De Reykjavik: Iceland Airwaves 2011

por Luiz Freitas

O povo islandês é famoso pela criatividade. Num país com gêiseres, vulcões, geleiras, um vento fortíssimo, um frio absurdo e, mais recentemente, calotes da dívida externa, ser criativo é questão de sobrevivência. Para quem venceu tudo isso, se tornar o maior celeiro de boa música per capita era uma tarefa muito fácil. E isso (e não só isso) faz o Iceland Airwaves diferente de qualquer outro festival do mundo: as bandas pequenas, das quais você nunca ouviu falar na vida, são as que fazem a noite valer a pena.

Criado em 1999, a primeira edição foi em uma noite só, num hangar. Hoje, o Iceland Airwaves reúne cerca de 240 bandas em 10 casas diferentes, durante 5 dias. Sim, como o SXSW. A diferença é que Reykjavik é muito menor que Austin. As casas ficam todas praticamente no mesmo quarteirão e é realmente muito rápido pular de uma para a outra. Com exceção da Harpa, famosa sala de concertos com arquitetura arrojada à beira do mar, todas elas são lugares aonde você pode assistir os shows com o cotovelo no palco.

E as bandas? Bom, nada que seja exatamente o hype do momento, apesar do Vaccines ter cancelado sua apresentação em cima da hora. Dentre as bandas estrangeiras mais famosas tinha Beach House, Sinnead O’Connor, os suecos do Dungen, Yoko Ono, We Were Promised Jetpacks, Twilight Sad e a nova aposta da Pitchfork para “melhor banda do mundo”, o Iceage. Nada muito popular, considerando ainda que o show da Sinnead O’Connor era um evento especial com ingressos vendidos a parte.

Entretanto, de especial, esse ano Bjork escolheu o festival para lançar seu disco novo. Sim, praticamente tudo que é relevante na Islândia toca aqui. Mesmo as estrelas sempre voltam, e se revezam ano sim ano não. Ainda, toda e qualquer banda que estourou de 1999 para cá, e que vá um dia aparecer para o mundo, necessariamente passou ou passará pelo Iceland Airwaves. Esse é o trampolim da Islândia para o estrelato.

O mercado musical islandês é muito pequeno. Nada mais natural para um país em que a população é do tamanho da cidade de Araraquara. Num mundo paralelo, isolado, fica difícil testar as bandas a nível internacional e achar uma vitrine sem ter que fazê-las cruzar o mundo. Para isso surgiu esse festival. Para que estrangeiros deslumbrados com a natureza, a cultura e amabilidade desse povo docemente bizarro voltem para casa falando de suas bandas, preparando o caminho para o futuro. E sempre dá certo. E os estrangeiros voltam, claro, comprando passagens da caríssima companhia aérea estatal que patrocina o evento novamente. Como já foi dito, a criatividade resolve os problemas de todos, das bandas, do comércio, e do governo.

Quanto as bandas locais, tem de tudo. Foi-se o tempo aonde todos queriam ser iguais ao Sigur Rós ou a Bjork. As duas bandas islandesas mais promissoras, por exemplo, tocaram juntas no primeiro dia, na NASA, localizada na praça central de Reykjavik. No mundinho à parte que é a Islandia, já tocam na rádio, como pop stars. São elas o Agent Fresco, um verdadeiro fenômeno local. Com histeria, todo mundo cantando junto e o público indo a loucura. Em termos de pretensão e exagero milimetricamente calculado, podem soar como o Muse. É um som poderoso, cheio das influências progs e dos vocais estilo opera-rock , mas ainda assim tem muito do pop. Funciona. E funciona muito bem ao vivo.

A outra muito provavelmente é a próxima grande coisa a sair da Islândia. Talvez você já tenha ouvido falar deles. Bandas islandesas geralmente são descritas como exóticas, modernas e avant-garde. Esqueça. Essa é exatamente igual a tudo que você já viu. Sabe aquela banda fofinha, com 9 músicos medianos no palco, mais preocupados em serem os caras mais doces do planeta (sempre tem que ter uma ou duas meninas no meio, claro) do que com qualquer coisa, vestidos que nem hippies e se comportando igual, com um música que você sabe exatamente aonde vai parar após ouvir 15 segundos? Esse é o Of Monsters and Men (foto abaixo). Mas poderia ser o Mumford and Sons. Ou a Banda Mais Bonita da Cidade. O show deles é como “Oração” tocada 9 vezes. Mas as pessoas gostam. E realmente, você aprende a cantar muito rápido, dada a simplicidade da coisa. Funciona. Do jeito deles.

