IV Festival Se Rasgum em Belém



Por Ismael Machado

Três dias e mais de 30 atrações locais, nacionais e uma internacional. Resumindo em números, esse é o saldo dos dias 13, 14 e 15 de novembro em Belém com o festival Se Rasgum. Se nas duas primeiras edições, o festival trazia o rótulo ‘no Rock’, na terceira e na quarta edição, ele se pretendeu mais eclético, aberto e dinâmico. E vem conseguindo se inserir no calendário nacional como um dos melhores festivais independentes do país.

Esse ano o festival prometia batidões, pancadões e flertes com toda a parafernália eletrônica possível. Foi isso, mas foi um pouco mais além. Logo no primeiro dia, The Baudelaires e Ataque Fantasma, duas jovens bandas paraenses, tentaram mostrar que o espaço para canções pop grudentas teria vez. Pode-se dizer que foram razoavelmente bem sucedidas.

De Minas veio o Dead Lover’s Twisted Hearts. Tirando a boa lembrança do clássico pós-hippie “Eu Tenho”, de Odair José, o show foi prontamente esquecido dez minutos depois de encerrado. Já o Cérebro Eletrônico, no palco menor, mexeu com a audiência, num show agitado e com tintas retro.

Até aí, no entanto, nenhum show havia realmente tirado o público de uma certa condescendência de quem está ali para assistir espetáculos pop e não quer se aborrecer. Mas Gork, o projeto de André Abujamra junto à ‘cozinha’ do Los Piratas, começou a mudar esse cenário. Abujamra brinca com os conceitos de metal, hardcore e outros gêneros pesados. A galera aprovou.

Pinduca: Foto de Gustavo Godinho

Juca Culatra e Power Trio levou um pouco de reggae estilizado ao palco principal. Carismático até o osso, Juca ganhou o público de mansinho. “Crioulo Doido” já se tornou um pequeno clássico subterrâneo da música pop paraense.  No palco menor, Pro.Efx e Arcanjo Ras despejaram dubs, raggas e outras variações eletrônicas do reggae dando ao público uma espécie de ‘isso é o mais próximo que vocês terão de Asian Dub Foundation nessas três noites’. Saíram consagrados.

Nação Zumbi subiu ao palco principal antes do que era previsto e sem ser anunciado. E dividiu opiniões. Houve manifestações genuinamente nostálgicas quando antigos clássicos eram executados. Mas ao término do show ficou a sensação de que algo já se perdeu no tempo e não dá mais para recuperar era visível.

Para o final da noite de sexta-feira, um duelo de bagaceiras. Gabi Amarantos subiu ao palco pequeno com um micro vestido preto menor do que aquele da menina da Uniban. Voluptuosa e com vozeirão a la Elza Soares em alguns momentos, mandou ver tecnobregas em versões aceleradas e pesadas.

Gabi transformou o festival numa mini-festa de aparelhagem e praticamente engoliu os que eram tidos e havidos como uma das grandes sensações do festival, o Bonde do Rolê. Tanto que não adiantou as meninas meio esquálidas do Bonde mostrarem os peitinhos no meio do show. O generoso par de coxas de Gabi foi bem mais sedutor.

Godzilla: Foto de Well Maciel

A segunda noite começou com as paraenses Aeroplano e Dharma Burns. Depois os mineiros do Radiotape num som derivativo demais. Nem o cover de Oasis (“Rock and Roll Star”) salvou a pátria. Quem fez bonito na seqüência foi o Johny Rock Star, outra banda da casa num show que pode ser classificado como arrebatador. Canções power pop quase perfeitas numa apresentação que terminou com o baterista Ivan se arremessando da bateria para o público. Já o Milocovik soou como um arremedo meio estranho de Talking Heads e Franz Ferdinand.

E veio o… samba-jazz. Foi isso que Markus Ribas apresentou num show elegante e classudo. Contagiou. O rei do carimbó, Pinduca, subiu ao palco com status de majestade e saiu ovacionado pelo público mais roqueiro que ele já tinha encarado na vida. Digital Dubs, com B. Negão e Ras Bernardo, trouxe de volta o batidão dos dubs e similares. Assim como um dos grandes shows da noite, o da Comunidade Nin-Jitsu, do Rio Grande do Sul. Batidão funk com altos temperos guitarreiros e com um auxílio luxuoso de B.Negão. Delírio geral.

O Música Magneta reuniu o exímio guitarrista Pio Lobato a Dj Dolores e Mestre Vieira. Experimentações sonoras tendo a guitarrada, o tecnobrega e até Kraftwerk como referência. No final do sábado, o pop mais do que agradável do Pato Fu, que encerrou a noite homenageando Pinduca com uma versão de “Sinhá Pureza”. O ponto alto foi a versão emocionante de ‘Sobre o Tempo’.

A última noite do festival foi a mais pesada. Começou com o pop agridoce do Clube de Vanguarda Celestial, passando pela boa surpresa chamada Godzilla, de Macapá. Sucederam-se Sincera e Inverso Falante, bandas que haviam sido classificadas na Seletiva Se Rasgum. AMP, de Pernambuco, fez um show meia-boca, mas o final do festival ainda reservava boas surpresas.

Hablan por La Espalda: Foto de Well Maciel

Começou com a excelente banda uruguaia Hablan por La Espalda. Uma mistura bem dosada e bem feita de Santana, Doors, Deep Purple e outras bandas similares, que arrebatou o público com um som viajandão e pesado numa sensação semelhante ao que era Black Crowes fazia lá no início dos anos 90.

A veterana Delinquentes mostrou porque é uma das melhores do Brasil quando se fala em hardcore ou crossover. Um dos shows mais empolgantes de todo o festival. Assim como a da mitológica e pioneira banda de heavy metal Stress. Ensanduichado no meio dessas duas apresentações ensandecidas, o Matanza ficou parecendo tolice de menino mimado fazendo cara de mau. E o encerramento com Velhas Virgens mostrou que um pouco de rock sacana, bêbado e sexista de vez em quando serve para aliviar almas cansadas de tanta sensibilidade emo.

A quarta edição do Festival Se Rasgum foi a mais equilibrada e a mais democrática de todas as edições. Mostra possibilidades sonoras que unem sem radicalismos as mais variadas vertentes musicais. É assim que deve ser. É assim que foi.

Pato Fu: Foto de Gustavo Godinho

Leia também:
– Festival Calango 2009, por Marcelo Costa (aqui)
– Festival Indie Rock 2009, por Marcelo Costa (aqui)

A foto que abre este texto é de Glauce Andrade. Mais fotos do festival aqui.

4 thoughts on “IV Festival Se Rasgum em Belém

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.