Voll-Damm, Reina Sofia e Thyssen-Bornemisza

July 26th, 2008

Eu tinha terminado o penúltimo e-mail dizendo que eu iria beber em homenagem a “La Maja Desnuda”, certo. Fiz bem. Encontrei a Voll-Damm, que pelo rótulo acho que é espanhola, de Barcelona, e patrocina o festival de jazz da cidade. O rótulo ainda diz que ela ganhou o prêmio de melhor cerveza strong lager do mundo em 2007 no World Beer Awards. 7,2%. Bebi duas latinhas e comecei a sorrir à toa.

Comprei mais duas, um pacote com umas 200 gramas de salame, pao e fui pro albergue fazer um lanche. Passo pela cozinha e ouco um “uai, sô”. Dois mineiros apaixonados por música sertaneja papeavam por lá. Fizemos amizade, chegou um casal carioca, e veio o convite dos mineiros: “A gente vai encontrar umas belgas na Plaza do Sol depois cair pra balada. Vamo ae?”. Era só o que eu estava esperando.

Encontramos as belgas, e o irmao de uma delas, na Plaza do Sol, ficamos quase uma hora papeando, quando um guia reuniu a turma para o lance todo, que funcionava mais ou menos assim: voce paga 10 euros, e eles te levam em três bares/baladas, e em cada um voce ganha uma bebida. Por fim, te jogam em uma balada balada mesmo, e te deixam lá fervendo. Achei cool e fico devendo fotos pois minha digital é daquelas grandes demais pra balada.

Nesta hora a turma de brasileiros já tinha aumentado, com uma garota que mora em Berlim, e mais um casal, que acabou se separando em seguida. Chegamos no primeiro bar, ganhamos uma sangria e um vale bebida: dois cocktais por 10 euros. Sacumé brasileiro, né: dispensamos o vale e achamos em frente a parada um bar que vendia Mahou, uma das minhas cervejas Top 5, por 1 euro a latinha de 500 ml. Comecou o estrago.

No primeiro bar, assim que entramos comecou a rolar “Take Me Out”, do Franz, e suspirei aliviado. Na sequencia veio “Song 2″, e quando comecou “Wonderwall” percebi que o DJ era qualquer coisa. E foi dai pra baixo, com Fergie, Black Eyed Peas e o escambau. Lembrei da Laura falando para o Rob: “E ai, você gostou da pessoas, né. Vai lá olhar a colecao de discos deles” (risos). Turma legal, clima bom, música ruim, relaxei.

No segundo bar ganhamos um shot de Tequila, que sempre me derruba. Assim, o bar estava lotado, ou entao ficou lotado assim que chegou a turma da caminhada. Só turistas, inclusive alguns espanhóis de outras regioes (num esquema “Paulista vai a baile funk no Rio”, manja). A coisa toda comecou a ferver. Morenas comecaram a dancar até o chao para ingleses e alemaes sedentos. Comecei a achar estranho.

O casal carioca, que tinha provado cogumelo em Amsterda (”Eles vendem numa bandejinha, junto com os baseados. Tem cinco categorias diferentes. Provamos o mexicano, mais fraquinho, e rimos a tarde toda”, comentaram tanto que até deu vontade), já estava altinho. A garota de Berlim tinha sumido. Os mineiros nem chegaram a vir. Quando deu duas da manha, tomei o rumo de casa.

Ainda encontrei os mineiros na Plaza de Sol, mas a cama estava me chamando. Acordei cedinho com uma pontadinha de ressaca, pensando: “Entrego a Rainha Sofia por uma coca-cola!”. Sai para um café com o já tradicional mixto com jamon, queso e huevo (tô viciando nisso) e uma coca de 200ml, que eu matei sem respirar. Depois sentei no sol vendo cachorrinhos espriguicarem, antes de ver o “Guernica”.

O Reina Sofia impressionou. Como colecao, gostei muito mais do Sofia do que do Prado. Porém, o Reina Sofia é uma desordem. Nas primeiras salas, a posicao da luz é tao errada que atrapalha a visao dos quadros. E, o que mais me incomodou, nao há um isolamente acústico entre vídeos e telas. Tive que ver o “Guernica” ouvindo o áudio do filme “Canciones Para Despues de Una Guerra”, de Basilio Martín Patino, exposto duas salas depois.

Fiquei extremamente contrariado e mesmo que seja intencional, é uma intencao pra lá de idiota. Você nao consegue “mergulhar” no quadro com uma barulheira daquelas. Bem, desabafo feito. A colecao do Reina Sofia é especializada na arte espanhola do século XX e XXI, mas traz boas surpresas de fora também. A divisao das salas obedece um esquema temático e cronológico, o que funciona muito bem.

Nas salas 1 e 2, retratos e paisagens; nas salas 3, 4 e 5, cubismo; na sala 6, 7, 8 e 9, o contexto de “Guernica”, e nas seguintes, Surrealismo. Adorei “Muchacha en la Ventana” (aqui), “Autoretrato Cubista” (aqui) , “Gran Arlequín y Pequeña Botella de Ron” (aqui) e “El Gran Masturbador” (aqui), todos de Salvador Dali, “La Fabrica Dormida”, de Daniel Vazquez Dias (aqui), “La Chimenea”, de Diego Rivera, e “Valencia”, foto de Cartier-Bresson (aqui).

O museu ainda conta com obras de Magritte, Miró, Le Corbusier e muitos outros, mas nao tem jeito, “Guernica” faz voce esquecer tudo a sua volta. A enorme tela ocupa a sala 6 do Reina Sofia. Nao existe uma linha no chao que delimite o quao perto voce pode chegar, entao toda hora soa o alarme (mais um defeito do museu) com pessoas a mais de dois metros da obra. Mesmo com todos os problemas estruturais do museu, a obra reluz e encanta.

“Guernica” mede 350 por 782cm e foi pintado por Picasso entre maio e junho de 1937, especialmente para a Exposição Internacional de Paris. Em abril de 1937, no auge da guerra civil espanhola, os alemaes bombardearam a cidade de Guernica em apoio as forcas nacionalistas do ditador Francisco Franco. O ataque e a destruicao da cidade basca causou revolta internacional, e Picasso desenhou o quadro buscando retratar a dor e a barbarie da guerra.

Nas duas salas anexas a sala 6 em que está “Guernica”, esbocos permitem que o visitante acompanhe o árduo trabalho de Picasso em compor o quadro antes (ele fez oito versoes até chegar a versao final) e depois (existem vários postscriptum). Pequenas (e belíssimas) telas retratam a agônia do cavalo , que tomou a posicao central do quadro na versao final. A mae desesperada segurando o bebê morto também recebeu vários estudos, assim como o soldado morto com o punhal quebrado nas maos.

Se fiquei três horas dentro do Reino Sofia, uma hora e meia, fácil, “gastei” com “Guernica”. E, ok, uns 25 minutos com Bunuel. Peguei numa sala o trecho final de “Lage D’or” e os 16 minutos de “Un Chien Andalou” na seqüência, afinal, (re)ver Bunuel em telao é uma oportunidade rara que nao pode ser desperdicada. Nunca. Para fechar o roteiro de museus fodacos de Madri, só faltava bater cartao no Thyssen-Bornemisza, entao comprei mais uma coca-cola e vamo que vamo.

O Thyssen é o mais variado dos três museus, contendo desde pinturas medievais até pop-art. Isso facilita demais a visita, pois vou te contar que após três salas de cubismo e surrealismo você já está vendo tudo torto, quebrado e disforme. Cansa a visao apesar da beleza das obras. No Thyssen, porém, há muito retrato, paisagem e natureza morta, coisas que nao me conquistam tanto. Porém, sempre tem coisas que valem a pena.

