A estréia do Fino Coletivo

por Marcelo Costa

O compositor alagoano Wado é responsável por uma respeitável discografia de três excepcionais álbuns: “Manifesto da Arte Periférica” (2001), “Cinema Auditivo” (2002) e “A Farsa do Samba Nublado” (2004), os três lançados de forma independente. Um dos destaques da banda que acompanha Wado, denominada Realismo Fantástico, é Alvinho Cabral, mestre do violão envenenado por wah-wah. O embrião do Fino Coletivo é formado pelo encontro destes dois músicos alagoanos com o carioca Momo. O trio trouxe amigos para a formação (Adriano Siri, Alvinho Lancellotti, Daniel Medeiros e Marcus Coruja) e o resultado deste encontro de Alagoas com Rio de Janeiro pode ser ouvido no genial álbum de estréia do Fino Coletivo.

A bola da vez é o samba torto que Wado vem perseguindo desde sua estréia, cujo ápice encontrou no soberbo “A Farsa do Samba Nublado”. Porém, na companhia de Momo e Alvinho Lancellotti, Wado e Alvinho Cabral evoluíram nas experiências de entortar o samba, e deram um grande salto para o futuro da música popular brasileira. Aqui o samba clássico, malandro, poético, encontra a modernidade. Programações e riffs de guitarra envenenam o samba de tal forma que o ritmo zanza bêbado por noites iluminadas, encontra o funk, namora, e enquanto um dorme nos braços do outro, o dia nasce para mais recomeço movido à saudade do passado temperada com paixão pelo futuro.

“Fino Coletivo” abre com Domenico (do projeto +2), irmão de Alvinho Lancellotti, cantando “Boa Hora”. Uma guitarra esperta duela com um scratch. A batida é marcada enquanto o vocal mistura tristeza e sorrisos, como nos bons sambas: “Quem disse que era hora de partir / Já perdi noção da hora de esperar”, cantam os irmãos Lancellotti no refrão. “Tarja Preta / Fafá”, a seguinte, é uma das três canções que Wado já havia gravado em seus álbuns anteriores, e que ganharam nova roupagens com o Fino Coletivo. “Tarja Preta / Fafá” ficou mais calma, mais suingante. “Uma Raiz, Uma Flor”, improviso sobre um texto de Georges Bourdoukam, ficou superior à versão do álbum “Manifesto da Arte Periférica”. E a nova versão de “Poema de Maria Rosa” ficou ainda mais linda do que sua versão original.

Dos novos sambas tortos destacam-se a poderosa “Dragão”, que abre com efeitos e guitarra limpa embalando o belíssimo refrão: “Minha língua é um copo d’agua na tua boca de dragão”; o samba tradicional “Mão na Luva”; as chacolejantes “Partiu, Partindo”, “Na Maior Alegria”, “Medo de Briga”; e a grandiosa “Hortelã”, em que programação eletrônica, bateria, baixo e uma guitarra envenenada se entrelaçam aos vocais que fazem a cama para a declamação da boa letra, que pede no refrão: “Deixe a vida lhe trazer recordações. De arrepiar.

Na última vez que se apresentou em São Paulo, em 2006, Wado já estava inserindo batidas eletrônicas em seus velhos sambas tortos, e anunciava que seu novo álbum já tinha nome e conceito: “Terceiro Mundo Festivo”. A estréia do projeto Fino Coletivo eleva este conceito às raias da perfeição. “Fino Coletivo” é um álbum raro em que o padrão de qualidade das canções não diminui – em nenhum momento – enquanto o laser bate no acrílico do CD e segue sua jornada do primeiro segundo até o último dos 2308 segundos que compõe o disco. É a nova música popular brasileira sem cabecismos nem apadrinhamentos. Uma música que ousa misturar passado e futuro, e não parecer nem um e nem outro, mas sim presente. O momento que eu, você e todo mundo está vivendo.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

8 thoughts on “A estréia do Fino Coletivo

  1. Comprei esse disco semana passada e adorei!!! Muito bom mesmo, me remeteu, um pouco, ao segundo disco do Bonsucesso Samba Clube.
    Até agora o Fino Coletivo só perde, pra mim, pro Maquinado o Lúcio Maia.
    Mas acho que ele vai acabar o ano em terceiro, esse ano ainda vai sair o novo da Nação Zumbi.
    Não é esse o post, eu sei, mas achei o tal de Vanguard péssimo.

  2. pergunta:
    algum site onde eu possa comprar esse disco, interrogação.

    aqui na província é mais difícil encontrar esse disco em lojas.

    gracias.
    hasta.
    a.

  3. Coisa linda mesmo esse disco, deve ser a primeira vez que eu gosto de um disco com programações eletrônicas tão presentes. O refrão de “Na maior alegria”, é uma delícia.

    Agora, esse Maquinado que o pessoal tá falando aí eu já não gostei, achei que faltou malemolência.

    Também me surpreendi com a rejeição ao Vanguart. Eu não gosto do som da banda, mas tinha a impressão que todo o resto da humanidade idolatrava. rs

  4. CD MARAVILHOSO, ALIÁS CONHECI A BANDA EM UM SHOW NO RIO DE JANEIRO E SIMPLESMENTE ME ENCANTEI. E PARABÉNS PELA PARTICIPAÇÃO NA GLOBO NO ESPECIAL DO GONZAGUINHA,,,,FOI MUITO BOM !!!

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