Começam aqui a aparecer os pouquíssimos problemas da Islândia. Como a cerveja caríssima e de péssima qualidade. Para quem não leu o livro “Rumo a Estação Islândia”, de Fábio Massari: a cerveja aqui era proibida até 1989. Ou melhor, ainda é. O que é liberado é essa água suja com 2% de teor alcoólico, para desespero dos turistas alemães, que ficavam realmente bravos com isso. Aliás, a Islândia, como vocês já deve ter ouvido falar, é cara. O lugar mais caro do mundo. E só é o lugar mais caro do mundo porque barateou muito após a crise. O pint de água suja custava 700 coroas, o equivalente a cerca de 5 euros, ou então 12 reais. Pouca coisa mais barato que o SWU, provavelmente.

O segundo é o clima. Os shows mais disputados, obviamente, tinham fila. E uma fila ao ar livre na Islândia não é bem agradável. Na verdade, o país é muito mais quente do que se espera para um local apelidado de “Terra do Gelo” (reza a lenda que os vikings optaram por esse nome para desencorajar invasores). O problema é o constante vento, o mais forte que já vi (a Boeing testa seus aviões na Islândia. Se o avião aguenta esse vento, aguenta qualquer coisa.) Não o bastante, ainda tem a chuva, constante e aparecendo do nada. Segundo os nativos, essa ainda é uma das melhores épocas do ano. Mas nada que não se resolva com um gorro e luvas. Estando preparado, andar na madrugada, com as ruas iluminadas, os bares todos abertos e as calçadas cheias de gente, faz você se sentir numa verdadeira metrópole.

Ir para o Icelandic Airwaves é válido mesmo se você não conseguir as wristbands (pulseiras). Primeiro porque a invasão de milhares de estrangeiros torna a cidade ainda mais interessante. Japoneses, americanos, canadenses, surpreendentemente, são muitos. As bandas canadenses também. São encorajadas a vir não só pela viagem curta, como por convênios do festival com organizações e selos canadenses. Outras vêm da Fat Cat, gravadora que lançou vários islandeses para o mundo, como o Sigur Rós e o Múm, entre outros selos. Outras vem do Sonicbids, serviço pago aonde bandas montam um perfil para serem selecionadas em diversos festivais e outras possibilidades. É aberto para qualquer banda, inclusive a sua.

O outro motivo são os eventos “off-venue”. São pocket-shows em lugares que não fazem parte da agenda oficial, todos de graça. A maioria são nos hotéis e albergues da cidade (foto acima: show no Reykjavík Downtown Hostel), o que significa que tem uma grande chance de você poder ver um mini-festival apenas descendo as escadas. Esses shows são mais intimistas ainda, e praticamente todas bandas que estão na agenda oficial tocam pelo menos uma vez neles, junto com bandas islandesas que não estão nela. Um calendário com o horário desses shows é lançado poucos dias antes do festival. E ainda assim, há os eventos “off-off-venue”. Bares aproveitam a cidade lotada de turistas e botam bandas para tocar a laço, no completo improviso.

Num deles, estava o Agent Fresco. Sim, a cultuada banda que toca nas rádios por lá, isso que eles são famosos por serem mais egocêntricos. Mas egocentrismo e superstar é relativo na Islândia, aonde todo mundo conhece todo mundo. Talvez os outros festivais ficassem desesperados em ver suas principais atrações tocando no meio da rua um dia antes ou depois. Mas essa é a Islândia. Dinheiro e prestígio é uma coisa muito pequena aqui, num país com os melhores indicadores sociais do mundo. Islandeses são muito menos nórdicos do que se acredita. Alguns param, conversam com estranhos sobre futebol na rua, exatamente como no Brasil. Nas palavras de um deles: “Sabemos que nossa vida não tem problemas e é tudo muito tranquilo. Nada mais justo do que sermos sorridentes desse jeito”.

O Dream Central Station é a prova disso. A banda, com cinco integrantes, faz um shoegaze clássico do começo dos anos 90. Como outra banda, mais conhecida fora da Islândia, o Singapore Sling, cujo um dos integrantes estava bem ali, em cima do palco. A vocalista, Elsa Maria Blöndal, por sua vez, tem outro projeto com outro membro da banda, que tocou no Airwaves do ano passado, o Go-Go Darkness. “É muito normal as pessoas aqui tocarem em duas ou três bandas.” diz. Ou então, oito ou nove, como o baixista de sua banda, Frikki, que tocou 15 vezes no festival. Sim, quinze. Todo esse pessoal, Singapore Sling e shoegazers agregados da Islândia, formam o Vebeth, selo e coletivo, uma cena dentro da cena. “Nós nos ajudamos”, completa Elsa. “A gente empresta um pedal, um amp, ou até um integrante para fazer back vocal se necessário”.