Na minha listinha de preferidos, “La Matanza de Los Inocentes”, de Valkenborch (aqui), “Retrato de Una Joven”, de Bordone (aqui), “El Rapto de Europa”, de Vouet (aqui), “Venus Y Marte”, de Saraceni (aqui), “Vendedora Veneciana de Cebollas”, de Sargent (aqui), “La Casa Gris”, de Chagall (imagem acima), “Sueño causado por el vuelo de una abeja alrededor de una granada un segundo antes del despertar”, de Dali (aqui) e “Portrait of George Dyer in a Mirror”, de Bacon (aqui).

O Thyssen nao é tao lotado quanto o Prado e nem tampouco baguncado como o Reina Sofia. E apesar de conter obras de Picasso, Magritte, Monet, Renoir, Degas e Van Gogh, a minha tela preferida, aquela que fiquei uns bons quinze minutos sentado apreciando foi…”Quarto de Hotel”, de Hopper (abaixo), uma delicada tela de 1931 que flagra a melancolia e a solidao de uma jovem sozinha em um quarto. Bem, tenho que arrumar as malas e, meia-noite, ir para o aeroporto. Agora, só de Paris. Nada de lágrimas ao deixar a Espanha, espero…

75 habilidades que todo homem deve dominar

July 25th, 2008

Estou com essa reportagem da Esquire espanhola (também saiu na Esquire americana, mas pelo que conferi, a espanhola traz diferencas que contam pontos) desde que desci do vôo da Vueling em Málaga, esperando uma brecha para publicar. É claro que nao vou postar as 75 habilidades (dá uma olhada na lista americana aqui), mas fiz uma selecao imperdível com… 20 (acho). Vai no espanhol mesmo, porque é divertido, mas quem tiver dificuldade com alguma palavra, clica aqui que encontraras um bom tradutor (que sempre uso):

01) Manter una conversacion entretenida
Lo peor que se puede ser en esta vida (olvida el robo, el asesinato) es un tio conazo. Eso si que es imperdonable. Si te sientan en una mesa com desconocidos, evitar hablar del tiempo, de futbol o de politica. Comenta alguna noticia curiosa que hayas leido en alguna parte e vete soltando carrete. Utiliza el humor e evita la pedanteria. No gastes tus mejores anecdotas al principio.

05) Poder citar un libro que merezca la pena
Tienes que leer mas.

06) No carbonizar las chuletillas
No nos preguntes por que, pero alguien decidio en un momento dado de la historia que los hombres somos los encarregados de asas las chuletas en los asados, barbacoas, fiestas e cumpleanos. Asume tu rol y practica. La clave esta en dejar que el carbon haga brasa.

10) Nadar con cierta coordinacion
Apuesta por un estilo y perfeccionalo. No hay nada mas triste que ver um adulto golpear violentamente el agua de una piscina.

13) Cocinar (al menos) un plato proprio
Lo mas operativo es que busques una receita muy sencilla de preparar (pasta, ensalada) y la hagas tuya dándole un toque personal. Descubriras que comerse lo que uno cocina a veces sabe delicioso.

14) Hacerse el nudo de la pajarita (imagem)

15) Conocer Youtube, Facebook e MySpace
Ya no basta con saber programar el vídeo ou recuperar los mensajes del constestador desde otro telefono (eso ya lo hacen hasta los preescolares). Ser un homo digitalis exige mucho hoy en dia.

20) Detectar cuando alguien miente
La mayoria de la gente deja escapar un tic involuntario cuando no dice la verdade: o bien mira hacia un lado o se toca el pelo o habla demasiado alto. Si consigues detectarlo, tendras mucho ganado.

23) Escuchar musica decente
Las modas van y vienen, pero los clasicos permanecen. Una coleccion digna de CDs (o de cualquier otro soporte) deberia incluir, al menos, algo de Neil Young, Lou Reed, AC/DC, John Coltrane, Bach, Dylan, Bowie, Sinatra, John Lee Hooker e Elvis (Costello).

24) Fingir interés
No, no todo el mundo tiene por desgracia, la habilidad número 1 de esta lista. Si te aburres murtalmente, que ao menos tu cara no lo refleje.

32) Retirase a tiempo
A partir de cierta edad, “tomarse la ultima” nos es siempre una buena idea. Si notas que resoplas un poco al salir del bano del bar ou notas la lengua un poco pastosa, la cama te espera, companero.

36) Acariciar el cuello de una mujer
Con la yema de los dedos en movimientos lentos y circulares

45) Freir un huevo
La parte amarilla deve quedar arriba

52) Inventar una buena excusa
La improvisacion no es nuestro fuerte. Ten siempre a tu disposicion tres ou cuatro bien trabajadas y utilizadas segun la ocasion.

54) Asistir a la opera (al menos una vez en la vida)
Si eres neofito en estos temas, decidete por una de Puccini, Verdi ou Mozart. Ni se te ocurra optar por Wagner, ou preparate para cuatro horas de interminable grandilocuencia. Olvida tus prejuicos y deja que la musica fluya por tus oidos. Acabaras repitiendo.

55) Tocar un instrumento
Cuando vez a otro tio sacar musica de un piano, de una guitarra ou de cualquer otro objeto, solo puede sentir una cosa: envidia. Intentalo.

57) Abrazar a un colega
Los abrazos entre homebres estan infravalorados y sientam de maravilla. Si hace tiempo que no ves a un amigo, abrazalo con fuerza, no te cuertes.

65) Consolar a alguien
A veces, las personas quieren simplesmente desahogarse. Asi que bastara con que escuches y prestes atencion

70) Besar bien
Solo podemos recomendarte una cosa: practica siempre que puedas.

71) Recitar un poema de memoria
En el colegio nos obligaron a aprendermos La Cancion del Pirata, de Espronceda, asi que no puede ser tan dificil.

75) Ser fiel
A tua ideas, a tu chica, a tus amigos, a tu marca preferida de cerveza, a tu equipo de futbol, a tus principios, a tus gustos esteticos, a tu viejos discos, a ti mismo. 

Plaza Mayor, Palacio Real e Museu do Prado

July 25th, 2008

Aconteceu comigo em Madri o mesmo que havia acontecido em Glasgow. Eu nao estava indo nem um pouco com a cara da cidade escocesa (na verdade, nao fui mesmo), mas assim que adentrei a parte antiga e “descobri” a Catedral, me encantei e marejei os olhos. Em Madri foi um pouco diferente, pois eu já estava gostando da cidade, mas nao estava me encontrando nela. Bastou caminhar a esmo, ver uma porta em forma de arco, e pensar: “Praca Maior!”. Assim que coloquei os pés nela, me arrepiei. Nao só por sua grandeza (ela é bem maior que a Plaza Mayor de Barcelona), mas pelo clima de festa, sons e cheiros que ocupava o pátio da praca naquele momento. De nao se esquecer.

Sentei em um canto, peguei uma coca-cola e fiquei observando o vai e vem de turistas, os músicos em formacoes inusitadas (um senhor com um acordeao acompanhado de uma senhora com pandeiro de um lado; um quarteto de violinos de outro; um loiro de uns 40 anos tocando “copos”, um violeiro, um gaitista), as estátuas vivas (as melhores que vi até agora, batendo as famosas estátuas vivas das Ramblas de Barcelona) e o dancar das luzes na praca. Voltei pro quarto pos meia-noite, e quando chego lá, adivinha: nnguém. Uns dez minutos depois chega o casal da Califórnia, se arruma rapidinho e sai. Todo mundo na balada, imagino eu, mas que nada. Ali pela 1h chega todo mundo, menos o casal, seis americanos empolgados com a cidade. Conversam animadamente até as 3h, quando caem desmaiados.

