Três CDs: Courtney Love, Sonic Youth, Alkaline Trio

por Marcelo Costa

“America’s Sweetheart”, Courtney Love
13/07/2004

Courtney Love precisa urgentemente encontrar um amigo. Ela é o tipo de pessoa que, deixada sozinha, exagera ao mostrar os sentimentos. É por isso que ninguém se lembra do primeiro disco do Hole (e nem precisa), mas sim do segundo. Com o fantasma de Kurt Cobain (ainda vivo) lhe assoprando coisas no ouvido, a musa cravou boas canções como “Miss World” e “Doll Parts” no bom “Live Throught This” (1994). Depois foi a vez de Billy Corgan dar uma mãozinha e transformar “Celebrity Skin” (o terceiro álbum, lançado em 1998) em uma coletânea de grandes canções (“Awful”, “Hit So Hard”, “Malibu”, “Reasons To Beautiful”, “Northern Star”, “Heaven Tonight”). Enfrentando o mundo sozinha novamente, a Courtney Love de “America’s Sweetheart” exagera nos gritos, escreve letras longas demais (que mais parecem o dicionário de uma garotinha de 13 anos) e compõe 12 músicas que parecem clone uma das outras. “Mono”, a primeira, chega a empolgar em alguns segundos, mas passa. “Hold On To Me” é bonitinha, mas tremendamente ordinária. O refrão tristonho da boa “Sunset Strip” faz rir, fato que se repete com a letra da faixa seguinte, “All The Drugs”, enquanto uma enormidade de clichês marca “Uncool”. É incrível como a imagem pública limitada da Sra. Courtney bate direitinho com o mundo cor de rosa proposto pelo encarte do CD. Ela grita para tudo e todos, pede desculpas algumas vezes, diz que o demônio dirige seu carro quando ela está bêbada e lembra do velho Led Zeppelin cantando “songs remains the same” na literal “Zeplin Song”. Parece uma garotinha mimada pedindo a atenção do mundo. Não é que o disco seja de todo ruim. Sozinha e abandonada, Courtney mais resmunga que escreve grandes canções. Alguém precisava cortar as letras pela metade e colocar alguns acordes a mais nas melodias. Courtney precisa de um amigo. Mesmo assim, “America’s Sweetheart” vale pela bonita capa e pela arte do encarte. Além, das dedicatórias passionais e engraçadas de Courtney… .

Nota: 3

“Sonic Nurse”, Sonic Youth (Geffen)
23/07/2004

É fudidamente injusto criticar o Sonic Youth. A banda carrega vários clássicos do rock feito com guitarras em sua discografia e o show do Free Jazz 2000 está, ainda, fresquinho na memória: uma overdose de riffs na veia, Kim Gordon vestida de rosa, o público pulando sem parar, uma apresentação apoteótica. Porém, “Sonic Nurse”, décimo sétimo rebento do grupo, não honra a história. O álbum que fecha a trilogia nova-iorquina iniciada com o bom “NYC Ghosts and Flowers” (2000), e que teve como interlúdio o excelente “Murray Street” (2002), soa capenga, cansado, preguiçoso, desinspirado. Todas as canções soam como sobras de “Murray Street”. Soa como se o grupo tivesse entrado no estúdio apenas para cumprir uma clausula de contrato, tocando faixas menores e desimportantes. As guitarras amaciaram no barulho e a bateria é o destaque em várias faixas. Fica claro que a comodidade atrapalha o rock. Deixados à vontade, sem precisar provar mais nada, o Sonic Youth parece soar entediado, conseguindo alguns bons riffs de guitarra, algumas microfonias em algumas poucas boas canções. “Pattern Recognition” abre bem o disco alternando barulho e silêncio. Guitarras intrincadas, clima caótico, o vocal de Kim Gordon à frente e a bateria de Steve Shelley tomando o destaque das três guitarras. “Unmade Bed” é suave, com um riff bacana e um bom vocal de Thurston Moore. “Dripping Dream” tem microfonia abafada e traz Thurston cantando entre bocejos. A cadência muda no meio, mas a canção não empolga. Uma longa introdução de dois minutos marca “Stones” enquanto “Dude Ranch Nurse” soa tremendamente linear. “New Hampshire” tem mais clima, enquanto “I Love You Golden Blue” traz Kim Gordon cantando com voz sussurrada. É interessante dizer que “Sonic Nurse” não é um disco ruim. É até melhor do que muito disco lançado por bandas novas recentemente (como Keane, Muse ou Starsailor). “Sonic Nurse” só não é melhor que qualquer disco com a etiqueta Sonic Youth. E é se olhando no espelho que a gente enxerga as cicatrizes do tempo…

Nota: 5

Good Mourning, Alkaline Trio (Sum Records)
27/07/2004

Formado no final de 1996 em Chicago, nos EUA, o Alkaline Trio chega ao Brasil através da Sum Records, que distribui os discos do famoso selo indie californiano Vagrant Records no Brasil. Lançado em 2003, “Good Mouring” traz o duo Matt Skiba (guitarra e voz) e Daniel Andriano (baixo e voz) agora ancorados pelas baquetas de Derek Grant, ex-membro dos Vandals. A constante mudança de bateristas não diminuiu a força das canções do trio, um dos grandes expoentes na atualidade do que se convencionou a ser chamado de emocore, um hardcore melódico com letras sentimentais, embora Matt Skiba tente fugir do rótulo definindo o som da banda como “apenas rock’n’roll”. Os temas das letras da banda (amor, depressão, bebedeiras, traições) surgem de atos comuns da vida. Matt estudou design enquanto Daniel foi vendedor de uma loja de discos. “Good Mouring” está mais próximo da estreia com “Goddamnit” (1998) do que de “From Here to Infirmary”, álbum de 2001 que se tornou o maior êxito comercial do trio. O disco abre com a arrasa-quarteirão “The Could Be Love”, compilando em pouco mais de três minutos um riff de guitarra grudento, bateria acelerada, baixo sujo e um refrão excelente. “We’ve Had Enough”, a faixa seguinte, destaca a bateria de Grant enquanto “One Hundred Stories” lembra Ramones na introdução. Ainda se destacam a boa “Emma”, a rápida “Fatally Yours” e “Blue In The Face”, balada folk blues que encerra o álbum. A bela parte gráfica do CD também merece destaque.

Nota: 7

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

Leia também:
– Thurston Moore em São Paulo: “Vocês estão sentindo o gosto do inferno? (aqui)
– Faixa a Faixa: “Murray Street”, do Sonic Youth (aqui)
– Free Jazz 2000: Sonic Youth promove sonho no formato de show de rock (aqui)
– Claro Que é Rock 2005: Sonic Youth cansa em um show sonolento (aqui)
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– “Demolished Thoughts”, Thurston Moore parece mais interessado em sossego (aqui)
Intimismo e espontaneidade valorizam “Sonic Youth: Sleeping Nights Awake” (aqui)
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