Os tempos modernos de Bob Dylan

.

.

por Marcelo Costa

Quando se fala em rock sempre vem à mente a imagem de algum moleque desajustado tocando sua guitarra num volume ensurdecedor. Mas será que é isso mesmo? Ok, vamos aprofundar. Sempre venderam o rock como algo juvenil, desajustado, fora da sociedade. Isso tudo, claro, até a indústria cultural ver potenciais de ganhar grana com o negócio, transformando músicos em celebridades e todo o cenário em um grande circo. Não é um fato recente: Raul Seixas refletia em seu disco mais clássico, de 1975: “Mamãe já ouve Beatles, Papai já deslumbrou, com meu cabelo grande eu fiquei contra o que eu já sou” (“A Verdade Sobre a Nostalgia”). O interessante é lembrar que os Beatles cantavam desde “Dr. Robert” até “She’s Leaving Home”.

A questão toda, na verdade, é que mais do que ser uma música juvenil, de suor e transpiração, o rock envelheceu desde que Elvis chacoalhou seus quadris pela primeira vez, e por mais que Mick Jagger continue cantando “Satisfaction” após 40 anos, quem vai ousar dizer que o velhinho não é rock’n’roll? E os velhotes pilhados do Gang of Four, que fizeram um show absurdamente barulhento e sensacional semanas atrás em São Paulo (e também em Floripa e Belo Horizonte), não são roqueiros?

A temática é muito mais abrangente do que esta coluna permite vislumbrar, mas ao ouvir “Working Man’s Blues #2”, a sensação de que o homem que a canta viveu tudo que o rock lhe permitiu ser vivido (e mais) joga pelo ralo qualquer idéia do contrário. A questão não é sobre este homem ter mudado a história da música pop mundial (e ele mudou), e sim ele estar ainda radiografando o mundo com tanta lucidez e inteligência. Como escreveu Ana Maria Bahiana certa vez: “Nirvana foi uma faísca, enquanto o R.E.M. é uma fogueira, e eu, particularmente, estou mais interessada no desafio da sobrevivência e da longevidade do que na saída fácil da vida breve e fulminante”.

Do alto de seus 65 anos, Bob Dylan lança um disco que não é para a molecada dançar na balada urrando as letras (para isso existe o – ótimo – single do Killers) muito menos para ser ouvido enquanto se passa manteiga no pão no café da manhã. Dylan precisa de mais atenção. “Modern Times” é um disco de temática quase antagônica, falando sobre sexo e morte. E também sobre amor. E também sobre um mundo que está se desintegrando na frente dos nossos olhos. Ou será tudo a mesma coisa? É um disco para se ouvir em um bar acompanhado de luzes que se misturam com a fumaça de cigarro num balé melancólico. Seu autor ousa relembrar que mesmo tendo vivido mais de seis décadas de vida, o mundo continua um lugar imperfeito, solitário e vazio. Mas o próprio, em entrevista ao jornal USA Today, atesta que não há nada de nostálgico no álbum. Nostalgia, quem diria, é objeto de culto muito mais juvenil.

E não que é não existam rocks em “Modern Times”. A faixa que abre o disco, “Thunder On The Mountain”, é um rock clássico, com direito a guitarra solando e um interlocutor que gostaria de saber onde encontrar Alicia Keys (e não é para ouvi-la cantar). A mesma levada pode ser ouvida na suave “Someday Baby” e na soturna “The Levee’s Gonna Break”, com Dylan cantando de forma direta nesta última: “Se continuar chovendo, o dique vai quebrar: algumas pessoas estão dormindo, mas outras estão bem acordadas”. Ainda nas aceleradas, o bluezaço “Rollin’ and Thumblin” (com jeitão Robert Johnson de ser) acelera em direção ao rockabilly. Das dez canções do disco, é apenas nestas quatro que se ouvirá algum frescor (ahñ) juvenil que, talvez, lhe faça ter vontade de balançar o corpo ou, no máximo, marcar a melodia com os pés. Nas outras seis canções, jazz, folk e blues fazem a cama para que Dylan exercite sua visão do mundo.