Acordo às 9h para os planos do dia: ver o Palácio Real e ir a Museu do Prado. Chego rápido ao palácio, e me impressiono com sua grandeza: ele nao cabe na foto! Considerado um dos monumentos arquitetônicos mais importantes da Europa, o Palácio Real de Madri foi inspirado nos desenhos que Bernini fez para o Louvre, em Paris.  E tem mais quartos que qualquer outro palácio europeu. Comeco o passeio pela sala de armas, e me impressiono com a riqueza de detalhes das armaduras. Na minha inocência, achava que armadura era só um pedaco de ferro projetado para proteger o corpo do cavaleiro. Que nada: eram roupas de metal com detalhes riquíssimos. E, olha, tinha que ser um animal selvagem para sustentar aquilo no corpo, e ainda segurar uma espada de sabe-se lá quantos quilos.  

Na hora de entrar no Palácio, páro de respirar, e fico assim pelas próximas duas horas. A escadaria de entrada é um deslumbre. Conta a história que Napoleao, ao colocar seu irmao no trono da Espanha e ver a escadaria, disse: “José, você estará em melhor compania do que eu”. Fiquei uns quinze minutos embasbacado tentando absorver os detalhes da obra que impressionou Napoleao, mas fácil que poderia ter passado o dia todo ali, sentado, admirando os afrescos de Corrado Gianquinto. Cada sala que surge, na seqüência, é um desbunde. Nunca tinha visto tanto ouro junto. De todas as salas, curti mais o Salao Gasparini, que Carlos III usava para se vestir (dá, fácil, duas vezes o apartamento que eu moro), e o Salao de Gala, inaugurado em 1879 para o casamento de Alfonso XII. E, claro, o quarteto de violinos Stradivarius, inacrreditável.

Para relaxar, vou ao café do palácio fazer um desjejum. Peco um lanche de jamon, queso e huevo (presunto, queijo e ovo) com uma Pepsi, e peco a um senhor bem grisalho que está sentado em uma das mesas com janela para sentar com ele. Ele é da California (mais um), e assim que solto a palavrinha mágica (”Brazil”), sorri e diz: “Rio de Janeiro”. Comecamos um bom papo, em que ele pergunta se o Brasil é tao caro quanto a Espanha. Digo que nao. Paguei 6,50 Euros no meu café da manha (o lanche e a Pepsi), o que daria uns 17 reais no Brasil. Com esse dinheiro, lá, eu comeria esse desjejum duas vezes, ou mais. Em seguida chega sua senhora, de cadeira de rodas e sorriso largo. Ele diz que sou do Brasl, ela se anima e puxa papo.

Ela quer saber um pouco do Brasil, e vou tentando falar com meu inglês que nao existe. Em certo momento digo que meu inglês é muito ruim, mas ela gentilmente o elogia e, em seguida, apresenta o neto, que deve ter uns oito anos, e está com uma camisa do Real Madrid (comprei a vermelha um dia antes). “Você é do Brasil? Gosta de futebol?”. Respondo acertivamente, e pergunto se ele gosta mais do Real Madrid do que do Barcelona. Ele diz ambos, solta um “Ronaldinho” todo mastigado, e quando digo que o jogador foi vendido pelo Barca, ele emenda com um “tudo bem, agora chegou o Messi”. Comento que ele é argentino, o guri diz que gosta da Argentina, e antes que eu cause um incidente diplomático, deixo o café (e o Palácio) desejando a todos um ótimo dia (hehe).

No Museu do Prado compro o passe especial para os três principais museus da cidade: Prado, Reina Sofia e Thyssen-Bornemisza (14 euros o pacote). Uma multidao superlota a sala de exposicao com os mestres do renascimento. Olho “O Cardeal”, de Rafael (veja), acompanhado de mais cinco velhinhas, mas simpatizo com “Federico II”, de Tiziano (veja), cujo retrato traz  o monarca ao lado de um cachorrinho fofo, “La Bella”, de Palma Vecchio (veja), “Paisaje con San Jerónimo” e o ótimo “Las Tentaciones de San Antonio”, de Joaquin Patinir. A superlotacao enche o saco, e saio da mostra especial para ir ao encontro do acervo da “casa”, que entre outras coisas possui Caravaggio, Velázquez e Goya.

Top 3 de obras do Museu do Prado: “La Maja Desnuda”, de Goya. Tanto Carlos III quanto Carlos IV quiseram destrui-la, sem sucesso. Enquanto ao lado dela, cinco pessoas observam a “Maja Vestida”, mais de vinte se amontoam para vê-la sem roupa. Pessoalmente, eu tinha receio dela tomar o lugar de Musa do Meu Coracao, posto ocupado pela La Toilette de Venus, de Boguereau (veja), exposta no lado esquerdo da entrada do Museu Nacional de Buenos Aires (estava lá nas três vezes que a vi), mas apesar de suas curvas bem alinhadas para uma dama do século XVII (ninguém sabe, ao certo, quando a obra foi feita), a Venus ainda reina.

No posto número 2, o sensacional quadro “Las Meninas” (1656), de Velázquez, em que o pintor flagra a infanta Margarita, e registra o momento em que ele mesmo a pinta (incluindo-se na obra) em um sublime exercício de perspectiva. Coisa de gênio. Liderando o ranking, com uma multidao superlotando a frente da enorme tela - nas três vezes que tentei vê-la com mais calma - tentando decifra-la, algo que divide especialistas a séculos, “O Jardim das Delícias” (1500), de Bosch. Segundo consta, é um quadro que buscava advertir sobre os prazeres terrenos, mas há mais sexo ali do que em “9 Semanas e Meia de Amor”. Fácil. O quadro é muito deslumbrante, e só nao comprei  o quebra-cabecas de 1000 pecas (11 euros) por falta de grana (tinha também “Las Meninas”, lindo).

Caminhei cerca de três horas dentro do Museu, com paradas pruma coca-cola, depois uma água, e depois uma coca e um croissant. Passei uma meia hora dentro da lojinha e, Lili, quis levar tanta coisa pra você que vou deixar você escolher no ano qe vem, ok. Senao eu nao almoco o resto inteiro da viagem. Depois de muita escolha optei pelo básico: uma ima de geladeira de um quadro de Goya. Que eu anotei, gostei das diversas paisagens do francês Claudio de Lorena, de Davi com a cabeca de Golias (Caravagio) e, ainda, “Suzana e os Velhos”, de Guercino, além de um Rembrant e diversos Goya. No final, é uma overdose de arte que, em determinado momento, você fica completamente perdido. Depois de três horas no museu saí pra rua, para respirar, e fiquei olhando a estátua de Velázquez na frente do Prado. Foda.

Ainda estou decidindo se vou ao Thyssen-Bornemisza, que funciona até às 23h, hoje, ou deixo pra amanha, junto com o Reina Sofia (e o Guernica). Este sábado promete ser um dia daqueles. Meu vôo de Ryanair, para Paris, sai do Barajas, o Aeroporto Internacional de Madri, às 5h45 da manha do domingo. Ou seja, vou dormir no aeroporto. Pretendo sair do albergue por volta da meia-noite. O metrô, em Madri, funciona até às 1h30. Quero chegar no aeroporto lá pelas 1h, arranjar um lugar pra me acomodar, e passar a noite ouvindo Leonard Cohen e Lou Reed. Sao tantas emocoes se atropelando nessa viagem que quero manter viva a chama destes dois shows inesquecíveis, por mais que eu tenha comprado a camiseta de ambos e fotografado muito. Bem, acho que “La Maja Desnuda” merece um pint de cerveja. Vou ali, pois mesmo Madri nao sendo tao quente quanto Málaga e Barcelona, está calor pra dedéu. Eu volto… com fotos.

Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta

Em Sao Paulo, ops, Madri

July 24th, 2008

Lembra no comeco da viagem, quando eu disse que Berlim era muito parecida com Sao Paulo? Esquece. Madri é Sao Paulo escrita! Cheguei de trem no terminal de Atocha, que foi desenhado por Alberto de Palácio em 1888, assistido por Gustavo Eiffel (sim, o cara da torre). No final dos anos 90, a estacao foi remodelada pelo arquiteto Rafael Moneo, e ficou que é uma beleza. Como estava com as malas, nao parei muito para apreciar e fui logo encontrar a minha linha de metrô.

Típico de turista: errei a estacao, e depois de descer seis escadas rolantes, percebi que estava indo na direcao errada. Voltei seis escadas rolantes acima, cinco estacoes para trás, e desci na Sol, estacao que dá acesso a Calle Mayor e a Plaza de La Puerta de Sol, uma Praca da República mais… agitada (se isso é possível). Saio do metrô e dou de cara com uns tiozinhos com placas de “compro oro”. Detalhe: eles vestem as mesmas jaquetinhas verde-limao que a polícia! Bizarro.

O albergue fica a 100 metros da Puerta de Sol, que muitos madrilenhos entendem como o coracao da cidade. Faco o check in, entro no quarto e sento na cama, número 8. Uma japonesinha me olha com interesse. Sorrio. Na segunda vez que nossos olhos se cruzam, ela solta: “Jennifer”. Rio. Digo meu nome, e o namorado dela também se apresenta: “Sean” (mas ele é loirinho, bem tipo americano mesmo). Os dois sao da Califórnia, e estao em Madri faz três dias.

Jennifer se interessa quando digo que sou do Brasil. E toda vez é a mesma coisa. Todo mundo sorri quando você solta a palavrinha mágica: “Brazil”. Entao eu vou e falo do Rio de Janeiro, de Salvador, carnaval, praia e samba, e digo que onde moro, Sao Paulo, nao tem nada disso. Sempre fico na dúvida sobre o que dizer de Sao Paulo. Saio toda hora com um “Crazy city”. Jennifer tem uma amiga que passou uns tempos em Sao Paulo, e gostou. E quer conhecer.

Tomo um banho e vou caminhar. Minha idéia é pegar um cineminha, filme espanhol de preferência, mas em todas as salas que vejo, só blockbusters. Uma revistinha gratuita distribuida no Burger King traz na capa a grande estréia da semana passada, “Tropa de Elite”, com um grifo enorme do New York Times: “Ninguna película había causado tanto revuelo desde “Ciudad de Dios”". Como vi a versao pirata e a versao original no Brasil, deixo o Capitao Nascimento de lado e vou procurar salas menores.

O Guia Turismo 10 + indica uma salinha na Calle de La Luna. Gostei do nome da rua, e vou até lá. A parte debaixo da calle é dedicada toda a lojinhas de bugigangas sobre filmes e séries de TV. Quase compro um bonequinho do Mr. Eko para a Lili. Subo a rua e nao encontro o cinema, caio numa pracinha, clima pesado. Vejo o cinema mais à frente, ou o que deveria ser. Fechado com milhares de cartazes ocupando a fachada. A vizinhanca nao é das melhores, e percebo que vários olhos me acompanham.

Entro em outra calle seguindo um grupo de turistas, e percebo que estou na regiáo da Rua Augusta. As primas estao todas trabalhando, e por mais que eu estranhe o dia claro, já sao quase nove da noite. É a Calle Desangano, nome bem apropriado. Quebro numa rua qualquer seguindo um tipo espanhol e caio na Gran Via, tipo a Avenida Sao Joao deles. Ali, nas travessas, a zona de meritricio avanca. Vários botequinhos, vários pessoas de má índole, comeco a achar que nao vou sair daqui, quando encontro a Calle Del Carmen, um dos pontos turísticos da cidade.

Sento num botequim para comer algo e tracar meus passos, e vou logo recorrer ao guia, procurando pela parte de “cuidados em Madrid”. Diz o guia: “Os ladroes atacam nos metrôs e nas imediacoes da estacoes Sol, Rastro e Lavapés. Carregue o dinheiro na frente do bolso, jamais nos bolsos de trás. Fique longe do distrito da luz vermelha, ao norte da Gran Via, mesmo durante o dia. Se tiver que passar pela área, demonstre seguranca e fique de olho na bolsa”. É, sem dúvida, estou em Sao Paulo. :)

Bem, o dia foi cansativo, e já é hora de dormir, nada de balada hoje. Amanha vou ver se visito alguns lugares históricos, mas vou deixar o “Guernica” para o sábado, quando o Museu da Rainha Sofia tem entrada gratuita. A grana está curta e, se bobear, fico sem dinheiro para sair de Paris. Entao, melhor economizar para o trecho final da viagem. Apesar das comparacoes com Sao Paulo, me senti bem em Madri. Cada vez mais gosto da Espanha. Vamos ver o que vou achar de Paris (chego por lá no domingo de manha) e de Londres (na outra semana), ponto final da viagem.

Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta

Ps. Olha a loucura que foi o gargarejo do show do R.E.M. no T In The Park. Michael Stipe desceu “pra galera” no meio de “The One I Love”. A música acaba, e ele manda um: “Gostei e vou ficar aqui”. E canta “Losing My Religion” inteirinha ali. O cara que filmou estava do meu lado, e amassando a Ju na menina da frente, que estava na grade. Sente o clima de um dos meus shows do ano aqui e imagina que na hora que a voz da galera sobrepor a música, eu também vou estar gritando “Michaaaaaael”. (risos)

Contra o topless

July 23rd, 2008

Título polêmico, eu sei, mas vou tentar me explicar, calma. Passei o dia inteiro na praia, e apesar de ter bebido sete latinhas de CruzCampo, cerveja de Sevilha (4,8%) distribuida pela Heineken, e ter torrado no sol das 12h às 19h, nao tenho muito o que falar, além dos assuntos que estao rodeando a minha mente nesta viagem: o choque cultural, o cheiro e os sons das cidades, uma ilha à parte do mundo chamada Brasil e outras cositas.

Bem, a troca de albergue foi muito boa! Saí de um quarto dividido com doze pessoas para um só pra mim, em uma residência de estudantes. Na boa, albergue é pra pessoas mais jovens, que estao afim de socializar e tal, e eu já estou chegando na casa dos 40. Nunca fui muito bom em socializar em língua portuguesa quando era moleque, imagine agora em inglês e espanhol. Nessa última noite, das doze camas do meu quarto no albergue, só três estavam ocupadas (eu e duas garotas que pareciam inglesas). O resto, balada.

Fiz o check in no hostel e fui pra praia. Aluguei um guarda-sol e uma esteira, levei duas CruzCampo na mochila, coloquei os fones de ouvido e apaguei ouvindo Lou Reed e Leonard Cohen sob um sol forte. Vez em quando acordava, olhava algum topless, e voltava a dormir. No fim, já meio bêbado, cheguei a conclusao que topless nao é uma coisa tao legal quanto a gente imagina. Topless intimida e, além do mais, nem toda mulher tem seios lindos para sair mostrando.

E nem é questao de beleza, sabe. É que sou partidário do fetiche da imaginacao e da sensualidade, entao, acho que um belo biquíni (bonito, provocativo) assim como um belissimo decote sao muito mais interessantes do que um topless. O homem imagina o que está por detrás dos panos e essa imaginacao rende boa parte da seducao e do romance em uma história de amor. Toda nudez deveria ser castigada (risos).

Assim, meninas, sei que o assunto é bem masculino, e até gostaria de saber em qual ponto da História decidiram que as mulheres deveriam cobrir os seios, e os homens nao, mas meu lado romântico acredita mesmo que há um componente interessante nessa coisa do desconhecido, e aprova. Entendo que as mulheres queiram queimar sutias e que todos deveriam ser iguais, mas apesar de admirar alguns topless, prefiro ficar na imaginacao.

