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por Marcelo Costa
Londres, anos 60. Jenny tem 16 anos, estuda em um reformatório e é apaixonada por arte, música francesa e cigarros, mas sua rotina em casa é totalmente diferente daquilo que ela sonha e gosta. Ela precisa estudar muito para conseguir entrar em Oxford, plano traçado milimetricamente pelo pai, que não dá sossego para a menina. Então surge um cara boa pinta, muito mais velho e malandro, que tira a princesinha do caminho.
Segura de si, agora que encontrou o amor e descobriu a vida, Jenny distribui sabedorias para professores, compra presentes para as amigas e passa a perna na família para viver um conto de fada com seu eleito, mas eu, você e Lynn Barber sabemos que contos de fada não existem, então derrame-se obviedades e lições de moral para adolescentes. Clichê e óbvio, “Educação” (”An Education”) é uma grande decepção.
O filme britânico da temporada tinha tudo para dar certo. Lone Scherfig, a diretora, já havia mostrado dom para a coisa no ótimo “Italiano para Principiantes” (2000). A jovem Carey Mulligan arrebatou indicações (merecidas) em diversas premiações, inclusive no Oscar, por sua atuação como Jenny. As atuações secundárias são boas (Peter Sarsgaard e Alfred Molina se destacam), mas nada salva o filme de seu roteiro moralista.
Adaptado do livro de memórias da jornalista Lynn Barber, “Educação” abusa do direito de ser óbvio. Cada cena que surge faz o espectador desenhar a próxima, pois nada no filme é novo. Jenny é inocente e sonhadora. David é esperto e malandro. As cartas estão na mesa. O moralismo impera. É possível ouvir anjinhos soprarem os ouvidos: “Não engane seus pais. Não desista dos seus sonhos. Você não sabe nada da vida…”. Zzzzzzzzzzzzzzz
Nick Hornby é um ótimo frasista, e colabora para o filme com boas tiradas, mas seu roteiro é correto demais (indicação ao Oscar não significa qualidade). Era de esperar. Hornby adora finais felizes, vide “Alta Fidelidade”, “Um Grande Garoto” e até “Uma Grande Queda”, cujo ponto de partida é o encontro de seis suicidas no alto de um prédio na noite de réveillon. Mesmo ali, Hornby mostra que no fim tudo acaba bem.
Em seus livros, o escritor britânico consegue criar um universo cínico que justifica a felicidade aparente (ou você acredita realmente que Rob Fleming nunca mais vai pisar na bola com Laura?), e esse cinismo faz falta em “Educação”. O roteiro cria situações à procura de soluções, e das que se apresentam escolhe a mais óbvia. Alguém pode dizer: “Aconteceu assim. É uma biografia”, mas qual a graça da vida quando ela imita a vida?
“Educação” foi feito para encantar adolescentes assim como Jenny ficou encantada com David – numa falsa premissa de qualidade de ambos. O roteiro retrata bem esta fase em que o jovem não é dono do seu nariz, apronta pelas costas dos pais e sonha em conquistar o mundo – e tropeça, e levanta, mas, no fim, a história de Lynn Barber moraliza a juventude como mãe contando causos para o filho: ele vai rir, chorar e terminar o relato cheio de lições de moral para a vida. Pra que cinema, né mesmo.

Leia também:
- O intimismo e a simplicidade de “Italiano para Principiantes”, por Marcelo Costa (aqui)
- “Como Ser Legal” é literatura simples que faz pensar, por Marcelo Costa (aqui)
Março 5th, 2010 at 8:08 pm
A única coisa que não deixa Educação tão ridicularmente ruim, é a beleza e o carisma de Carey Mulligan. A menina é linda.
De resto, pode jogar no lixo. É uma decepção esse filme que não entendo o sucesso que fez com a crítica britânica, nem as indicações que arrebanhou.
