Conexão Latina: Onda Vaga

por Leonardo Vinhas

“Um amigo me disse que sou sonhador / por acreditar que as coisas não são como são / Elas são como eu acredito que elas vão ser”. Esses versos da canção “Vayan a Ser”, ingênuos à uma primeira leitura feita fora de contexto, são perfeitos para ilustrar alguns dos sentimentos comunicados pela música do banda argentina Onda Vaga. Seus dois discos, “Fuerte y Caliente” (2008) e “Espiritu Salvaje” (2010) são coletâneas de canções intensas, de instrumentação rica e arranjos que superam qualquer noção pré-concebida de como deveria soar uma banda que dispensa instrumentos elétricos.

Longe da placidez que ficou associada ao formato acústico, as composições do quinteto têm uma energia que remete à uma memória musical ancestral, de uma época que nenhum de nós vivenciou, mas em nosso íntimo sabemos ter existido. Uma época em que músicos ambulantes dedicavam-se a tirar as melhores e mais sinceras canções de seus instrumentos, e com isso provocar as reações mais desapegadas que pudessem surgir no ouvinte, como dançar em público, chorar, mudar o rumo da vida.

Quem viu a banda em sua pequena turnê brasileira em maio – tocaram no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campinas e São Paulo, abrindo para os brasileiros Do Amor – pôde comprovar. Ao vivo, o efeito da música sobre o público era imediato, assim como a empatia entre ambas as partes. O repertório privilegiou o indispensável disco de estreia (tocado quase na íntegra), mas incluiu ainda as melhores canções do irregular “Espiritu Salvaje”, como “Así”, “Jovens” e “Continente de Perlas”.

Nacho Rodriguez (cuatro e violão), Marcelo Blanco (trompete e violão), Marcos Orellana (cajón peruano), Tomás Justo Gaggero (guitarra criolla) e Germán Cohen (trombone e percussão) formaram a banda em 2007, quando viajaram juntos a Cabo Polonio, no Uruguai. Desde o começo, já realizavam os vocais a cinco vozes, uma das características marcantes do quinteto. O que começou como uma reunião de amigos na praia tornou-se, com o perdão da palavra, um hype construído boca a boca, que só chegou à imprensa quando o quinteto já era um pequeno culto em Buenos Aires. Agora, a banda soma turnês internacionais (que incluiu até o Marrocos, além da América do Sul e da Europa,), indicações ao Grammy Latino e shows cada vez mais cheios. E em seu país natal, já abandonaram o circuito de bares para começar a lotar ginásios e grandes casas de espetáculos.

Germán Cohen conversou com o S&Y sobre esse crescente sucesso, as composições, sobre a pluralidade de projetos paralelos da banda e sobre os benefícios de ser um músico literalmente independente. A conversa saiu tão empolgante como a música de sua banda. Confira abaixo:

Como foram os shows no Brasil? Já existiam fãs brasileiros, ou esse foi o primeiro contato do pessoal daqui com a música de vocês?
Os shows foram muito intensos e isso nos surpreendeu bastante. Tinha gente que conhecia as canções e as cantavam, garotas que saibam nossos nomes… Foi bastante impactante ver isso, porque tínhamos entendido que no Brasil não se escuta muita música argentina. Também teve muita gente que nos ouviu pela primeira vez e que curtiu bastante. Temos muitas lembranças boas de nossa primeira experiência brasileira.

Acham que voltam para cá em breve?
Esperamos que sim, mas claro que isso não depende só de nós, mas também das pessoas que produzem eventos aí. Por isso espero que algum produtor leia isso e nos leve logo.

Qual é a relação de vocês com a música independente do Brasil? Vêem alguma semelhança com o que acontece na Argentina?
Acho que existem semelhanças, sim, e a verdade é que gostamos muito do movimento da música independente não só do Brasil mas em geral. De qualquer modo, nós – tanto com o Onda Vaga como com o resto dos projetos de cada um – vivemos sempre dentro do independente. É como a nossa casa. Por isso não é estranho que tenhamos certa afinidade com as pessoas que vivem na mesma casa, seja no Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Por outro lado, me parece que a produção independente é de onde saem as coisas mais interessantes . As pessoas que estão no indie são gente que quer fazer música e não especula tanto em temas como dinheiro, difusão, etc. Então, [o indie] me parece um bom gerador.

