Wado lança “Samba 808” em São Paulo

Texto e fotos por Bruno Capelas

No mês de outubro, Wado lançou seu sexto disco, “Samba 808”, envolto por uma série de peculiaridades: o uso do TR-808, um dos primeiro sintetizadores fabricados na história; o fato de não ser lançado em formato físico (apenas download digital gratuito: baixe aqui); e, por fim, mas não menos importante, um número grande de participações especiais. Um amigo chegou até a brincar que o “Samba 808” era o “Superheavy” do indie brasileiro – das dez faixas que compõe o disco, apenas três não tem “visitantes”.

Soa mais que natural, portanto, que o show de lançamento do disco em São Paulo, no Sesc Belenzinho, contasse com o auxílio luxuoso de alguns desses convidados – no caso, Marcelo Camelo e Zeca Baleiro. O que poderia ser um tiro no pé – participações especiais podem facilmente roubar a cena em um show – acabou soando como se dois nomes já fortes da MPB dessem o seu aval a um quase iniciante (vale lembrar, Wado está na ativa há pelo menos uma década), em uma grande noite.

Logo na entrada do local do show no Sesc Belenzinho, uma impressão estranha sobre a plateia, que aparentava ter uma média de idade razoavelmente acima da comum em shows de artistas independentes. Alguns senhores, entre os 40 e os 60 anos, conversavam: “Esse Wado eu não sei quem é não”, disse uma mulher. Outra completou: “Vim mesmo é pra ver o Zeca Baleiro. Mas vocês querem ver as fotos do show de ontem do Roberto Carlos?”. Parecia o lugar errado, ou que, no mínimo, muita gente tinha ido ao show só para ver Baleiro e/ou Camelo.

Entretanto, a sensação de não pertencer àquele lugar foi por água abaixo logo que Wado entrou no palco. Em pouco menos de duas horas, o cantor fez entender porque é um dos grandes nomes do cenário independente brasileiro da atualidade, em um show que privilegiou as várias facetas de seu trabalho, capaz de agradar com suas baladas acachapantes tanto às senhorinhas fãs do Roberto quanto alguns – poucos – jovens que circulavam pelo local com seu balanço.

Wado fez, como de costume, uma viagem pelos ritmos brasileiros que pouca gente, hoje em dia, tem a manha de fazer sem se perder pelo caminho. Tomando como ponto de partida o afoxé de “Martelo de Ogum”, o compositor vai fazendo o ritmo crescer durante o show, passando pela batida empolgante de “Jejum/Cavaleiro de Aruanda”, com uma parada na lusofonidade de “Estrada”, que sampleia trechos de “Terra Sonâmbula”, romance do moçambicano Mia Couto. A sequência empolgante continuou no medley de sambas suingados “pra arrastar a sandália” de “Alguma Coisa Mais Pra Frente/Se Vacilar o Jacaré Abraça/Uma Raiz, Uma Flor”.

Daí pra frente foi impossível ficar parado, com o pancadão da “inédita, mas já gravada por Maria Alcina” “Não Pára” e sua letra sobre loucura, que desembocou na batida dançante de “Rap Guerra do Iraque” e “Teta” – o que será que as senhorinhas pensaram de “tá guardado pra você, amor / aceite / tá guardado pra você, amor / o leite”.

A presença dos convidados também deu um charme especial à noite. Zeca Baleiro subiu primeiro ao palco, lá pela quinta ou sexta música, para dividir os vocais com Wado em “Melhor” – bonita balada presente em “Terceiro Mundo Festivo” –, “Si Próprio”, que abre “Samba 808”, e “Era”, parceria dos dois registrada em “O Coração do Homem Bomba, vol.2”, mais recente álbum do maranhense. Marcelo Camelo apareceu depois, já na segunda metade da apresentação, recriando o dueto gravado em “Samba 808”, “Com a Ponta dos Dedos” – talvez a grande canção de amor de 2011 – e transformando a comedoria do Sesc Belenzinho em um bloco de carnaval com “Copacabana”, do repertório hermano.

Camelo e Baleiro voltaram juntos ao palco, no bis, para fazer “Fortalece Aí”, em uma interessante mistura: o timbre das vozes dos três cantores se diferenciava, criando um colorido muito bonito. Mas não acabou: o aviso de agradecimento do Sesc já havia soado e as luzes já haviam sido acesas, mas o público continuava ali de pé, irredutível, pedindo a volta dos músicos. Num raro momento de “subversão” – segundos bises não são usuais nos shows feitos pela rede Sesc – Wado, Camelo, Baleiro e a banda retornaram ao palco, atendendo a plateia com uma versão avassaladora de “Pavão Macaco”, despedaçando corações.

Em um show que parece ter atraído a maior parte do público apenas por suas participações especiais, Wado soube andar muito bem com as próprias pernas. Além disso, ao vivo e entremeadas às antigas, as canções de “Samba 808” atestam sua identidade como compositor – mesmo quando cantadas por outras vozes, elas se ligam ao cantor de maneira facilmente reconhecível. Com uma banda que toca o fino, em arranjos redondíssimos, Wado talvez esteja próximo de atingir o ponto mais alto de sua carreira – material para isso, ele tem de sobra, como “Samba 808”, show e disco, mostraram. Agora, mais do que antes, talvez não dependa dele, mas sim de… você. Fortalece aí.

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– Bruno Capelas é estudante de jornalismo e assina o blog Pergunte ao Pop

“Si Próprio” foi filmada por Bruno Capelas no primeiro show, 11/11, no Sesc Belenzinho. “Na Ponta dos Dedos” é registro de Marcelo Costa do segundo show, 12/11, no mesmo local.

Leia também:
– “Samba 808″, uma carta “aos amigos, compositores, jornalistas e ouvintes”, por Wado (aqui)
– Wado e Marcelo Camelo tocam “Na Ponta dos Dedos”, “Copacabana” e “Pavão Macaco” (aqui)
– Wado em um bate papo honesto sobre seu quinto disco, “Atlântico Negro”, por Mac (aqui)

10 thoughts on “Wado lança “Samba 808” em São Paulo

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