Bom, amanha acordo, arrumo as malas, passo na tinturaria para pegar as roupas que deixei para lavar e passar, e parto para Madri, capital da Espanha, com algumas idéias em mente: quero ver “Guernica”, comer em um bom restaurante, ver um filme espanhol no cinema e sair pruma balada. Era para eu ter ido ao Matrix, em Berlim, mas me perdi após o show do Radiohead e cheguei no albergue às 3 da manha. Quero ver se, em Madri, encontro alguma balada rock and roll.

Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta

E as férias comecaram…

July 23rd, 2008

Na teoria, as férias comecaram ontem. Acordei descansado, andei de chinelos na praia de Málaga, caminhei horrores pela cidade e quase comi uma paella. Quase, mas nao tenho coragem. Na prática, só encaro os shows que esbarrarem em mim em Paris e Londres. Nada de Tom Waits em Dublin nem de Leonard Cohen em Roma (Carlos, eu cogitei), pois já fiz as contas e a grana está contada. Como era de se esperar, gastei mais do que devia, claro, mas está tudo sob controle. Dá para ver algo sem se deslocar muito. Ou de graca. E olhe lá.

Definitivamente, a Espanha é a minha cara. Amei Málaga também, mas preciso dizer que esse sol constante de 30 graus está castigando a minha pele branca. Já estou quase terminando um frasco de protetor solar, e isso nunca tinha acontecido comigo. A cidade é uma graca. Traz tracos romanos e foi território fenício no século VIII. Há escavacoes de um teatro romano (do século I depois de Cristo) no meio da cidade, e debaixo do Museu Picasso há ruínas de construcoes fenícias e romanas. A cidade é uma graca, com um centro bonito e boêmio, e uma igreja tao imensa que toda populacao da cidade deve caber dentro dela.

Isso tudo fora o Castelo de Gibralfaro, que fica no alto da cidade, data do século XIV, e brilha todas as noites sob a luz da lua. De dentro dele é possível ter uam vista maravilhosa da cidade, da Plaza de Toros abaixo e até de montanhas do estreito de Gibraltar. Aliás, lembra que eu tinha deixado um dia vago para pensar em ir a Gibraltar ou Sevilha? Desisti. Muito peso pra carregar. O problema é que o albergue que estou nao tem mais vaga, e estou indo pra outro agora, mais no centro da cidade.

Também passei pelo Museu Picasso, o primeiro museu da viagem. Como devo voltar para uma viagem mais leve e sem tantos festivais no ano que vem com a Lili (quem sabe o Fib), e sei que ela irá querer ir a muitos museus e que vamos ter um belo tour arquitetônico pelas cidades, estou focando em outras coisas. Mas como nao devemos vir a Málaga, passei no Museu do filho famoso da cidade para dar risada com suas obras hilarias. E tem uma exposicao de fotos sobre o artista que achei bem bacana.

A parte cubista tem coisas sensacionais - e divertidas - como “A Mulher com Bracos Levantados” (1936) e “A Mulher Desnuda com Gato” (1964).  Das minhas preferidas, duas: ”Claude em Marron e Branco” (1950) e “Menina com sua Boneca” (1952). É possível ver a maioria da colecao no site oficial do Museu Picasso Málaga (aqui). Ainda quero ver o “Guernica” em Madri e passar um dia inteiro no Louvre, vamos ver. Agora sao 10h aqui, 5h no Brasil. Sol forte. Vou trocar de albergue agora, voltar pra praia e conferir a agenda de shows em Paris de 27 a 30 de julho, e Londres de 01 a 06 de agosto. Passagens devidamente compradas. :)

Cervejas

01- Duvel (Bélgica) 8,5%
02- Leffe (Bélgica) 6,5%
03- Voll-Damm (Espanha) 7,2%
04- Mahou (Espanha) 5,5%
05- Kostriker (Alemanha) 4,9%
06- Orval (Bélgica) 6,2%
07- Amstel (Espanha) 5,0%
08- San Miguel (Espanha) 5,0%
09- CruzCampo (Espanha) 4,8%
10- Tennents (Escócia) 4,5%

Cidades
01- Barcelona (Espanha)
02- Leuven (Bélgica)
03- Berlim (Alemanha)
04- Málaga (Espanha)
05- Glasgow (Escócia), Bruxelas (Bélgica) e Bournemouth (Inglaterra)

Shows

01- Leonard Cohen (Benicàssim)
02- Radiohead (Berlim)
03- Lou Reed (Málaga)
04- Morrissey (Benicàssim)
05- R.E.M. (T In The Park)
06- Pogues (T In The Park)
07- Sigur Ros (Benicàssim)
08- Neil Young (Werchter)
09- The National (Werchter)
10- Spiritualized (Benicasim)
11- Grinderman (Werchter)
12- Vampire Weekend (Werchter)
13- American Music Club (Benicàssim)
14- Raconteurs (Benicàssim)
15- The Hives (Werchter)
16- Babyshambles (Benicàssim)
17- British Sea Power (T In The Park)
18- Richard Hawley (Benicàssim)
19- Sons and Daughters (T In The Park) 
20- The Verve (Werchter), Gossip (Werchter), Nada Surf (Benicàssim), Ben Folds (Wertcher), The Kills (Benicàssim), The Ting Tings (T In The Park)

Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta

Lou Reed em Málaga

July 22nd, 2008

 

Acordei na segunda-feira destruído. Fisicamente e emocionalmente, mas o tempo é curto e tinha muita correria pela frente. Dez quilos de bagagem nos bracos mais 18 quilos nas costas, e lá vamos nós para a estacao de trens. A viagem de Castellon para Barcelona foi ok. Lembra que eu tinha só seis minutos entre desembarque, comprar passagem e embarcar em outro trem? Entao, rolou. O que eu nao contava era com… um congestionamento de malas de rodinhas no El Prat, o aeroporto internacional de Barcelona!!!!!

Era uma multidao de gente querendo entrar no aeroporto e uma multidao de gente querendo entrar no trem, o que causou o “congestionamento”. Sério. Agora imagina: eu tinha 15 minutos pra fazer o check in, e fico quase 10 parado numa situacao surreal dessas? Assim que o congestionamento se desfez, fui procurar o guichê da Vueling, companhia barateira que faz vôos nacionais na Espanha. O guichê deles ficava no quinto dos infernos do aeroporto, e lá vou eu correndo com quase 30 quilos de bagagem. Cheguei quando já anunciavam: “Última chamada do vôo para Málaga”.

Em Málaga, os termômetros do aeroporto Pablo Ruiz Picasso, ilustre filho da cidade, marcavam 32 graus. Pela primeira vez na viagem tive que recorrer a um taxi, após vagar a esmo tentando encontrar o albergue, sem sucesso. Detalhe: nem os taxistas sabiam onde ficava o lugar. Liga pra cá, pergunta ali, e encontramos (e nem é fora de mao nem nada, vá entender). Tentei achar uma internet, mas só há “peluquerias” na regiao. Quando achei um locutório, um e-mail da producao do show de Lou Reed avisava que haveria um atraso:

“Estimado Usuario: el concierto de LOU REED previsto para hoy día 21 de julio de 2008 a las 21.30 horas ha sido retrasado por necesidades de producción, dada la complejidad del montaje, el espectáculo comenzará a las 22.00 horas, media hora más tarde de lo previsto inicialmente. Si tiene alguna duda adicional, por favor póngase de nuevo en contacto con nosotros.” Nao tem jeito, primeiro mundo é outra coisa…

Fui caminhando do albergue até o Teatro Cervantes, para observar a paisagem e me apaixonar pela cidade, e cheguei ao teatro cinco minutos antes do show. Pessoalmente, nao achava que esse show iria me abalar tanto quanto o fim de semana, mas entao eu entro no teatro, lindo (lembra o Theatro Municipal de Sao Paulo, mas é menor, com 1104 lugares, e mais charmoso), datado de 1870, e vejo que o meu lugar, fila 1, cadeira 18, é realmente de frente ao palco: nao dava para acreditar. Precisei beber uma cerveja no saguao para ajustar os ânimos.

