Yuck: Geração X ou Geração Y?

por Bruno Capelas

Um dos mais famosos “mitos” a respeito do rock’n roll é que, a cada década, sons de 20 anos antes são revisitados a todo o momento: talvez isso tenha começado nos anos 80 brincando com o arsenal lisérgico dos anos 60 (quem aí se lembra do Echo & The Bunnymen coverizando “People Are Strange”, do Doors, e “All You Need is Love”, dos garotos de Liverpool?).

Essa ideia de revisitação ficou evidente no grandioso revival que os anos 80 sofreram na década passada, onde quase todas as bandas que se prezavam e mais algumas que nem tanto chupinhavam sem dó riffs e frases musicais de New Order, Gang of Four, Joy Division, Smiths e companhia limitada. A “viagem no tempo de 20 anos” continua presente nos anos 2010. O álbum de estreia dos londrinos do Yuck, autointitulado, é uma perfeita jornada por muitos dos moldes do rock alternativo dos anos 90.

Entretanto, ao contrário do que se pode supor, a obra dos londrinos (Daniel Blumberg e Max Bloom, guitarra e vocais; Ilana Blumberg, vocais; Mariko Doi, baixo; e Jonny Rogolft, bateria) é muito mais uma imersão no universo musical da década final do século XX do que exatamente um punhado de citações perdidas por aí. (Nota enciclopédica: a geração dos anos 90 é popularmente conhecida como Geração X, em homenagem ao livro homônimo de Douglas Coupland, de 1991). Uma das provas disso é que, apesar de determinadas melodias terem a cara de um cantor ou artista em especial, as guitarras sujas lembram a de outro, o vocal de um terceiro e o arranjo um quarto: não se trata de simples colagem. Mas, se for pra citar semelhanças, vamos logo a elas:

“Sunday” é uma balada powerpop com tons agridoces de saudade (“Cold winter months, and I’m thinking of you/How you’re not with me?”) lembrando os discos com menos distorção do Teenage Fanclub ou ainda o Lemonheads de Evan Dando. Já “Suicide Policeman” vai buscar na figura do saudoso Elliott Smith inspiração para a história de alguém que tenta a todo custo evitar o suicídio de um amigo. Com os bonitos vocais de Ilana Blumberg, “Georgia” soa como a “noisificação” do Belle & Sebastian, ou ainda um tributo ao Ride (vale comparar o riff inicial da canção do Yuck com o de “Twisterella”).

A faixa final do disco, “Rubber”, é, por sua vez, uma homenagem aos longos e etéreos solos de guitarra de Ira Kaplan nos discos do Yo La Tengo. Durante todo o álbum, aparece com constância a influência de outros guitar-heros dos anos 90, sobretudo a de J. Mascis. Em uma canção como “Get Away”, por exemplo, é possível sentir sua vibração por toda a música, que também é marcada por uma condução que remete ao Smashing Pumpkins. Porém, nenhuma música do disco é melhor para ser comentada a respeito de suas guitarras que “Operation”: nela, parece que Bloom e Blumberg duelam com suas guitarras em fraseados ganchudíssimos (é quase inevitável brincar de air guitar enquanto se escuta a canção).

O site urbandictionary.com, referência no uso de gírias em inglês, registra diversos significados para a palavra “yuck”, a maioria deles com acepções como “coisa sem importância”, “uma substituição educada para a palavra fuck”, “algo grosseiro, irritante ou nojento”, “um termo para algo não popular e feio”. É claro que é cedo para se fazer quaisquer previsões a respeito do futuro da banda, ou algo parecido. Mas, com esse disco de estreia, a banda inglesa chuta para longe todos os significados pejorativos do termo “yuck”, faz belas canções, entra na briga pelo troféu de “melhor disco do ano” (mas já?) e, de quebra, coloca os anos 90 na ordem do dia. Não é pouca coisa.

– Bruno Capelas é estudante de jornalismo e assina o blog Pergunte ao Pop

Leia também:
– 1991: Teenage Fanclub, My Bloody Valentine e Primal Scream, por Marco Antonio Bart (aqui)

13 thoughts on “Yuck: Geração X ou Geração Y?

  1. achei o texto um pouco incompleto em relação às influencias de outras bandas na música do Yuck, e a mais interessante delas seria comentar sobre Pelvs, banda brasileira dos anos 90.

  2. Ei Bruno, você esqueceu de citar como influência dos caras o Pavement… Agora, disco do ano? Calma lá, apesar do álbum ter seus méritos (“Get Away” e “Holing Out” são foda!), ainda falta muita coisa acontecer, sem falar que Foo Fighters, Decemberists, Fleet Foxes e Mogwai também estão na briga.

  3. Diógenes, tem muita gente boa na briga desse ano mesmo, assumo, mas acho que o Yuck não faz feio perto do pessoal que tá na luta – fazia tempo que eu não ouvia uma estreia tão bacana.

    E sim, faltou mesmo acrescentar Sonic Youth e Pavement – me passou muito batido na hora de escrever!

  4. O Yuck tem aquele clima lindo saudosista da década de 90,cujas músicas poderiam perfeitamente se encaixarem no final de um episódio de Dawson’s Creek…Magnífico!
    Por enquanto,tá no páreo pra concorrer a disco do ano sim;Acho que quanto à estréias,consegue bater o tão hypado(e tão bom) Vaccines.Agora fica a concorrência com o Blood Pressures,do The Kills e o Raven in the Grave do The Raveonettes,isso sem contar com o novo do The Boxer Rebellion,o da Nicole Atkins,o do Cut Copy e o debut do Holy Ghost!…

  5. Acho que me tornei um cara chato…
    nao vejo muita graça no yuck, vaccines, na verdade acho tudo isso meio que um saco…
    prefiro re-descobrir sonic youth, yo la tengo ou pavement…

  6. Menos, menos, tem gente fazendo um puta som anos 90 ao um bom tempo ae já ( Lê Almeida) mais ae só aparecer uma bandinha americana para a impressa de “música alternativa” sair babando como se fossem inovadores e os legais tsc tsc tsc … fico indignado como não aparece ninguem para elogiar um cara igual o Lê Almeida( canta em português não presta) …

  7. Ouvi o disco todo…
    Amei de cabo a rabo. Porque?

    1 – Me lembra de Teenage Fanclub, Pavement, Smashing Pumpkins, enfim, anos 90, quando uma banda era identificada pelo som e pelas influencias e nao pela estética (seja lá o que isso significar nos dias de hoje).

    2 – Refrões. Belos refrões. Bubblegum sem cair em pop fácil e mediocre. Ouço Get Away e fico esperando chegar o refrão. Não que os versos nao sejam bons,alias, eles abrem caminho a uma parede de som e distorção, encontrando fácil o conjunto perfeito na audição que culmina no refrão excelente…

    To apaixonado…desde o Bandwagonesque não me sentia assim.

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