Você deve se perguntar qual é a mágica para a Islândia ter tantas bandas sendo um país tão pequeno. São 240 bandas, e quando você vê o line-up do ano passado, são 240 bandas diferentes. Pois bem, aí está. São as mesmas pessoas. E elas mesmas vão ser os fotógrafos da noite, os bartenders da noite seguinte e os carpinteiros e jardineiros na segunda feira. Todos são “multi-men” na Islândia. Elas são selecionadas pelo site do festival no decorrer do ano.

Era já sábado, no Iðnó, um charmoso restaurante localizado num imóvel do século 17, que se transforma numa das casas do festival. Sobe ao palco o Miri. A banda, espetacular. Um math rock nervoso, forte, com os bem colocados vocais, na maioria das vezes, do baterista.

As bandas, na maioria das vezes, falam com o público em islandês. A plateia é formada por uma maioria de amigos. Mas mesmo sendo entre amigos, tocar no Airwaves é diferente. “Vem muitas pessoas novas de fora então é um pouco como tocar no exterior”, diz Ívar Petur Kjartansson, o baterista cantor. “Todo mundo fica muito ambicioso, ensaia pra caramba e dá o seu melhor”. Elsa concorda: “Shows normais em Reykjavik são mais íntimos, e dá pra escapar do nervosismo bebendo (risos)”. Ambos, nas próprias palavras, consideram o festival como um natal antecipado.

Algumas coisas mudaram, entretanto. “Acho que os organizadores tem que relembrar como e porque esse festival começou.” diz Ívar. “É para dar as bandas pequenas a oportunidade de tocarem com grandes bandas estrangeiras. Trazer Sinnead O’Connor e Bjork (que tocaram sozinhas, em separado, em eventos especiais pagos à parte) custou muito dinheiro que poderia ser melhor gasto.” E repete as palavras “Não há grandes nomes nesse festival. Isso que o faz tão bom”.

Bandas grandes, médias, e pequenas dividem o festival, é fato. Era apenas o segundo show do Dream Central Station. Nem mesmo um CD tinham. O Miri, com seus quatro integrantes, já toca junto desde 2003, quando eram apenas três. Ao contrário da banda de Elsa, Ívar diz que seus gostos são bem diferentes um dos outros, e o resultado é o que se vê no palco. Claro, com seus amigos embaixo, conversando com a banda no palco entre uma música e outra. Outros amigos tirando fotos, um deles reconheci de outra banda que tocou no dia anterior. Nem tanta gente assim estava presente, um público médio, até. A maioria iria chegar para o show das duas bandas da Fat Cat, We Were Promised Jetpacks e Twilight Sad, que aconteceriam logo depois. Ívar agradece o público “Tem vários shows acontecendo agora e fico feliz por vocês terem escolhido assistir o nosso”.

Hora da participação especial. Um dos amigos embaixo conversando e tirando fotos é chamado para subir ao palco, e assume a gaita. É Snorri Helgason, mais um músico islandês dessa cena tão pequena. “Normalmente é o Örvar, do Múm, mas eles estão em turnê”. Acaba o show. Aplaudidos pelos amigos e pelos estrangeiros que vieram ver o Twilight Sad, eles vão embora. O show do Twilight Sad começa, uma intro soturna e melancólica toca. Todos com os olhos fixos no palco e… Ívar entra, completamente perdido, procurando sua bag de pratos ou algo do gênero que ele esqueceu no palco. E não acha, e vai embora constrangido. Nada é muito sério e profissional na Islândia. Ainda bem.

– Luiz Freitas é co-fundador do selo brasileiro Sinewave Records < http://sinewave.com.br >, baterista da Duelectrum, ex-baterista das bandas Gray Strawberries e Old Magic Pallas, e operador da Linha Verde do Metrô.
– Fotos: Alexander Matukhno (fotos 1 e 2), Lukas Janicik (fotos 3 e 4), Óskar Hallgrímsson (foto 5) e Iona Sjöfn (foto 6). Veja mais fotos do Iceland Airwaves no Flickr oficial (aqui) e conheça o site do festival: http://www.icelandairwaves.is/

Leia também:
– Entrevista: Herod Layne e Sinewave, por Ramon Vitral (aqui)
– Festivais 2011: Coachella (aqui), Primavera Sound (aqui) e Benicàssim (aqui), por Mac
– Planeta Terra 2011: cinco jornalistas contam suas experiêencias no festival (aqui)
– O barulhento festival I’ll Be Your Mirror 2011, em Asbury Park, por Elson Barbosa (aqui)

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