Festival Indie Rock 2009 em SP


Texto: Marcelo Costa / Fotos: Liliane Callegari

Terça-feira em São Paulo, a maior cidade do Brasil e principal centro financeiro, corporativo e mercantil da América Latina com mais de 11 milhões de habitantes (segundo censo do IBGE de 2009). Mesmo com esse mundaréu sem fim de gente, pequenas formigas que superlotam a Avenida Paulista na hora do almoço (e a 25 de março em dezembro), 3/4 da lotação da tradicional casa de shows Via Funchal, com capacidade para 6 mil pessoas, está vazia.

Alguns gatos pingados marcam presença para prestigiar a segunda edição do Indie Rock, festival que chegou a ser confirmado e adiado várias vezes anteriormente, e nesta terça-feira de apagão nacional colocou enfim Super Furry Animals e Gogol Bordello diante de menos de 1500 pessoas (a organização alardeou quatro mil, mas nem que contassem braços e pernas de cada presente chegaria a tal marca) para uma noite preta.

Tanto Super Furry Animals quanto Gogol Bordello reinam na memória afetiva de muitos brasileiros. O SFA fez um show sensacional no Tim Festival 2003, no Rio de Janeiro. Ofuscando a aspereza do White Stripes e a novidade gingada do Rapture, Gruff Rhys e os outros animais super peludos deixaram o festival com a taça Jules Rimet e o público nas mãos. Já Gogol fez um dos grandes shows em terras brasileiras do ano passado, promovendo uma festa punk cigana de arrepiar no Tim Festival SP.

Nesta terça, porém, os astros estavam de folga. E não dá para culpar as bandas. Com um som excelente, o SFA mostrou suas qualidades sem valorizar seu lado visual como em 2003 (Gruff limitou-se a levantar cartazes com frases de ordem e agradecimento) e o pequeno público festejou “Slow Life”, “Hello Sunshine”¸ “Golden Retriever”, “(Drawing) Rings Around The World” a nova “Inaugural Trams” e a dobradinha “Crazy Naked Girls” e “The Man Don’t Give a Fuck”. Quando parecia que o show ia pegar fogo, a banda deixou o palco, infelizmente sem bis.

Já Gogol Bordello fez um repeteco do grande show do ano passado, e os fãs lavaram a alma de suor pulando sem parar no baile punk promovido pelo combo do vocalista e ator Eugene Hutz. O Gogol parece uma porrada de carros entre o pessoal do Pogues com a turma de Henry Rollins. A galera nem se importou com o som deficiente, embolado, e pogou como se o mundo fosse acabar em trevas e escuridão. Era só um apagão, mas “Mala Vida”, do Mano Negra, fez valer a pena estar acordado no meio da madrugada.

Muitas questões teóricas circularam pelo espaço vazio do Via Funchal nesta noite. Tanto SFA quanto Gogol mereciam um público maior ou um lugar menor. A vasta área desocupada sinaliza uma seqüência de erros (confirmação do festival em cima da hora, falta de divulgação, local inadequado) além de algumas questões interessantes como, por exemplo: por que uma cidade de 11 milhões de habitantes não consegue lotar uma casa de 6 mil pessoas para ver duas respeitadas atrações independentes famosas em fazer bons shows? Silêncio.

Deixando de lado as possíveis respostas para a questão acima, o que fica deste Festival Indie Rock 2 é uma sensação de ressaca rock and roll. Faltou algo. As bandas estavam lá exalando frescor, mas o público não compareceu. Por vários motivos. Não dá para cravar, mas se os shows tivessem sido divididos em duas noites na Choperia do Sesc Pompéia (que já recebeu Luna, Teenage Fanclub e Television) ou uma na Clash, a festa provavelmente teria outro sabor. Porém, sabemos, “se” não significa nada após o fato consumado.

Resta esperar que na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, nesta sexta-feira 13 (com acréscimo de Holger e os argentinos do El Mato a un Policia Motorizado no line up ao lado de Super Furry Animals e Gogol Bordello), os astros trabalhem a favor e o público carioca compareça. E que a produção do festival aprenda com os erros deste ano para uma vindoura terceira edição do Indie Rock. A escalação das duas edições foi boa, a idéia do festival é ótima, mas é preciso lembrar que um show, muitas vezes, não é apenas o que acontece dentro do palco. O público precisa participar.

Leia também:
– Super Furry Animals bate o White Stripes no Tim Festival, por Marcelo Costa (aqui)
– Gogol Bordello, National e MGMT no Tim Festival, por Marcelo Costa (aqui)

13 thoughts on “Festival Indie Rock 2009 em SP

  1. Apesar de ter adorado a experiência de ver Super Furry Animals ao vivo (a introdução com Slow Life foi de arrepiar), senti falta da empolgação tanto do público quanto a que (talvez reflexo do público) não se fez presente na banda. Foi um show, digamos, burocrático, impedido por umas microfonias assustadoras. Mas para mim, que sou fã deles, ver o SFA ao vivo não tem preço. Pena que foi tão curto, e que tenham faltado tantas músicas matadoras (em um primeiro pensamento, Demons, Venus & Serena, Piccolo Snare, The Undefeated me vêm à mente).