Quando a organizacao mandou o e-mail falando da “complexidade da montagem”, nao estava brincando. O cenário é belo, com um sofá de três lugares pendurado no teto simbolizando um decadente quarto de hotel, a New London Childrens Choir (coral infantil com doze criancas) do lado esquerdo do palco, sete membros da London Metropolitan Orchestra do lado direito, mais a banda com sete integrantes - incluindo Steve Hunter, guitarrista original do álbum - e, claro, o próprio Lou Reed. Ou seja: estamos diante de uma ópera rock!

“Berlin”, lancado em 1973, foi o terceiro disco solo de Lou Reed após sua saída do Velvet Underground, e vinha na seqüência do sucesso conquistado pelo single “Walk On The Wild Side” e pelo disco “Transformer”, um ano antes. Seguindo a mesma temática do hit, porém, afundando as cancoes num dramático lodo orquestral, Lou fotografa a depressao romântica de um casal drogado na Berlim (Oriental) ainda dividida pelo muro. Ela (Caroline) acaba, por fim, cortando os pulsos. Ele (Jim) lamenta a perda daquela que ele acreditava ser a sua Rainha da Escócia.

O show que comemora 35 anos de lancamento do disco comeca com Bob Ezrin, produtor do disco, subindo ao palco. Ele fala um pouco da apresentacao, lembra que Málaga é o encerramento da turnê, e chama Lou Reed ao palco. Lou entra de camiseta qualquer nota vermelha. Ele está aparentemente bem mais velho do que da última vez que o vi, em 2001, no Credicard Hall, mas ostenta ainda aquela cara de poucos amigos que fez sua fama. Ele pega sua Fender, olha para o coral e as criancas comecam o show cantando a melodia de “Sad Song”. Arrepia.

“Berlin”, a música, comeca suave com seus clássicos dedilhados de piano que contemplam a felicidade do casal. Guitarradas marcam a entrada de “Lady Day”, e aqui o coral de criancas e a orquestracao encantam. “Men of Good Fortune” (aquela que diz que “os homens de sorte, muitas vezes, provocam a queda de impérios”) surge com Steve Hunter estracalhando na guitarra e o bom backing de Jeni Muldaur se destacando. “Caroline Says (I)” causa o primeiro momento de histeria na platéia, mas é com a linha de baixo de “How Do You Think It Feels” - numa versao chapante - que o teatro quase vem abaixo.

Em nenhum momento, Lou Reed se dirige ao público. Ele sorri para Steve Hunter e o baixista Fernando Saunders em alguns momentos, após alguma boa passagem instrumental e e só. Quando, em “Oh, Jim”, ele leva a cancao sozinho na guitarra (com Steve fazendo pequenos solos), o público tenta acompanhar nas palmas, mas ele muda o andamento, quebra o ritmo, e o público se perde. A versao, no entanto, é poderosa, e marca a passagem do disco (lado b) e do show para a parte trágica da história do casal.

“Caroline Says (II)” surge numa versao fantasmagórica, com Saunders tocando violino enquanto Lou narra a degradacao do romance. Jim bate em Caroline, que nao pára de se drogar, e é apelidada pelos amigos como Alaska. “Está tao frio no Alaska”, canta Lou e as criancas no final do cancao. “The Kids” é… foda. Foda. Lou repete o verso inicial várias vezes aumentando a tensao sob uma base limpa de violao: “Eles tiraram os filhos dela, porque, dizem, ela nao é uma boa mae”. Jim está cansado e nao está mais feliz.

“The Bed” é de chorar. Canta Lou: “Este é o lugar onde ela deitava a cabeca quando ia para a cama à noite / Este é o lugar onde concebemos os nossos filhos, velas acesas iluminavam o quarto / Este é o lugar onde ela cortou os pulsos naquela estranha e fatídica noite”. O coral de criancas intervem no trecho “oh, oh, oh, oh, oh, oh, what a feeling” e é preciso ter muito sangue frio para nao se deixar levar e se emocionar. “Sad Song” retorna para fechar o show com toda sua tristeza em forma de orquestracao rock and roll.

Após mais de dez minutos de incessantes pedidos de bis, Lou retorna ao palco e fala sobre o disco, apresenta as mais de 30 pessoas envolvidas, e comeca um improviso de guitarra que se transforma em ”Satellite of Love”. “Rock and Roll”, do Velvet, vem na seqüência. E “Power Of The Heart”, cancao inédita disponível para download no site Cartier. Love (vá na barra do menu, clique em Love Music, espere aparecer a foto de Lou Reed e baixe aqui) encerra a noite de gala. Já se passaram da meia noite, mas volto para o albergue caminhando, olhando a luz da lua e admirando a beleza da cidade. Esse show me trará sempre a Málaga. Durmo feliz.

Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta

FIB 2008, Domingo

July 21st, 2008

Eu juro que nao estava preparado emocionalmente para o que iria acontecer no último dia do Festival Internacional de Benicàssim, edicao 2008. Juro. Se eu conseguisse ter imaginado que tudo que aconteceu fosse realmente acontecer, talvez até tivesse medo de ter um infarto fulminante em meio ao público, sacumé, tem coisas que o coracao pode nao aguentar mais. O coracao, neste momento, ainda bate. O corpo está um caco e nao sei se me recuperei emocionalmente ainda. Vamos ver…

Acordei às 13h para postar o texto do sábado e ir tentar almocar com o pessoal do Alto Falante. Cheguei no hotel e ainda deu tempo de ver o Nelsinho Piquet subir no podium com o Felipe Massa (vou te falar que o Galvao Bueno espanhol fala muuuito mais do que o nosso), se preparar para o almoco (hamburguer, fritas, salada e cerveza) e rir das histórias dos mineiros (”Esse pueblo de Lula es muy confuso”). Os próximos programas prometem, especialmente o gravado em Abbey Road.

Uns quinze minutos de caminhada e um sprint de 200 metros pra nao perder o comeco do show e lá estou eu novamente frente ao The National, que numa tenda sob um sol de sabe se lá quantos graus (muitos) apresentou suas pérolas românticas doloridas movidas a guitarradas, teclados atmosféricos e violino. O show foi um repeteco da brilhante apresentacao no Werchter, semanas atrás, com “Baby, We’ll Be Fine”, “Fake Empire”, “Mistaken For Strangers” e uma estracalhante versao de “Mr. November” fechando a noite de sol. A “noite” só estava comecando.

Pontualmente às 20h, Leonard Cohen adentrou ao palco do festival com os dez personagens que transformam em música suas letras/poesias. Olha, é difícil demais falar sobre esse show. Uma senhora emprestou um lenco para a Juliana enxugar as lágrimas no show de Edinburgh, na quarta anterior. Alguns dias antes, o Carlos falou sobre a apresentacao que ele viu em Amsterda: “O Carlos que vc conheceu no Rock Werchter nao existe mais, agora existe o Carlos pos show do Cohen”. Esses sentimentos sao muito mais do que música, transcendem algo que nao sei dizer ao certo o que é.

Pra você ter uma idéia, 20 minutos após o show terminado eu ainda estava chorando. A Carol falava: “Calma, respira fundo”. E as lágrimas vinham. Fora os flashbacks horas depois quando eu lembrava do show: “Vou ligar pra Lili pra contar” (e da-lhe lágrimas). “Como vou explicar o que foi “Hallelujah” ao vivo?” (mais lágrimas). Sinceramente: eu nunca tinha sentido o que senti ontem na frente de Leonard Cohen, e depois que ele saiu saltitando do palco após apenas uma hora de clássicos.

