Uma Solidão Ruidosa, Bohumil Hrabal

por Jonas Lopes

A expansão do mercado editorial para traduções em língua menos comuns e mesmo o espaço para a divulgação de escritores pouco conhecidos de idiomas tradicionais não para de render bons frutos aos leitores brasileiros, ainda que em ritmo de conta-gotas. Entre os autores dessas duas vertentes editados no país nesta última década, sobretudo da Europa Central e do leste do continente, e que praticam a escrita em algum momento do século passado, estão o polonês Witold Gombrowicz, o austríaco Joseph Roth, os húngaros Gyula Krúdy, Sándor Márai e Imre Kertész, o checo Karel Čapek, os russos Nikolai Leskov e Leonid Tsípkin e o alemão Ernst Jünger – incompreensivelmente, o suíço Robert Walser, o polonês Bruno Schulz e o austríaco Hermann Broch andam esquecidos; alguns, como o húngaro Péter Nádas, ainda aguardam a primeira chance. Outro nome favorecido por esse movimento positivo é o checo  Bohumil Hrabal (1914-1997). Depois de publicar por aqui o romance “Eu Servi o Rei da Inglaterra”, a Companhia das Letras lançou há pouco tempo a primorosa novela “Uma Solidão Ruidosa”, datada de 1976.

Hrabal povoa suas obras com figuras que podemos considerar variações cômicas das criações de Robert Walser. Ou seja, protagonistas nascidos para perder e fracassar, que de certa forma têm orgulho disso. Só que enquanto Walser manipula os sentimentos dos personagens com o intuito de torná-los misantrópicos e pouco sociáveis, Hrabal aposta na falta de senso de ridículo. O que o suíço tem de ironia blasé (e humor, sim, mas bem peculiar), o checo tem de gargalhada franca e picaresca. O herói de Uma solidão ruidosa é Hant’a. Há mais de três décadas ele, a serviço do regime comunista, compacta papel em uma prensa jurássica num porão – livros proibidos e considerados subversivos pelo governo. Só que nem tudo é jogado na máquina; Hant’a guarda consigo uma parte dos livros para ler enquanto entorna litros de cerveja. Assim, converte-se em uma mente iluminada para as humanidades, um admirador de Kant, Goethe (“aquele prolongamento da Grécia antiga”), Sócrates, Nietzsche, Novalis e, em especial, Sêneca, além de admirar reproduções de mestres da pintura – Rembrandt, Brueghel, Van Gogh.

Ao mesmo tempo em que alimenta essa erudição ébria, sua “solidão densamente povoada”, Hant’a, versão idiota do homem sem qualidades de Musil, traça uma cronologia mental da trajetória humana, erros e acertos, festejos e guerras. Bebe cerveja e antevê o futuro trancado com os ratos num porão imundo enquanto tenta se ilustrar e cumprir algum papel na história: “tudo o que vejo neste mundo se move para trás e para a frente ao mesmo tempo, como um fole de ferreiro (…) é isso que faz o mundo girar”. O hilário compactador arremessa papéis e livros na prensa e, com isso, elimina fatos históricos, ou, ao decidir salvar este ou aquele documento, transforma ficções em fatos e vice-versa. Pois quem deveria manejar o rumo dos acontecimentos deveria ser o indivíduo, parece gritar Hant’a, oprimido pela ditadura socialista (todo regime totalitário começa eliminando qualquer sinal intelectual, de pensamento e lucidez) e seu afã coletivista. Hrabal emoldura os lamentos nada lacrimosos e os disparos desencantados do narrador em frases quilométricas (Milan Kundera chegou a definir sua imaginação como barroca; o mesmo vale para a prosa, de corpo arcaico e alma modernista), como se cada fôlego tomado, cada sentença encadeada, cada fluxo de consciência perpetrado, fosse uma nova imprecação, um drible desconcertante no horror e na censura.

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Jonas Lopes é jornalista e assina o blog Gymnopedies

Muro Habrau, em Praga, no bairro em que o escritor passou toda sua vida na República Tcheca

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