CD: Revanche, Fresno

por Bruno Capelas

Não é segredo pra ninguém que nos últimos dez anos – pra não dizer quinze ou vinte – a Internet mudou a maneira como a música é produzida. Mais do que isso, a web se tornou um grande ambiente de divulgação para muitos artistas. Entretanto, se avaliarmos com atenção, conquistar o sucesso entre os internautas é apenas conquistar um determinado nicho, composto geralmente por jovens de classe média. O “tão-falado-e-sonhado” sucesso de público, com crianças e velhinhos de todas as cores, credos e salários cantando pelas ruas os refrões de uma banda, é um passo – longo – que vai um pouco além dos arquivos mp3 e das rádios especializadas. O Fresno, talvez o melhor exemplo brasileiro que soube aproveitar o espaço virtual para trazer os holofotes para si mesmo, agora procura superar esse novo desafio – e também o preconceito de muitos ouvintes – em seu novo disco, “Revanche”.

Antes de tudo, cabe explicar ao leitor a superlativa frase do parágrafo acima contando a história da banda gaúcha. Formado em 1999, em Porto Alegre, por Lucas Silveira (vocal e guitarra), Gustavo Mantovani (guitarra), Rodrigo Tavares (baixo) e Bell Ruschell (bateria), o conjunto lançou três discos independentes – hoje raros, sendo que alguns chegam a custar ridículos R$150 em sebos especializados – que juntos venderam 20 mil cópias apenas no boca a boca do público via internet, utilizando-se de sites como o TramaVirtual, o fotolog.com e até mesmo o orkut. Em 2008, após assinar com o selo Arsenal, do “produtor musical” Rick Bonadio, procuraram de alguma maneira flertar com o pop – mas sem grandes resultados – no disco “Redenção”. O que aconteceu foi na verdade que eles se tornaram quase unanimidade para o público alvo que já tinham conquistado, sendo um dos grandes baluartes do que se convencionou chamar de emo – um estilo que tem muitos fãs ardorosos, mas também tem detratores convictos na mesma proporção.

Talvez o maior obstáculo que o Fresno tenha que superar nessa nova batalha a fim de conquistar o mundo, desde o seu irmão de 5 anos, até o seu avô, passando pela sua empregada e pelo seu colega de trabalho com síndrome de underground, é o preconceito. É bem possível que ao ler o nome “Fresno” no primeiro parágrafo, você tenha feito uma cara feia e pensado: “vou ler só pra poder discordar do que o cara vai falar”. Queira ou não queira, eles ainda são os mesmos caras responsáveis por pérolas do movimento chorão – como “Cada poça dessa rua tem um pouco das minhas lágrimas” e “Cantando, e mais do que isso gritando, e às vezes até confessando que eu não sei amar” – e ficaram estigmatizados por isso. E não dá pra negar que uma das grandes forças – ou defeitos, dependendo do ouvinte – do Fresno são as narrativas confessionais de Lucas Silveira, alguém que parece que já sentiu na pele as palavras que canta. Mas é uma faca de dois gumes, porque o que ao mesmo tempo pode servir de fator de identificação pode soar brega, forçado ou simplesmente uma versão com guitarras do chororô das músicas sertanejas dos anos 90.

Em “Revanche”, esse estilo de poesia está inegavelmente presente, porque ele faz parte do DNA fresniano – e é claro que isso pode afastar quem se arrisca a ouvir a banda pela primeira vez. Mas uma mudança sensível, e que pode melhorar esse aspecto da banda, é que, em uma mesma canção ele pode vir impregnado também de um lado vingativo. É o caso de “Die Lüge” (“a mentira”, em alemão), que se inicia com algo do calibre de “Te dei meu sangue pra você pintar a parede da sala de estar” e chega ao refrão com sangue nos olhos: “Que cara você vai fazer quando a sua casa desabar?”; ou da faixa-título, onde Lucas canta com voz vigorosa: “Não estou morto, apenas fui ferido/Quero viver muito mais/Além do que você programou”. Ainda vale comentar a maior presença de baladas que cantam amores felizes, uma evolução para artistas que são acusados de serem “suicidas de butique”. “Nesse Lugar”, que é o exemplo mais bem acabado dessa idéia, é uma música que não tem vergonha de dizer algo como “Nesse lugar o que eu mais quero é ficar pra sempre aqui com você”.