Comecou com “Dance Me To The End Of Love”, e algumas senhoras presentes murmuravam: “Essa é a música do meu primeiro amor”. Depois veio “The Future”, valsa do disco homonimo apropriada para apresentar o poeta aos incautos com versos como “I’ve seen the future, brother: it is murder”. E o que falar de coisas como “Bird on a Wire”, “Everybody Knows”, “Who by Fire”, “Suzanne” (com Cohen ao violao), “I’m Your Man” e “First We Take Manhattan”? Nao se fala. Se ouve. Chora. E eu chorei.

O dia já estava ganho, o ano já estava ganho, mas o FIB 2008 ainda reservava surpresas guardando como “brinde” shows de Richard Hawley e Morrissey (que festival é esse em que um show de Morrissey vem como brinde?????). O guitarrista britânico Richard Hawley, que já tocou com o Pulp de Jarvis Cocker no álbum “We Love Life”, levou para a tenda Vodafone todo charme e bom gosto dos fifties, com baladas encantadoras e rockabillys contagiantes. O visual nao deixava dúvidas numa mistura de Roy Orbison e Elvis Presley, e o show foi ovacionado pelo público que lotou a tenda.

Já Morrissey, você sabe. Ninguém vai num show dele esperando ouvir essa ou aquela música. As pessoas até gostariam de ouvir os hits, mas elas vao mesmo a um show de Morrissey para ver Morrissey. Simples assim. O que ele tocar, está valendo. Entao, comparar o repertório do show no FIB com aquele que vi em Buenos Aires quatro anos atrás é uma tremenda bobagem. Morrissey é o show.

Quer ver: ele entra no palco (com os cinco integrantes de sua banda sem camisa e com jeans preto colado no corpo) e sacaneia: “Spanish eyes, olhem para mim. Vocês querem que eu fale espanhol? Eu vou falar argentino (sic), português, francês, mas nao vou falar espanhol”. Ele abre com “Last Of The Famous International Playboys”, e finada a cancao, tenta convencer o público: “Benicàssim, eu estou aqui”. A música, na seqüência, faz todo mundo duvidar: “Ask”, dos Smiths, aquele riff mastigado, aquela bateria galopante. Será mesmo?

Seguem-se “First Of The Gang To Die”, “That’s How People Grow Up” (”a” música de 2008) e “Irish Blood, English Heart”. Ele volta ao microfone: “Eu sei que as bandas pop espanholas sao um lixo, mas tudo bem, as bandas pop inglesas também sao, e isso nao importa pois.. “The World Is Full Of Crashing Bores”". Ataca o consumo de “animais mortos” no festival, e filosofa: “Garoto namorando garota, garota namorando garoto, garota namorando garota, garoto namorando garoto: tudo é possível”.

Dos Smiths ainda marcaram presenca “Vicar In A Tutu”, “What She Said”, “Stretch Out And Wait”, uma versao fodaca de “Death of a Disco Dancer” e “How Soon Is Now?”, fechando a noite após um cover de Buzzcooks (”You Say You Don’t Love Me”) e “Life Is A Pigsty”, um dos melhores números do álbum “Ringleader Of The Tormentors”. Faltou um mundo de músicas, mas ele próprio, mais do que ninguém, sabe que suas duas camisas arremessadas ao público vao se transformar em centenas de pedacinhos que vao ser guardados como um prêmio por cada uma daquelas pessoas. Ele é Morrissey, e pode tudo.

Eram duas da madrugada e ainda tinha Siouxsie e Viva La Fete no palco principal, mas eu nao tinha as mínimas condicoes físicas e emocionais para seguir em frente. The National, Leonard Cohen, Richard Hawley e Morrissey, numa mesma noite, e em seqüência, arrebenta com o coracao de qualquer um. Até ouvi, de longe, “Hong Kong Garden”, mas o festival já tinha acabado - ao menos para mim. Lágrimas ainda escorriam vez em quando pelo rosto. A lembranca do dia perfeito já comecava a se cristalizar na memória. Nunca fui tao feliz após um show. Agora é dancar até o fim do amor, pois é assim que as pessoas crescem.

Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta

FIB 2008, Sábado

July 20th, 2008

O dia em Benicàssim comeca depois das 14h. É quando a comunidade branquela do mundo (eu incluso) e alguns poucos morenos acorda e abarrota as praias do balneário procurando um lugar para… dormir (e as meninas, fazer topless). Perdi o trem das 14h30 de Castellon para Benicàssim (assim, cheguei até a entrar no vagao, mas estava na dúvida se era aquele mesmo ou se eu estava pegando um trem para o sentido contrário. Era aquele) e tive que encarar a viagem de ônibus, que geralmente derruba o freguês de sono. Me desencontrei do pessoal do Alto Falante, enconstei em um bar na orla, estiquei as pernas na cadeira e… três Amstel de um litro (cerveja de Sevilha) e eu já estava pronto para o ritual: capotar na praia.

Arranjei um lugar “limpinho”, fiz da mochila e dos chinelos meu travesseiro, coloquei o relógio para despertar às 18h e sonhei com anjos. Acordei às 18h20 e só nao perdi o The Ting Tings pois o show atrasou. Quando coloquei o pé direito na tenda, Katie White e Jules De Martino entraram no palco. Era um dos primeiros shows do dia, 18h40, solzao no alto, e o local estava abarratodo (repetindo a loucura do T In The Park). O duo novamente fez uma boa apresentacao, com algumas criancas na platéia e clima de festa adolescente. “That’s Not My Name” (que bateu no número 1 da parada britanica), “Shut Up And Let Me Go” e “Great DJ” incendiaram a tenda.

Primeira grande comida de bola da viagem: finado o show do Ting Tings, eu, Renata e Carol procuramos um lugar pra armar o boteco e esperar o próximo show. Enquanto isso, para uma tenda com 1/4 de sua lotacao (ou seja, vazia), Jon Spencer levava ao FIB seu projeto paralelo de rockabilly Heavy Trash. Eu bebendo cerveja na grama e Jon Spencer - sem barba e de terninho - mandando ver no barulho na tenda FiberFib. Das coisas que acontece quando o line-up tem mais de 110 nomes confirmados. Pena. Mas vi meia hora de José González (aquele show bonito que a gente já conhece) e três músicas do Brian Jonestown Massacre (eu esperava mais do Anton; acho que o ótimo documentário “Dig!” superestimou a banda).

De volta a tenda FiberFib, novamente com pouca gente, estirei-me no chao a dez passos da grade e vi a performance do American Music Club inteirinha jogado. O vocalista e guitarrista Mark Eitzel (foto abaixo) tira um faca cravada no peito a cada novo número trazendo as cancoes lá do fundo do amâgo, onde você nao acredita que alguém consiga buscar emocao. Eitzel é daqueles caras que poderia ficar rico vendendo honestidade em frasquinhos de 5ml, e o reconhecimento veio no pedido de bis, o primeiro que vi neste festival, mas que o pequeno público fez questao de pedir, e ganhou como presente a pungente e arrepiante ”All My Love”, em versao comovente, de congelar a espinha. Puta show.

 Por falta do que ver, tive que encarar um show inteiro do My Morning Jacket. O Thiago, do Alto Falante, definiu bem: “Eles sao até legais em disco, mas em show abusao do rock burrao”. Tem até guitarra flying V. Era isso ou ver Tricky. Fiquei matando tempo até à meia noite, quando Alison VV Mosshart e Jamie Hince entraram no palco do Main Stage. Assumo: se eu nao fosse casado (e ela também), eu pediria a Alison em casamento. Fácil. Ao contrário de Paula Toller, Alison é daquelas mulheres que solos de guitarra podem conquista-la. Ok, nao sao os solos do Kid Abelha, mas sim do The Kills, uma usina de barulho movida a bateria eletrônica e guitarradas. O show, no entanto, foi inferior ao do Campari Rock 2005, e terminou de forma abrupta como um coito interrompido. Alison gosta de partir coracoes e ir embora sem dizer adeus.