Março 5th, 2010 at 8:55 pm
putz…. tava tão a fim de ver… : > ((
Março 6th, 2010 at 2:15 am
Então, eu concordo que o roteiro decai um pouco, principalmente no seu terceiro ato. Mas achei “Educação” um ótimo filme sobre rito de passagem e autodescoberta. Carey Mulligan está radiante na sua interpretação, e Saarsgard e Molina também merecem reconhecimento pelas atuações pontuais. Scherfig não compromete, faz um bom trabalho. No entanto, o sempre competente Nick Hornby força um pouco no final do filme. Mas, fora isso, achei uma grata surpresa, diálogos e situações bem colocadas, proferidas por uma protagonista carismática e apaixonante. Gostei muito.
abs!
Março 6th, 2010 at 8:50 am
Gostei muito do filme. Toda a crítica nacional fica batendo nessa tecla de que o filme é moralista ou que propaga ideias erradas. É uma visão anacrônica, que avalia um tempo específico com a visão de hoje. Não vou ao cinema em busca de mensagens boas ou ruins. Como filme Educação conseguiu me transportar para a história e entrar na cabeça dos personagens. O que falta hoje em dia é capacidade de entender visões diferentes das nossas.
Março 6th, 2010 at 11:39 am
“O que falta hoje em dia é capacidade de entender visões diferentes das nossas.”
Entender não quer dizer concordar, Rogério. Vi o filme ontem e não li outras críticas, mas senti o mesmo que o Marcelo sentiu. O filme é moralista e pode criar um exército de Jennys, podar a vontade de voar de muito jovem, com medo que aconteça o mesmo mostrado na tela. Acho só que o Marcelo pegou pesado demais, pois o filme tem grandes atuações e uma trilha sonora linda, mas concordo que o conjunto da obra é irregular.
Março 6th, 2010 at 3:39 pm
Alan, eu não concordo com a visão do filme, o que não me impediu de gostar dele. O que eu sinto hoje é uma incapacidade de se avaliar obras de arte deixando de lado aquilo que acreditamos. Você acredita que um filme como Educação será capaz de mudar a cabeça das adolescentes de hoje? Comparo um pouco o Educação com o Na Praia, do Ian McEwan, que aborda o mesmo período. Vejo o filme mais como uma análise de um período do que um libelo para moralizar as jovens de hoje. E cá pra nós, há inúmeras maneiras de “voar”. Creio que o filme é muito mais inteligente do que as pessoas supõem. Mas é a minha opinião, respeito as demais. Só achei interessante esse moralismo brasileiro às avessas. Não percebendo que muito do discurso aventureiro não passa de ilusão - vale lembrar que boa parte das (e dos) anti-Jennys depois se toranaram conservadores (o que o Amsterdam, outro romance do McEwan, mostra por meio do humor negro). Estou com 32 anos e não fui uma “Jenny”, mas tampouco um David. E acho curioso ver que hoje os Davids que conheci são pessoas certinhas e moralistas. O mesmo vale para os críticos que representam grandes empresas e ficam posando de rebeldes contestadores, como os Álvaro Pereiras da vida. Parece que ficam com raiva daquilo que se tornaram e descontam das obras que os lembram disso. Não estou dizendo que é o caso do Marcelo, creio que não. Mas é interessante ver essa visão quase unânime brasileira. Já na Inglaterra é visto como um estudo de uma época por um outro viés. É isso.
Março 6th, 2010 at 9:56 pm
Rogério, como disse, não li outras criticas, nem as inglesas, mas vou ler para tentar entender o que os ingleses viram no filme, mas acho que não concordar com a visão do filme é muito importante no que diz respeito a gostar do filme. Achei a trilha linda e o filme é bem feito, mas essa coisa de mostrar que se você fizer isso vai se dar bem, e se fizer aquilo vai se dar mal, é muito complicado. Me parece um prato bonito, todo enfeitado, mas que por dentro é uma torta de giló. Ele continua sendo bonito, mas eu não vou gostar.
abraço
Março 17th, 2010 at 12:03 am
Não vai gostar porque teima em justificar suas escolhas erradas atacando lições de moral que te tocam fundo. Assuma, o filme te lembrou bobagens que fez e vem aqui com esse papinho pra tentar convencer… a você mesmo! Ótimo filme.
Março 19th, 2010 at 6:40 pm
Acho que a melhor definição para “Educação” seria morno. Chega a divertir em algumas passagens, mas não passa disso. A obviedade acaba sendo um complicador poderoso e trava o filme na sua segunda metade.