De sotaque jazz, “Spirit on the Water” fala de pesadelos. “Eu estou suando sangue”, diz a letra. “When the Deal Goes Down”, cujo clipe traz a musa do momento Scarlett Johansson, é uma balada folk que não revela em sua levada a temática pesada da letra que procura um sentido em estar vivo, e diz a certa altura: “Nós vivemos e nós morremos, e não sabemos porquê”. O clima se acalma na suavidade de “Beyond the Horizon”, que imagina: “Além do horizonte é fácil amar”. Lembra o Rei Roberto em sua fase pós-Jovem Guarda dizendo que “Além do horizonte existe um lugar bonito e tranqüilo pra gente se amar”. O clima volta a pesar na arrastada “Nettie Moore” e fica ainda mais sombrio em “Ain’t Talkin'”, faixa que encerra o disco com Dylan contando “que não há nenhum altar nessa estrada longa e solitária”.

Dentre todas estas, a que merece maior atenção é a já citada “Working Man’s Blues #2”, canção que atualiza para os tempos modernos um velho country de Merle Haggard. Enquanto o original versava sobre como o trabalho comprara o espaço da diversão (na letra, após uma semana de batente e muito cansaço, o cara planeja sair para beber uma cerveja quando o pagamento chegar), “Working Man’s Blues #2” avança criticando não só esse capitalismo que vendeu um sonho e acabou, no fim, comprando a alma de todos, mas também suas conseqüências, entre elas a mais visível: a divisão do povo em ricos e pobres. “Working Man’s Blues #2” consegue ser ainda, do alto de seus seis minutos, uma belíssima canção de amor.

Dylan já não tem a necessidade de escrever que tinha quando era jovem. Segundo ele, na entrevista ao USA Today, chega uma hora em que é muito mais difícil encontrar uma finalidade para se fazer algo diferente. No entanto, ele sabe que talvez seja complicado para o ouvinte compreender não só a temática do disco, mas as canções como canções mesmo: “Cada canção significa o que você disser que significa. Ela te golpeia onde você pode sentir, e sentindo ela terá um significado para você. É um tipo de música que tem a finalidade de mexer com a pessoa, e para fazer isso ela tem que ter mexido comigo mesmo primeiramente”, explica.

É muito complexo dizer o que as pessoas precisam de verdade, seja música, filmes ou mesmo aparelhos domésticos. Se eu fosse moleque hoje em dia, provavelmente eu precisasse de Clash e Sex Pistols – ou quem sabe, Nirvana – mais do que Strokes, Killers ou Be Your Own Pet. Mais do que todos eles, na verdade, eu precisaria de Aldous Huxley, Lygia Telles e Shakespeare, mas essa é uma outra questão. O que realmente preocupa é limitar o que uma pessoa precisa, tenha ela 14, 36 ou 65 anos. Novamente recorro a Ana Maria Bahiana:

“Eu, por mim, recomendo a qualquer um – de 16, 21, 30, 45, 55 anos – que, ao menos uma vez por semana, escute algo que jamais pensaria escutar. E, certamente, algo que fuja dos padrões daquilo que as gravadoras determinaram ser “apropriado” para sua faixa etária – um ouvinte de 16 anos tem tanto a se beneficiar com uma audição de A Nod Is as Good as a Wink, dos Faces, quanto um de 55 do disco do Kula Shaker. É um santo remédio, o equivalente a uma corrida no calçadão, uma hora de malhação, uma partida de basquete: o suficiente para manter os ouvidos flexíveis, o cérebro desentupido, o coração palpitante e prevenir a instalação – muitas vezes precoce – do reumatismo estupidificante do classic rock”.