Depois de troca-los por Grinderman, na Bélgica, e The Pogues, na Escócia, finalmente me vi frente a frente com o Raconteurs. Jack White conseguiu montar uma banda de garagem com todos os clichês do gênero (para o bem e para o mal). Tem longos improvisos e jams que na maioria dos momentos enchem o saco, mas quando a banda engata a quinta marcha, sai debaixo. Nenhuma música surge tal qual foi gravada em álbum. Eles recriam tudo, e em várias passagens se superam, caso da versao arrasa-quarteirao de “Steady, As She Goes”, mas nao é o show da vida de ninguém. Sao simplesmente quatro bons músicos declarando paixao e devocao pelo barulho. “Many Shades of Black”, com Brendan Benson comandando, foi um dos grandes momentos, mas muita coisa boa do primeiro disco ficou de fora em detrimento de faixas medianas do segundo. E vamos combinar: Jack White e Michael Jackson podem sair de maos dadas no quesito brancura.

A noite ainda teve Gnarls Barkley (que abriu o show com a festejada cover dos Violent Femmes, “Gone Daddy Gone”) tocando seu álbum de reggae dos anos 2000 (com direito a cover do Radiohead, “Reckoner”, do “In Rainbows”) e sanduiche de bacon com chourizo (aprovado) acompanhado de duas Jake and Coke. Quando cheguei no hotel, o relógio marcava quase sete da manha, e eu precisava descansar, afinal este domingo é o grande dia do FIB 2008: na agenda Leonard Cohen e Morrissey. Amanha, correria: às 9h embarco de trem para Barcelona. Chego às 11h42 e saio correndo do vagao para comprar uma passagem de trem para o aeroporto (11h55), onde preciso estar até 12h35, horário final do check in do vôo para Malága, na Andaluzia, onde tenho encontro marcado com Lou Reed às 21h. Torce por mim. Vai ser muuuuita correria.

Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta

FIB 2008, Viernes

July 19th, 2008

Almocei cerveja na sexta-feira, segundo dia do Festival Internacional de Benicàssim. Fui encontrar o pessoal do Alto Falante, que está em um hotel de frente para o mar - e para as européias de topless - na própria Benicàssim (invejaaaaa - risos), e quando cheguei eles tinham acabado de almocar e fomos para um bar ao lado que vendia cerveja (Heineken) a 1 euro. Chamei pelo garcom duas vezes, para pedir uma tortilla de jamon (omelete de presunto), e ele nao veio, entao tive que me contentar com a cerveja como almoco.

A primeira coisa que fiz ao entrar no FIB foi ir direto comer um taco numa barraquinha de comida mexicana. Facada: 10 euros, mas valeu, estava bem bom. E estou eu lá, no meio do prato, quando cola uma menina ao lado: “Você fala inglês ou espanhol?”. E eu: “Nem um nem outro, mas diga”. Ela: “Cara, estou com muita fome, você pode me dar um pouco da sua comida?”. O nome dela era Roxanne, era francesa e depois de duas garfadas cujo sabor deu para perceber em seus olhos se despediu: “Como se diz bon appetite em português?”

Já tinha acontecido algo assim no primeiro dia, antes mesmo de eu pegar a pulseira do festival. Do lado de fora, uma barraca vendia copos de cerveja de 1 litro por 6 euros. Com o sol a pino, decidi encarar. Uma inglesa colou em mim no balcao e desembestou a falar. E eu: “Calma, calma, devagar”. E ela: “Você é alemao? Fala inglês?”. E eu: “Mais ou menos”. E ela: “Legal, você me entende. Me empresta 2 euros para eu comprar um kebab?”. O atendente, espanhol, comentou: “Você devia ter dito que nao sabia falar inglês”. (risos)

Roxanne, a francesa, estava ali para ver Pete Doherty. Os portoes para o palco principal foram abertos quinze minutos antes do show, e assim que cheguei perto a vi colada na grade. É interessante observar o fascínio que esse moleque provoca em seu público. Ele preferiu trocar uma das bandas britânicas mais fodas do anos 00 pelo vício em drogas. Depois, deixou uma das modelos mais cool do mundo ir embora. Mas ele continua, chapéu enfiado na cabeca, batida na guitarra marca Mick Jones e pose blasé. Para a infelicidade dos detratores, Pete Doherty está bem vivo.

O show é correto no jeito Pete Doherty de ser: ele emenda uma cancao na outra através de riffs clashianos preguicosos que parecem que vao se desmanchar no ar, mas de repente embalam e revelam uma grande cancao. Ao vivo, as músicas do fraquíssimo primeiro álbum crescem e empolgam e as poucas cancoes boas do segundo álbum, ”Shotter’s Nation”, ficam de fora, com excecao da ótima ”Delivery”. O show nao dura nem 40 minutos, mas a banda sai ovacionada após uma versao incendiária de “Fuck Forever”, num daqueles momentos pra nao se esquecer.

O New York Dolls vem na seqüência abrindo, de cara, com “Looking For a Kiss” para incendiar a galera. O show, no entanto, é calcado muito mais no repertório do álbum de 2006, “One Day It Will Please Us to Remember Even This”, do que na dobradinha clássica “New York Dolls”/”Too Much Too Soon” (1973 e 1974, respectivamente). E nao é só David Johansen que está igualzinho ao Mick Jagger: a própria banda escarra Rolling Stones por todos os poros. Bom show, e só.

Enquanto o Hot Chip abria a noite na tenda FiberFib, o público comecava a dolorosa separacao: uma parcela para o Vodafone Club que iria receber o Spiritualized e outra (maior) para o Escenário Verde, dito palco principal, que iria abrigar as loucuras guitarreiras de Kevin Shields e seu My Bloody Valentine. Apesar do jornal valenciano El Mundo definir o show do My Bloody como “os setenta minutos mais intensos dos 14 anos do FIB” (leia aqui), só consegui ver o número final, “Soon”, fodido, e um casal tapando os ouvidos criando uma cena divertidissima.

Só vi o número final pois enquanto Kevin Shields tocava seus clássicos do inferno, eu estava ajoelhado frente a Jason Pierce, que estava convertendo novas almas com seu Spiritualized. O núcleo central do show sao as cancoes do sensacional “Songs In Accident and Emergency” (traduzindo: “Cancoes de UTI”) que formam um núcleo de fazer o corpo levitar: “Soul On Fire”, “Sweet Talk” e ”Sitting On Fire” sao de chorar. Mas é com a versao arrepiante da clássica “Come Together” que Pierce faz um estrago violento no coracao dos presentes. Daqueles momentos que você pensa: “Eu nunca mais vou ser o mesmo depois disso!”.

O show foi curto, quarenta minutos, mas serviu para me deixar completamente descoordenado. Sai da tenda Vodafone em estado de transe total e embora a noite ainda prometesse com Róisín Murphy e Mika, o único destino após um show do Spiritualized é o céu, que para mim pôde ser transferido para um banho de três horas na banheira do hotel, tentando entender o que tinha acontecido debaixo da lona daquela tenda do FIB. Assim, melhor nao falar mais nada. Mesmo porque nao tenho mais palavras. Foi foda. Basta.

O terceiro dia do FIB promete: tem o Ting Tings, José González, The Brian Jonestown Massacre, American Music Club, My Morning Jacket, The Kills, Tricky, Raconteurs e Gnarls Barkley às 3 da manha. Vou ali pegar uma praia, beber alguns litros de cerveja e tentar comer uma paella, mas eu volto. Eu acho…

Fotos da viagem e dos shows: http://www.flickr.com/photos/maccosta