Aqui vocês tiveram a participação do Peixoto e Machado para uma ótima versão de “Ir al baile” (que virou “Ir pra balada”). Como surgiu essa parceria?
Parceria, amo esta palavra! O Machado eu já tinha conhecido vários anos atrás quando fui tocar com o Satélite Kingston em São Paulo. Ele tocava no Firebug naquela épica e dividimos alguns shows em vários lugares e eu sou bastante fã daquele primeiro disco, devo admitir. Depois de várias turnês e shows em conjunto, continuamos em contato com o Machado e ele me apresentou ao Peixoto e ao resto da banda. Deixei com eles um par de discos do Onda Vaga e logo depois eles me escreveram dizendo que tinham adorado. Por isso, na primeira oportunidade que tivemos de fazer algo juntos não tivemos dúvida e convidamos eles para cantar com a gente. Neste show (em 10/05//2011, no Studio SP) fizemos “Ir al baile” e uma versão de “Augusta, Angélica y Consolación”, de Tom Zé. Depois do show ficamos até às 5h da manhã no camarim cantando juntos e bebendo. Foi um grande momento da turnê. Há pouco tempo voltei a São Paulo para tocar com o Satélite Kingston e ainda estávamos dando risada de algumas histórias dessa noite!

A música do Onda Vaga nasceu acústica. Agora que vocês estão cada vez mais populares, começa a surgir a necessidade de eletrificar o som, já que estão tocando em ginásios e festivais (como o Zona Rock, que passou por Buenos Aires, Córdoba e Mendoza em agosto). Isso pode ser um problema para a concepção musical da banda?
Não, um problema não… Em algum ponto é uma solução, já que nos permite tocar para mais gente e em outro tipo de eventos. Claro que implica em um trabalho maior na hora de armar o equipamento de som, mas já estamos acostumados com a nova formação da banda. De qualquer modo, quando saímos de turnê pela Europa, continuamos tocando em uma formação reduzida, e sim, é um prazer. A desconexão e o contato cara a cara com o público são excelentes para um o clima e a concentração.

Para um brasileiro, que não conhece a base de inspiração de vocês, a música do Onda Vaga não soa folclórica. Soa moderna, vibrante – mas com um olhar discreto ao passado. É como se o folclore fosse uma referência mais afetiva que musical. Isso é a percepção de um estrangeiro ou é de fato o que a banda se propõe a fazer?
Em princípio não nos propusemos nada, foi algo que aconteceu desde a primeira vez em que fizemos nossos instrumentos soarem juntos. Não pretendemos fazer folclore nem rock, nem mesmo uma fusão entre os dois. Fazemos o que sai de nós, do jeito que sai. Mas com certeza nossa relação com o folclore é mais afetiva que musical. Por outro lado, o tom folclórico ao qual você se refere, acho que tem a ver com a instrumentação que usamos (para os que não sabem: cajón peruano, cuatro venezuelano, maracas, trumpetes, etc). Isso dá um tom folclórico ao assunto. Mas a composição é moderna e sem preconceitos.

“Fuerte y Caliente” e “Espirtu Salvaje” são discos bem diferentes. “Fuerte…” parece mais solto, mais jovem e sem pretensões, enquanto o último já tem ambições musicais mais amplas e estilos distintos, e também é menos veloz que o primeiro. Ou estou viajando?
Você tem razão, eles são muito diferentes. Fique tranquilo: você não está viajando. Acredito que a mudança surge de várias coisas das quais vínhamos falando, como a nova formação, um pouco maior e com mais recursos sonoros, mais instrumentos para arranjar as canções, etc. Acontece também que gravamos o primeiro disco sem pretensões, só porque queríamos. Naquela época tocávamos para poucas pessoas e não imaginávamos tudo que ia acontecer conosco. Para o segundo disco, nos pusemos a compor e acabamos fazendo um disco grande – e isso que muitas canções ficaram de fora. As composições são menos “jovens” e talvez mais ambiciosas musicalmente, mas foi uma escolha que fizemos com alegria. Debatemos: “temos a possibilidade de fazer o mesmo ou mudar… o que fazemos?”, e escolhemos o caminho desconhecido.