No aspecto da música – e não só da temática – o preconceito também pode atrapalhar, ou melhor, ainda, assustar. Para alguém não acostumado com o universo do rock, os primeiros trabalhos da banda podem soar “barulhentos” ou “sujos” demais, afugentando o ouvinte em potencial que pode até se identificar com o que as letras da banda querem dizer, mas é incapaz de suportar guitarras em alto volume. E reduz o potencial radiofônico das músicas ali presentes – um hardcore à moda da Califórnia poderia tocar numa rádio jovem, como a 89 FM, mas dificilmente ultrapassaria a fronteira para a Tupi FM ou para a Eldorado. “Revanche” é muito bem resolvido nesse aspecto, por dois fatores: o primeiro é a produção redonda de Rick Bonadio, capaz de limpar arestas das faixas mais barulhentas – brincando muitas vezes com sintetizadores, à moda do rock-anos-00 – e deixá-las palatáveis, sem a sujeira característica do rock independente. O segundo – e o mais importante – é a evolução musical do conjunto, por terem iniciado a produção de baladas capazes de fazer um estádio – veja bem, um estádio – inteiro cantar junto com os celulares e os isqueiros acesos. É o que facilmente pode acontecer na bonita “Canção da Noite (Todo Mundo Precisa de Alguém)” – cujo apelido antes das gravações era “Radio Ga Ga”, tal a influência de Queen nela – ou na condução que lembra Smashing Pumpkins de “Porto Alegre”. Ou ainda na nostálgica “Quando Crescer” e na melancólica “Não Leve a Mal”. De certa maneira, são hits prontos para conquistar as paradas do Brasil inteiro – e não apenas nos grandes centros urbanos, como é o caso de hoje em dia.

Claro que eles não são a oitava maravilha do mundo – estão longe disso, pra falar a verdade. A banda ainda tem suas limitações: embora o disco seja muito bem tocado e produzido, falta um pouco de originalidade quanto a certas progressões de acordes, e até mesmo um pouco de apelação nesse uso, como o clássico começo de música com piano-e-voz esperando a explosão da bateria no refrão; as letras melhoraram muito do começo da banda para cá, são interessantes e bonitas, mas ainda falta bastante para eles chegarem a um nível que seria considerado como genial ou algo do tipo. A música de hoje ainda não chegou a um patamar no qual uma frase como “Eu vasculho as caixas do meu tempo tentando achar um dia a mais pra viver com você” pode ser aceita como obra-prima. É, pelo sim, pelo não, mais uma receita de como agradar o público adolescente. Citando uma frase clássica do filme “Quase Famosos”, é “um olhar crítico sobre uma banda mediana na dura caminhada para o estrelato” – o que não é demérito nenhum, diga-se de passagem.

A grande força de “Revanche”, mais do que as mudanças nas letras ou nas melodias, é mostrar uma banda que não teve vergonha de arriscar um pouco, nem preguiça de tentar evoluir, enquanto poderia ficar na manutenção do som e do estilo de vida. É possível que o que foi feito aqui seja suficiente para lotar estádios no país inteiro e “ultrapassar a barreira das AM, FM e dos elevador (sic)” porque não é um trabalho ruim, é honesto e competente. Mas, para quem deseja estar no panteão pop, no fictício “Grande Livro da História do Rock”, ainda se trata de uma longa jornada. O que fica para os próximos capítulos é se o Fresno vai ter realmente forças para caminhar tudo isso ou se Revanche é apenas um pequeno passo dado nessa direção.