    O show do Gogol Bordello, que era a grande expectativa do público (muito do público que viu SFA estava mesmo esperando o Gogol, talvez a diferença brutal de estilo entre as bandas justifique o desânimo citado acima, também), foi arrebatador. Eu não os havia visto ao vivo, ainda, e em noite de apagão, o show deles transbordou de energia (com o perdão do trocadilho infame). O Eugene até citou o blecaute e o fato de o show estar rolando sem problemas (o que faz o gerador do Via Funchal merecer os parabéns, pois não houve absolutamente nenhuma interferência no show). Começou desanimado, também, o show, mas antes da terceira música, já estava bombando. Sem contar com o fato de os músicos serem extremamente gente boa, e terem ido falar e tirar fotos com o público…. Até uma fã invadiu o palco sob a vista grossa do segurança…

    Enfim, acredito que haja alguns fatores importantes para que os shows no Rio sejam melhores que os daqui… Para começar, o valor é extremamente inferior ao praticado em SP (cerca de 33% a menos)… a casa é menor, haverá shows de mais duas bandas…. Espero sinceramente que aprendam com a experiência, aqui. Ao telefone, colocaram terrorismo falando que os ingressos promocionais (da lata de leite, essa sim uma iniciativa excelente) estavam quase acabando…. sendo que eram 3000 ingressos… e não tinha 3000 pessoas ao todo!

    É isso, apesar das falhas sempre presentes, SP viu ontem uma ótima experiência. Pena que tantos outros tenham perdido essa oportunidade.

  2. Realmente é sempre penoso tentar entender o porque da organização dos shows em terras patropis. Ainda mais quando as bandas são boas e com esse leque cerebral todo de musicalidade. Assistir SFA pela primeira vez foi sensacional mesmo querendo que a casa estivesse mais cheia e a banda deixasse rolar mais lisergia do que apenas cartazes inanimados. Zoom Easy foi disparado umas das melhores canções ao vivo que eu já vi. E Gogol Bordello com sua lona circense de psycodelichardcorefolclórico arrebatou todo uma legião de ciganos itinerantes para dentro daquele pequeno espaço…….aliás fica aqui a sugestão, vamos colocar a banda como embaixadora nos assuntos étnicos e questões de paz. Assistir a banda mesclar tamanha mundialidade dentro de um palco mostra como seria um mundo aonde apenas os sons seriam divididos em gênero e etnia e mesmo assim o amálgama fundiria todas as diferenças em notas………

  3. O grande problema é o preço,num mês que tem Festival Planeta Terra,Maquinária,The Killers e mais algumas coisas que não me recordo…
    A data do show também compromete,pois para o pessoal do interior e de fora do estado fica extremamente difícil ir num show desses na região do Via Funchal,que é longe dos Terminais Rodoviários.
    Eu mesmo já desisti de ir em shows aí em SP quando não for em final de semana(conheço muita gente também que não vai).

  4. Faltam em SP casas de shows de médio porte e descontraidas como a Fundição Progresso ou o Circo Voador. Temos casas pequenas como a Choperia do Sesc Pompéia e o Clash (não passam de 600 pessoas) ou casas grandes e metidas a chiques como o Via Funchal, Citibank Hall, Credicard Hall. O Festival Indie Rock não foi o primeiro evento de música nova em SP a fracassar em venda de ingressos apenas por acontecer no dia errado e no lugar errado… me lembro bem do fantástico (porém vazio) show do LCD Soundsystem no Via Funchal. Alguém lembra de mais algum?

  5. Segue, Leonardo:

    1) Slow Life
    2) (Drawing) Rings Around The World
    3) Golden Retriever
    4) Hello Sunshine
    5) Juxtapozed With U
    6) Mt.
    7) Zoom!
    8 ) Inaugural Trams
    9) The Very Best of Neil Diamond
    10) White Socks/Flip Flops
    11) Crazy Naked Girls
    12) The Man Don’t Give a Fuck
    13) Keep The Cosmic Trigger Happy

  6. Valeu Mac.

    Apenas complementando, foi mesmo uma pena o pequeno público. Confesso que fiquei constrangido pela banda. Poderiam ter marcado o show ao menos no Palace.

    Aproveitando, para você que gosta de cerveja de verdade, vale a pena dar uma olhada no blog de uma amigo: http://pridebeer.blogspot.com/

    Abs.

  7. Acho que a proximidade com o Terra e o Maquinária e o preço do ingresso não são desculpas. Ano passado o R.E.M. tocou na mesma terça pós Terra, a um preço mais alto (R$ 200 / R$ 100 pra estudante) e encheu o mesmo Via Funchal.

  8. To aqui no Rio na expectativa pelo show do “El Mató” amanhã, q eu já vi em Baires um par de vezes nos últimos anos, bandaça!

    Eu preferiria q o festival fosse no Circo Voador, q é mais aconchegante e tem um som deveras melhor q o da Fundição, fora a mística do lugar, nem se compara.

    Tenho certeza tb q o grosso da galera q vai na versão carioca do Indie Rock Fest [q nomezinho preguiçoso, ein] será de fãs q foram fisgados pelo baile punk cigano do Gogol Bordello no Tim.

    E não é a toa q eles tocam Mano Negra nos shows, tem muito a ver. Sobretudo ao vivo.

    Agora, se der 1.500 pessoas aqui já será bom até demais.

    Show no Rio é incógnita.

    Já fui ver Echo & the Bunnymen pra ninguém e Atari Teenage Riot num teatro apinhado, saindo gente – sangrando – pelo ladrão [aliás, top 5 de melhores shows da minha vida].

    Mas é como já foi comentado aqui, o negócio é saber escolher o lugar certo [capacidade, localização, preço…] pra banda tocar. Há de se ter coerência.

  9. Qual foi o preço do ingresso pra esse festival ? se foi mais de 100 reais acredito que um dos fatores para o esvaziamento foi o valor ridiculo cobrado pros ingressos , outro fator que pode ter contribuido são os transportes , SP é uma cidade complicada de se locomover , talvez fosse complicado sair de certos bairros pra ir pro local do show.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.