaçou “Atemporal” de seu primeiro disco, “Cuidado Com Pessoas Como Eu”, de 1997, lançado na época pelo selo que Marina Lima teve na PolyGram, chamado Fullgás. Antes disso, Cris integrava o grupo Sex Beatles, que lançou dois bons discos (“Automobilia“, de 1993, e “Mondo Passionale“, de 1995) produzidos por Dado Villa-Lobos.

Nascida em Estrela, no Rio Grande do Sul, Cris Braun cresceu em Porto Alegre, passou a adolescência em Maceió, e viveu 25 de seus quase 50 anos no Rio de Janeiro. Hoje está de volta a Maceió. E foi indo e vindo por meio da ponte aérea Rio-Maceió que acabou produzindo “Fábula“, que conta com duas parcerias com Billy Brandão e Fernando Fiúza e regravações de Wado (que toca guitarra em duas faixas), Lucas Santtana, Marina & Alvin L (que também era do Sex Beatles), entre outros.

Em seu terceiro disco solo, mais pop-rock, folk e menos MPB, Cris explica que ainda se considera uma moça roqueira, mesmo sem fazer rock and roll. “Faço música livre brasileira”, se diverte. Outra característica marcante do álbum são as histórias contadas que se modificam durante as faixas, causando diversas impressões, expressões, sentimentos e sensações.

Cris Braun conversou por e-mail com o Scream & Yell e comentou sobre a admiração e amizade com Renato Russo, elogiou o músico Silva, uma das revelações do ano passado, falou sobre o programa de música clássica que apresenta na rádio Educativa, em Maceió, e adiantou que está ensaiando e planejando shows. Com vocês, Cris Braun.

Oito anos se passaram desde o lançamento do seu segundo álbum, “Atemporal”. Por que tanto tempo de espera para a realização de um novo trabalho?
Demandas externas, adequação as possibilidades, planejamento. Uma conjunção de fatores.

Andou trabalhando muito durante esses anos?
Sim, preparando o disco, fazendo shows com projetos paralelos, discotecando, fazendo meu programa de rádio, cuidado de casa e cachorros.

Em “Fábula”, você trabalha com vários músicos (Júnior Almeida, Sacha Amback, Lanlan, Gustavo Corsi, Zé Paulo, Marina & Alvin L, Celso Fonseca, Wado, Billy Brandão e Pedro Ivo Euzébio). Como estes encontros aconteceram?
Em 20 e tantos anos de carreira, todos fazem parte de meu universo musical. A ideia era juntar meu “time” do Rio, com meu “time” das Alagoas, onde vivo hoje.

Sente falta do Rio?
Estou sempre no Rio, muitas vezes ao ano.

Como é o repertório do disco?
Tenho duas instrumentais inteiramente minhas: “Terra do Nunca Mais” e “Artérias”. Duas parcerias, “Tão Feliz “, com Billy Brandão, e “Viga“, com Fernando Fiúza. E uma só minha, “E o Amor Calou”. Tem inéditas de Wado (“Cidade Grande”), artista que admiro muito. Duas regravações: “Tanto Faz Para o Amor”, de Lucas Santtana e Quito Ribeiro, e “Deve ser Amor”, de Marina Lima e Alvin L, e por aí vai.

Tem alguma favorita?
Hummmm…. Às vezes tenho, às vezes não. Hoje não tenho nenhuma favorita. Ele todo é favorito!

Onde o disco foi produzido?
Na ponte aérea Rio/Maceió.

O resultado final foi o esperado? Ficou contente?
100% feliz!

Tanto o nome “Fábula”, como a ilustração da capa, remete a histórias e contos infantis. Por que decidiu seguir essa temática?
Não (diria) exatamente infantis. Quis contar uma historinha, mesmo que sem “A” moral da história. Pretensiosamente, a historinha do ser humano mais humaninho possível, que vem vive sofre, se alegra, perde, ganha, se redime e um dia vai embora.

Como um processo natural de evolução contado de uma forma simples?
Não da evolução, mas da vida cotidiana. A pessoa vem ao mundo inocente e pura. Ganha perde se ilude se desilude se fascina endurece a alma e se enternece de novo. Tudo assim sem vírgulas!

A faixa “Ossos”, que abre o disco, é do segundo disco do Wado (“Cinema Auditivo”, de 2002). Ela pode ser interpretada como um modo de viver a vida com mais tranquilidade?
Pode ser. Quando as canções vão para o mundo, cada um as entende como quer. Mas acho mesmo que ela fala que tudo passa e por isso não nos devemos prender a valores idiotas.

Na última entrevista que você deu ao S&Y, disse que escreveu as canções de “Atemporal”, pensando sobre o ritmo da natureza, calmo e ameno. Isso se repete em “Fábula”?
De certa forma sim, só que a proximidade com o mar faz o disco menos contemplativo.

A segunda faixa, “Cidade Grande”, também do Wado, tem o trecho, “E botam armas em nossas favelas / E as ambulâncias estão sempre cheias / Será que há ainda sangue em nossas veias?”. Seria uma crítica ao governo, a violência urbana e a falta de atitude com relação a população brasileira?
Eu teria que perguntar ao Wado. Mas acho que sim também. Ou apenas uma leitura do que é a nossa realidade dura. Duríssima.