Pense nisso. E ouça “Modern Times” com bastante atenção. Ele está falando deste tempo sombrio que estamos, todos, vivendo. Ele não precisa de você, afinal, ele é Bob Dylan. Mas talvez você precise dele mais do que qualquer outra coisa, e ainda não descobriu.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também
– Discografia Comentada: todos os discos de Bob Dylan (aqui)
Bob Dylan ao vivo em São Paulo, 2008: retrato borrado da era de ouro do rock ‘n roll (aqui)
– Bob Dylan ao vivo em Brasília, 2012: Deixou todo mundo chapado (aqui)
– Bob Dylan ao vivo em São Paulo, 2012: Uma noite inspirada (aqui)
– “The Other Side of Mirror: Bob Dylan at the Newport”, de Murray Lerner, é essencial (aqui)
– Bob Dylan e a canção que mudou todas as canções: “Like a Rolling Stone” (aqui)
– Original vs Versão: Bob Dylan e Skank (aqui)
– Original vs Versão: It’s All Over Now, Baby Blue (aqui)
Talvez as melhores canções de “Tempest” só apareçam daqui alguns anos (aqui)
– “Bob Dylan – Letra e Música”: Um passatempo ok, mas… vá ouvir as originais (aqui)
– A bela trilha sonora do filme “I’m Not There”, de Todd Haynes (aqui)
– “I’m Not There”, o mais próximo que o público chegou de Bob Dylan (aqui)
– “No Direction Home”, a cinebiografia de Bob Dylan por Martin Scorsese (aqui)
– Bob Dylan, Martin Scorcese e a História Universal, por Marcelo Costa (aqui)

Texto publicado na(o) quinta-feira, setembro 28th, 2006 e arquivado na seção Música. Você pode acompanhar os comentários postados aqui através do FEED RSS 2.0.


11 Responses to “Os tempos modernos de Bob Dylan”

  1. Ivan

    daí Marcelo. pois eu preciso de Bob Dylan, com certeza. Ainda não ouvi o novo, mas vou procurar ouvir logo. E tenho uma dica pra você de algo que ouvi essa semana e gostei muito. É o novo EP do Monodia, uma banda lá de POA (que não tem nada a ver com rock gaúcho, é bom dizer). É muito bom. Acho que você vai gostar também. Tem o EP na íntegra na Trama

    http://www.tramavirtual.com.br/monodia

    dá uma sacada e depois me diz o que achou. nos vemos no Tim daqui, nê? abs

  2. bruno

    não tem nenhum disco brasileiro entre os seus 100? poooo…

  3. Fábio

    Eu ouvi algumas vezes o Modern Times e certamente a próxima audição será diferente, depois destas referências lidas aqui.

    Vou para o texto da Bahiana agora.

    Abraço.

  4. Henrique (RS)

    Marcelo! Sou um grande admirador dos teus textos e pela paixão pela arte que vc cultiva. Já baixei vários dos discos q vc indicou e não me arrependo de nenhum! Parabéns pelo belíssimo trabalho… um abraço!

  5. Adriana

    Hehehe. Seu post scriptum está me saindo maior do que a encomenda. =P
    Vou procurar ouvir esse tal de Bob.
    E olha lá o Richard em 44º!
    Bjs, moço.
    Dri

  6. Igor

    O novo do Dylan tá ótimo, ponto. Esse povo complica demais as coisas… Ah, e meus gostos não são muito diferentes dos seus (isso assusta, cara O_o) tendo em vista que meu top 10 tá todo no seu top 20…

  7. Adriano Mello

    Salve…
    Andei escutando alternadamente alguma coisa do “Modern Times” e gostei…como sou fã do cara é meio suspeito…agora quanto ao disco do Killers que ja escutei…ta muito bom, rock pra diversão 🙂
    Abraços

Trackbacks

  1. SCREAM & YELL 2.0 » Discografia Comentada: Bob Dylan (parte 2)
  2. Bob Dylan / discografia (Parte 1) « Sobre Café e Cigarros
  3. SCREAM & YELL 2.0 » Bob Dylan ao vivo em Brasília
  4. SCREAM & YELL 2.0 » Anticlimax, Tempest e Bob Dylan

Leave a Reply