Show: The Killers em São Paulo

Texto e fotos por Marcelo Costa

Pra começo de conversa, vamos colocar as coisas em seus devidos lugares: O Killers é o Bon Jovi dos anos 00. A comparação não é musical (embora eles possam descambar a qualquer momento para o metal farofa), mas sim na forma com que Brandon Flowers e compania se entregam aos clichês do rock and roll, lambuzando-se de messianismo enquanto brincam com canhões de fumaça, solos de guitarra sobre caixas imensas de som e rajadas de chuva de papel picado.

A chuva, aliás, foi um personagem importante desta segunda passagem do Killers por São Paulo. A água que caiu sobre a Chácara do Jóquei desde o começo da tarde fez do local um imenso lago com pequenas ilhas de barro. Capas de chuva (ou, se você preferir, protetores de chapinha) eram vendidas por R$ 40 nos arredores e a fila caminhava sossegada quando as primeiras batidas de “Humam” romperam o silêncio. O show, marcado para as 20h, começou com apenas 15 minutos de atraso, muita gente do lado de fora e Brandon Flowers exaltando a coragem do povo e convidando todo mundo para dançar.

Boa parte do povo enfiou os pés na lama e saiu correndo, mas perdeu “Somebody Told Me” em grande versão. Com meia hora de show já dava para perceber que a banda evoluiu horrores no palco, mas ainda não consegue fazer milagre e salvar as pálidas canções do álbum “Day and Age”. O público, encharcado, nem dava bola. Cantava tudo e vibrava quando Brandon Flowers arriscava uma frase em português ou subia nas caixas de retorno para comandar a massa como se estivesse regendo uma orquestra.

É inegável o talento de Flowers para o messianismo. Vestido todo de preto, ele passa metade do show ajoelhado e com os braços abertos em direção ao céu como se fosse um cristo crucificado. Corre de lá pra cá e canta muito, mas muito bem. Assume o baixo em um número, os teclados em outro, mas passa 90% do tempo dedicando-se exclusivamente ao microfone. A decoração do palco ainda mantém as plantas da turnê anterior, mas destaca um belíssimo telão que funciona muito bem.

O show diverte e reforça a teoria de que o Killers é um dos grandes nomes – quiça o maior – de todo o novo rock. Tudo bem que a banda ande tropeçando em estúdio (apesar de alguns bons momentos, nem “Day and Age” e nem “Sam’s Town” alcançam o brilho de “Hot Fuss”), mas ao vivo, quando junta todos os seus inúmeros hits sob uma camada de clichês que funcionam, o Killers é realmente matador (trocadilho infame, eu sei, mas plenamente justificável).

Isso não quer dizer que eles acertem sempre. “Smile Like You Mean It” surgiu em uma versão arrastada, sonolenta, que nem o crescendo do meio pro final salvou a canção. Uma reprise de “Human”, apenas ao piano já no meio do show, pareceu um grande desperdício. E citar “Can’t Help Falling in Love” já não pode ser considerado um clichê bom. Do lado positivo, “Mr. Brightside”, “All These Thing That I’ve Done” (com o refrão “I got soul but I’m not a soldier” gritado por milhares de pessoas) e “When You Were Young“, que fechou a noite, fizeram bonito.

A Chácara do Jóquei mostrou-se novamente ineficiente para abrigar espetáculos deste porte. O som estava ótimo, mas era preciso um caiaque para servir-se de pizza na área reservada para a praça de alimentação e a área vip, enorme e vazia, deixou os fãs que não puderam desembolsar seu valor (R$ 350 a inteira) muito longe do palco. O público, a grande razão de ser de um evento de entretenimento que movimenta milhares de dólares, merece atenção e respeito. Uma hora dessas a corda cede.

Com estimativa na base do olhometro, entre 8 mil e 10 mil (num lugar que cabe fácil 40 mil pessoas ), o público colaborou como pode no meio da lama no meio de um feriado, e o Bon Jovi dos indies entregou um espetáculo correto recheado de efeitos especiais, momentos bregas e grandes hits. Assim como em sua passagem anterior, no Tim Festival de 2007, o Killers deixa São Paulo com a promessa cumprida de um bom show. E dessa vez não terminou às 7 da manhã…

Leia também:
– “Day and Age”, do Killers, por Marcelo Costa (aqui)
– Killers diverte público do Tim Festival em SP, por Marcelo Costa (aqui)

13 thoughts on “Show: The Killers em São Paulo

  1. “Uma hora dessas a corda cede”. O problema é que essa hora nunca chega. Para quem tiver paciência, fiz um pequeno exercício de imaginação, baseado no seu público máximo estimado, 10 mil pessoas e na porcentagem que os produtores alegam de meia-entrada, 90%.