A instrumental “Artérias” é mais agressiva. Por que decidiu fazer dessa maneira? É uma abertura para dar continuidade a faixa seguinte, “A Viga”?
Dentro desta historinha que está na minha cabeça, ela representa um momento de revolta, revirada. E “A Viga” é a conclusão crua e desnudada a qual o nosso ser humaninho chega naquele momento.

Ainda falando sobre “A Viga”, há o trecho, “É chato cantar sem ouvidos / Pior que acordar sem cigarro / É ver o time perder no domingo“. Acordar sem cigarros é melhor mesmo do que ver o seu time perder? E o que é “cantar sem ouvidos”?
Teremos que perguntar ao Fernando Fiúza, porque eu sou autora da música e ele da letra, risos. Eu nem fumo! Mas a imagem é bem humana e crua, né?

Com certeza! O Fernando deve gostar bastante de futebol (risos). Já em “Oscilante” há um jogo de palavras e gingados misturados com samba. Essa foi a intenção? Que tanto a canção como o disco todo oscilasse entre emoções, estilos musicais, histórias e impressões?
Também é de Fernando Fiúza e parece demonstrar o que se está falando sobre a oscilante aventura que é viver.

“E o Amor Calou”, tem uma citação de “Carinhoso”, do Pixinguinha. “Quando te vi / Não sei por que / Meu coração / Calou sem querer”. Teve algum motivo especial para incluir essa parte na música?
Apenas minha admiração e amor por esta canção de Pixinguinha. Um trocadilho.

Há menos influências de rock em “Fábula” do que em seu disco anterior. Como anda a sua pegada roqueira? E a MPB?
Ao contrario, acho “Fábula” mais pop-rock, folk, menos MPB. Eu acho que sou uma moça rock and roll, mesmo sem fazer rock and roll. Faço “música livre brasileira”.

O que pode dizer sobre a evolução da sua carreira com relação aos seus três discos?
Digo somente da minha evolução pessoal. Constato com alegria que tenho o respeito, o carinho e a troca com quem me ouve e quem sabe de meu trabalho.

Você comentou uma vez que tudo tem que ser calmo, menos a Internet. Passa muito tempo na frente do computador? Acha bacana a divulgação do seu disco pelas redes sociais e de outros artistas que estão começando agora a carreira?
Acho uma loucura, uma revolução! Passo sim algum tempo. Hoje é meu maior veículo de divulgação. Traz mais alcance, acho.

O que acha da pirataria online?
Se formos entrar nesta discussão, vamos levar dez anos aqui. São muitas considerações que pendem para todos os lados. Tem lado positivo e tem negativo. A questão sempre vai bater em: como que se faz para que seu trabalho tenha retorno financeiro, o que é mais que justo.

Ainda tem contato com o pessoal do Kid Abelha e joga bola com Fernanda Abreu e Paula Toller?
Tenho. Pouco, mas tenho. O futebol já não jogamos há tempos.

Você apresenta um programa de rádio sobre música clássica? Como é a experiência?
Apresento este programa na rádio Educativa, em Maceió. Adoro.

Acaba aprendendo muita coisa sobre música clássica?
Menos do que eu gostaria, sou preguiçosa.

Como era a sua amizade com Renato Russo? O jornalista Arthur Dapieve escreveu um texto sobre a sua vida e carreira dizendo que Renato te chamava de “Edileusa” (apelido carinhoso que chamava as amigas). Você pode contar um pouquinho mais sobre essa história?
Renato era um cara querido, temperamental, brilhante e carinhoso. Tinha essas manias de colocar apelidos. Tínhamos amigos em comum, andávamos na mesma turma nos anos noventa (quando o conheci), víamos filmes… Enfim essas coisas que grupos de amigos fazem.

O que anda escutado ultimamente?
Wado, Lucas Santtana, Cabeça de Panda, John Cage, Elbow, Bach (sempre), Projeto Sonho (AL), Jr. Almeida (AL), SILVA, Piazzola, Villa Lôbos. Estes estão separados em cima do som! Ouço música em CDs, no som, como deve ser, rs!

Olha que bacana! A gente acabou de entrevistar o Silva também. Não gosta então de baixar música pela internet, escutar no Ipod?
Eu baixo, eu compro, mas transformo em cdzinhos e ouço na melhor condição possível. Adoro o SILVA.

Poderia indicar artistas novos para o pessoal do S&Y?
Assim de imediato? O Jr. Almeida, O Projeto Sonho, ambos das Alagoas e Patricia Polayne. E também uma tal de Cris Braun, afinal tão pouca gente conhece, rs! Verdade!

E projetos futuros e shows? Como estão?
Ensaiando e planejando!

– Andressa Monteiro (siga @monteiroac) é jornalista e assina o blog Goldfish Memory

Leia também:
– Entrevista 2005: “Eu ouvi tudo isso na minha adolescência”, diz Cris Braun (aqui)
– Download: Coletânea Camisa 10 que traz “Eu Nunca Te Amei Idiota”, do Sex Beatles (aqui)
– Download: Uma mixtape com The Cure, Wado, Wilco, Lou Reed e Sex Beatles (aqui)
– Entrevistas com Silva (aqui), por Andressa Monteiro, e Wado (aqui), por Marcelo Costa

2 thoughts on “Entrevista: Cris Braun

  1. Fábula é fabuloso!
    Entendo que ”cantar sem ouvidos”,na faixa “A viga” se refere a cantar p/ ninguém,cantar sem ninguém te escutar!

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