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Bruno Capelas é estudante de jornalismo e escreve para o blog coletivo Pop To The People

34 thoughts on “CD: Revanche, Fresno

  1. o grande lance de Revanche é a influência de Muse sobre boa parte das músicas novas. influência essa que chega a irritar em alguns momentos, onde a coisa sobe pra cabeça e Lucas e sua turma pensam ser Matt e a turma dele.
    no mais, gostei do disco. acho que 5 músicas bem boas e mais umas 3 ok num disco de 13 músicas é um saldo bastante positivo para a banda autora da pior frase da música brasileira de todos os tempos, passados e futuros, como a citada “Cada poça dessa rua tem um pouco das minhas lágrimas”.

  2. Só dos caras mostrarem que podem mais do que as bandas que são colocadas no mesmo “pacote” deles (Nx Zero e cia), já é um bom sinal. O disco é bom, mas além disso é um sopro de esperança, ainda que um pouco tímido, para o pop rock nacional. “Revanche”, “Deixa o Tempo”, “Die Lüge” e “Canção da Noite” são bem boas.

  3. Eu realmente olhava pro Fresno com certo preconceito, assim como sempre torci o nariz pro NXZero, torcia pra eles… mas depois de ler umas críticas (como essa), acho que vale a pena prestar mais atenção.
    Não vai sair nenhum novo Legião Urbana daqui, mas pelo menos algo melhor que Restart, Cine, NXZero, e essas merdas tudo junto huahuahuah

    ta brincadeira, vou ouvir o disco dos rapazes o/

  4. O português Tiago Bettencourt acaba de lançar um disco fantástico – ‘Em fuga’. Arranjos criativos, muito bem trabalhados, e letras cheias de poesia (de verdade, diferente do que bandas brasileiras como a Fresno tem feito). Pena que poucos brasileiros o conheçam.

  5. Muito melhor que este disco da Fresno é o solo do vocalista, o “The Rise and Fall of Beeshop”, que fez com que eu perdesse grande parte dos preconceitos em relação à banda, e acreditar que eles ainda farão um grande disco.

  6. Fresno? Rick Bonadio? Credo!

    Bom, melhor do que o Cine qualquer um é, até o Capital Inicial
    O Fresno é um sopro de esperança para o rock nacional ??? Pobre de nós !
    Bom mesmo é Apanhador Só, Charme Chulo , Pullovers e Superguidis !

  7. Nunca achei que em comentários sobre um disco do fresno acharia recomendação de música boa. Obrigado aí, Di Fernandes, discaço mesmo esse do Tiago Bettencourt!

  8. Não sei, mas acho que não vale a pena usar o espaço do Scream and Yell pra falar de Fresno. É uma banda que já aparece em tudo quanto é mídia, desde Capricho até Raul Gil. Pra que divulgar mais aqui, num site que fala muitas vezes de coisas boas que não encontram o espaço que mereciam? É o mesmo que aconteceu com a Rolling Stone que trouxe a Ivete Sangalo na capa. Pô, a mulher já aparece em tudo quanto é lugar, e uma revista que se dirige a um público com um interesse musical mais, digamos, apurado, vem e faz uma bobagem dessas?

  9. Não gosto do estilo dessa banda. É o Clichê do Clichê!
    Mas acredito que o slogan desse site é “Cultura Pop”. Infelizmente, essa tal “Cultura” Pop de hoje já não é tão sensata quanto a de antigamente, e o lixo fica muito mais exposto…
    Sim, estamos em 2010 e é essa a dura realidade.
    Então, se não estamos satisfeitos com a Cultura Pop, ou faça dela algo mais refinado, ou procure um site que agrade o seu gosto musical.
    Cultura Pop (infelizmente) (também) é isso!