    Se 1/4 dos 10 mil tiver sido de área VIP, a renda obtida com ingressos foi de R$ 1.306.250,00, isso com ingressos à R$ 350 (VIP) e R$ 200 (pista) e 50% para estudanrtes.

    Se o ingresso fosse mais barato (ou menos caro) e atraísse 20 mil pessoas (o dobro de ontem, mas nem um pouco absurdo, já fui em shows com mais de 30 mil), com uma entrada de R$ 140, R$ 70 a meia (valor do 1o lote do Planeta Terra, práticavel portanto; PT que não tinha área VIP, diga-se de passagem), a renda seria de R$ 1.540.000 (sem áera VIP e mesma proporção 9 para 1 de estudante/inteira).

    Ou seja, se foram os ingressos caros e a área VIP que afugentaram o público, caso entradas mais baratas e inexistência de área VIP atraíssem mais gente, a renda seria quase 18% maior do que foi. Continha baseada no chutômetro e achismo, mas acho que dá para supor que a ganância da área VIP e dos preços exorbitantes acaba sendo um baita tiro no pé.

  2. No Tim Festival, terminei o show às 7 da manhã pensando “taí uma banda que se fizer td direitinho vai ficar GIGANTESCA”.

    O show de ontem mostrou que eles estão mesmo fazendo td direitinho e logo, logo ficarão gigantescos. O som é mto bom, o grupo é determinado e o líder faz o possível e o impossível para que vc o adore.

    Ah, by the way, sabe a garrafa de água que ele jogou pouco antes de When We Were Young? Peguei, e ainda tinha uma aguinha dentro. Vou guardar como relíquia religiosa 🙂

  3. O show foi realmente bem legal, mesmo pq eu cantei todas do começo ao fim, porém, o lugar é lastimável!!! Achei que o Radiohead tinha sido ruim (não o show, mas o não-show), mas esse se superou!!! Fico imaginando se tivesse caído essa show no show dos ingleses!!! Chácara do Jockey nunca mais!!!!!!

    Marcelo, só uma correção, o Brandon tocou baixo e não guitarra!

    Abs

  4. Grande Mac, com ingressos a esse preço, nunca mais eventos lotarão. Tem de ser fã pra pagar de 100 reais pra cima num show. Eu acho o Killers uma boa banda,apesar do ultimo cd se salvar umas 3 com boa vontade. Pagaria 70 reais (inteira) num show deles e estava ótimo, concorda? Enquanto os preços estiverem esse absurdo, pode ter certeza, show de 40 mil pessoas estarão no máximo com 10… Eu deixei de ver o REM, que considero uma das melhores bandas de todos os tempos, aqui no Rio por causa do preço (250 reais pista), em eventos menores mesmo é que eu não pago. Lamento muito pelas pessoas desse país não lutarem por nada. Abraço. Obs: Lembro que assisti o White Stripes aqui no Rio por 50 reais… Que saudade!!!!

  5. Duvido que os cavalos do Jóquei sejam tão maltratados como quem vai aos shows na Chácara do Jóquei. A situação estava catastrófica. Não sugiro que asfaltem o lugar, mas sim que sejam utilizadas as placas usadas nos shows em estádios…..

  6. O Brandon tocou baixo, e não guitarra, em For Reasons Unknown. Apesar de não concordar em mta coisa do q disse, outras coisas vc falou certo. Principalmente sobre a chacara do Jockey. foi meu primeiro show lá e vou pensar 2 vezes antes de voltar. so se for o Killers, de novo. ai sim, Não tem chuva ou barro ou apocalypse q me impeça. O melhor show de todos!

  7. Beleza, Mac? Seguinte: já notou como a sua foto do show do Killers (a primeira, da galera na chuva) lembra um pouco a foto da Tomada do Forte de Copacabana, feita por Evandro Teixeira? Não sei se é viagem da minha cabeça, mas achei bem parecidas. Abraços!

  8. Eu vim de Fortaleza-CE só pra assistir esse show. Foi minha primeira vez em São Paulo. Na real, nem me importei com a chuva, a lama, meu tênis destruído, minha roupa ensopada etc. Foi o melhor show da minha vida! Mas confesso que a estrutura era precária, pensei que shows desse porte fossem mais organizados. A área vip também era um crime, assim como o preço do ingresso.
    Ah, e só pra constar, acho o Day & Age um álbum incrível, até mesmo melhor do que o Sam’s Town.

  9. Imagino o caos que nao deve ter sido. A Chacara do Jockey é horrivel. Traumatizou no show do Radiohead. Ainda não vi o Killers ao vivo. Se tivesse em sampa teria encarado a odisseia mesmo assim, eu acho. Abs.

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