Como fazem para administrar tantos projetos paralelos na banda? Podemos dizer que o Onda Vaga é o principal para todos?
A maioria dos projetos paralelos existe desde antes do surgimento do Onda Vaga e somos bastantes companheiros entre nós mesmos e os músicos dos outros projetos para chegar a acordos, principalmente sobre agendas e coisas do tipo. E sim, atualmente Onda Vaga é o projeto que nos toma mais tempo, com o qual mais tocamos e com o que vemos algum dinheiro, de modo que tudo isso já o coloca em uma posição prioritária. Mas isso não quer dizer que não continuamos com o resto de nossos projetos que por sua vez nos dão entusiasmo para continuar com o Onda Vaga. A lista dos projetos paralelos seria: Nacho tem um trio que se llama Nacho Y Los Caracoles (sendo que “Los Caracoles” são Alvy Singer e Facundo Flores, baixista e percussionista que tocam com o Onda Vaga nos shows). Junto com o mesmo Alvy e com Rubin, ele tem outro trio, Los Campos Magnéticos, que toca canções do Magnetic Fields em castelhano. Marce tem um power trio de rock que se chama Tronco e toca com Ava, que é a técnica de som do Onda Vaga. Tomi e Marcos têm uma banda de música eletrônica chamada Michael Mike, que por sua vez, toca com uma orquestra de sintetizadores. Eu (Germán), além do Satelite Kingston, há pouco montei uma orquestra de mambos, chamada Flor de Mambo. Todos nós temos um projeto bastante estranho com nossos amigos que é o Festival AH BUE! e que basicamente é nos juntar para tocar canções de todos nós, algumas inéditas e outras não.

Em uma entrevista à Rolling Stone argentina, Tomi disse que as crescentes expectativas do público em relação ao Onda Vaga já começavam a gerar pressão sobre a banda, e isso poderia impactar na música. Agora que já se passou um ano dessa declaração, como vocês avaliam o impacto dessas expectativas?
Acho que Tomi deveria responder essa, mas acho que posso ajudá-lo. As expectativas do público sempre estão presentes, e fazem mais estrago quando você termina de gravar um disco e não sabe como vai ser a aceitação do público, ainda mais se o álbum novo é um disco diferente, como vínhamos falando então [Germán se refere a “Fuerte y Caliente”, lançado em 2010]. Creio que quando terminarmos de gravar o terceiro disco vamos sentir novamente o fantasma da expectativa, mas também nos tranquilizamos sabendo que qualquer coisa que façamos com entusiasmo vai ficar boa. Sempre vai ter aquele que gosta e aquele que não gosta, por isso pelo menos eu tento tomar com certa leveza o olhar do outro já que, depois de tudo, não é isso [o olhar alheio] que nos define.

Site Oficial: http://www.ondavaga.net/
Myspace: http://www.myspace.com/ondavaga
Facebook: http://www.facebook.com/ondavaga

Conexão Latina é uma série de textos e entrevistas sobre artistas selecionados por Leonardo Vinhas, que acredita que essas bandas além fronteira deveriam ser conhecidas na terra de João Cabral de Mello Neto, Laerte e Luciana Gimenez

4 thoughts on “Conexão Latina: Onda Vaga

  1. Belo texto sobre essa ótima banda. O show do Rio foi incrível. Vale muito a pena buscar os trabalhos paralelos também – além da Doris, banda q deu origem depois à Onda Vaga e ao Michael Mike.

    Buenísima iniciativa do Leonardo Vinhas com o Conexão Latina, trazendo ao leitor do Scream & Yell bandas bacanas dos vecinos de continente. Não são poucas.

    Tento ‘umirdemente’ fazer o mesmo há pouco mais de um ano com meu programinha de rock iberoamericano na webradio Microfonia chamado Camb¡o (http://radiomicrofonia.blogspot.com/). Jabazinho curto, de leve. heheh =P

    Abrazo!!

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