  10. Eu achei a critica bastante coerente, diferente de alguns comentarios.
    Em momento algum se pediu pra ouvir a fresno,nem comprar o cd, informa-se ao publico o amadurecimento do grupo, com muita ou pouca influencia do muse,sei lá.
    Eu sou uma grande fã do trabalho deles, e acompanho a alguns anos.
    e no final o que deve contar é respeito, que é o ta faltando com a banda.
    só comparações com bandasquenem existiam quando o fresno já fazia o seu som por ai.
    se não sabem opnar delicadamente ou pelo menos respeitosamente um comentario feito fiquem sem falar nada!!!!!!!!!

  11. Qualquer um pode opinar. Seja pra elogiar ou achar uma merda a resenha. Qualquer um pode achar legal ou não o screamyell dar espaço pro fresno ou pra quem seja: é a liberdade do site vincular o que julga pertinente ou não, e é a liberdade do leitor concordar ou discordar. Faz parte do mundo discordar, é saudável. Eu, particularmente, acho uma piada o fresno, como 90% dessas bandas de cabelos, tatuagens, franjas e choromingos pós adolescente filho-de-papai. Afinal, não sou nehuma guria histérica de 14 anosKKKKKKKKK

  12. Antes que me atirem pedras, o que eu quis dizer com “sopro de esperança”, no comentário acima, é em relação ao mainstream. Não estou comparando o Fresno com bandas como Apanhador Só, Charme Chulo, Superguidis e outras que citaram aí em cima, não sou tão louco assim. Ou alguém aí sabe de alguma banda de pop rock mainstream, relativamente atual, que valha a pena?

  13. Bom, a banda é mesmo difícil de engolir, os caras são dramáticos e bregas pacas, realmente é o sertanojo com tatuagens. Agora sobre escrever no scream yell sobre eles, realmente faz parte da cultura pop nacional e tem mais é que escrever sim, mesmo que o autor tenha certa vergonha em admirar o fresno. Além do mais isso traz mais visibilidade ao site, e afinal tem até um link ali com o portal da MTV né… Obviamente existem bandas muito melhores no Brasil, mas se tratando de ser “economicamente viável”, poucas bandas tem o pontencial do Fresno. Só penso que ficar rico e ter respeito é para poucos, não basta saber abaixar as calças…

  14. CD de dor de corno bom é o do OTTO…..

    Isto é pra morrer, 6 minutos, lembranças, de um quarto de hotel…

    Enquanto eu te chamava, você F0d1A….de noite, de dia.

    O resto, é EMO!

  15. “alguém aí sabe de alguma banda de pop rock mainstream, relativamente atual, que valha a pena?”

    na minha opinião, a banda de pop rock mainstream q valha a pena leva o nome de sua vocalista : PITTY e sua excelente banda……………..

  16. tem mais é que ter preconceito com quem fez emo antes e agora quer “amadurecer”
    esses caras já são velhos o suficiente pra saber o que é bom e o que não é.

    muito fácil começar fazendo merda, e depois de ganhar reconhecimento passar para algo mais elaborado. é como o bill kicks falavam. se um artista fez comercial, já está fora da área artistica pra sempre… e o mesmo serve pra essas porras ai.

    quem nem o tico santa cruz, que começou com a porra do detonautas fazendo merdinha, pq queria a notoriedade, e depois passou para o trabalho mais “sério”.

    é quem nem um nerd no colégio, que por nao conseguir pegar mulher vai virar viado.
    tenho mais é preconceito mesmo com esses tipos de “artistas”

  17. Acho que as pessoas deveriam parar de ter um ego tão grande, e criticar menos. Tem gente que se acha super intelectual só porque ouve determinado tipo de música, e fecha os olhos para bandas com Fresno. Os primeiros cds eram realmente melosos demais (apesar das letras sinceras e verdadeira), mas em Redenção eles se superaram, e fizeram letras e melodias ainda mais maduras. Os caras são bons, bons mesmo, e salvam a música atual, que tá cheia de merda colorida.

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