O último suspiro do Screaming Trees

por Adriano Costa

Na estrada desde 1985, o Screaming Trees foi uma daquelas bandas adicionadas ao movimento grunge quando o Nirvana explodiu – mesmo sem ser de Seattle (são de Ellensburg, cidade próxima). Essa surfada na onda do grunge, analisando hoje, trouxe muito mais prejuízos do que benefícios para o grupo dos gorduchos irmãos Conner. Mesmo considerando o relativo sucesso que o Screaming Trees fez com seu sexto disco, “Sweet Oblivion”, de 1992, a banda acabou sendo muito injustiçada.

No começo dos anos 90, o quarteto lançou uma tríade excelente de álbuns, quando trocou o pequeno selo independente SST pela major Epic: o quase psicodélico “Uncle Anesthesia” (1991), “Sweet Oblivion” (de 1992 com o hit “Nearly Lost You”, que fez parte da trilha sonora do filme grunge “Singles”, de Cameron Crowe, e vendeu 300 mil cópias) e o subestimado “Dust” (1996), um álbum de parto complicado (a banda precisou regravar o disco inteiro após a primeira versão ser rejeitada pela gravadora), mas repleto de virtudes, que foi esnobado por público e grande parte da crítica.

O sucesso, embalado pelo grunge, flagrou o grupo em sua melhor formação: na bateria tinha Barrett Martin (que assumiu o banquinho em “Sweet Oblivion” – até então, Mark Pickerel segurava as baquetas – e tocou com R.E.M. e Nando Reis depois), na guitarra e baixo os irmãos Conner (Gary Lee Conner e Van Conner respectivamente) nutriam as músicas de peso setentista, com harmonias e distorções, e no vocal o sempre (e ainda) excelente Mark Lanegan.

A banda se separou em 2000 depois de se reunir em 1998 e 1999 no estúdio de Stone Gossard (Pearl Jam) para gravar o sucessor de “Dust”. Com a participação luxuosa de Josh Homme (Queens Of The Stone Age), que na época viajava como segundo guitarrista da banda, e também de Peter Buck (R.E.M), foram gravadas faixas que apesar de se espalharem pela internet nos anos seguintes, nunca receberam um registro oficial. “Last Words: The Final Recordings” vem acabar com isso.

Barrett Martin é o responsável por colocar essas gravações no mercado e convocou Jack Endino para remasterizar tudo. São 10 faixas, algumas delas conhecidas anteriormente pelos fãs, e algumas novidades, que recebem agora uma roupagem digna. O som do Screaming Trees é tão característico que nos primeiros 30 segundos de “Ash Gray Sunday” já dá para reconhecer o grupo. Quando o vocal de Mark Lanegan entra, a sonoridade fica ainda mais costumeira. E essa sensação se espalha por todo o restante do álbum.

“Last Words: The Final Recordings” é a merecida despedida que nunca veio. É um disco que não suja a discografia do quarteto e que se fosse lançado na época serviria plenamente como o último suspiro de vida. Tudo que o Screaming Trees tinha de melhor está aqui, mesmo que em um nível de excelência bem menor. Da cozinha densa e cheia de influências dos anos 70, até as melodias fortes despejadas para fora com raiva, doçura e sofrimento por Mark Lanegan – como em “Black Rose Way” e “Low Life”.

Algumas faixas podem facilmente ser incluídas futuramente em uma lista de melhores, como a balada “Reflections”, com o acréscimo classudo de Peter Buck no violão, ou o rock viajandão de “Door Into Summer”. “Last Words: The Final Recordings”, muito provavelmente não terá nenhuma relevância no cenário atual da música, mas representa uma bonita (e tardia) despedida para uma banda com momentos vigorosos na carreira. Indicado para quem gosta de boas canções e nada mais.

– Texto: Adriano Mello Costa (siga @coisapop) assina o blog Coisa Pop

8 thoughts on “O último suspiro do Screaming Trees

  1. Screaming Trees realmente foi uma grande banda, admiro também a carreira solo do Mark Lanegan que ainda colabou e muito com o Queens Of The Stone Age.

  2. Grande disco! E olha que o registro é quase uma demo, não há grande produção nessa gravação. Mas as músicas são muito boas. Dos melhores do ano.

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