Entrevista: O dream pop australiano do Heligoland

entrevista por Leonardo Vinhas 

Se você está chegando agora no universo musical, talvez o rótulo dream pop lhe soe estranho. O estilo foi praticamente inventado pela banda escocesa Cocteau Twins (1979 – 1997), e a combinação de camadas de guitarras somadas a vozes femininas etéreas, muitas vezes também tratadas em camadas e efeitos, foi parte importante da paisagem sonora do pop nos anos 1980. E ainda que nunca tenha se tornado um estouro massivo, deixou seu legado ao longo das décadas seguintes.

A banda australiana Heligoland é uma das que melhor avança esse legado, honrando as raízes do estilo sem se prender a elas. Nascida como um quinteto em 1999, hoje é um duo composto por Karen Vogt (voz e guitarra) e Steve Wheeler (baixo e guitarra). Há alguns meses, lançaram seu quarto álbum, “This Quiet Fire” (2021). Seu antecessor, “All Your Ships Are White”, fora lançado em 2010, e nesse intervalo de 11 anos lançaram três EPs.

Como os EPs, “This Quiet Fire” foi produzido por Robin Guthrie, que integrou os Cocteau Twins e foi um dos principais responsáveis por sua sonoridade única. Não à toa, há momentos no disco em que o Heligoland soa como um Twins mais conciso e contemporâneo. Porém, o duo tem um diferencial importante: enquanto a música dos escoceses era mais “aberta”, centrípeta, os australianos têm uma perspectiva centrífuga, uma introspecção completa, o que muda bastante as letras, o clima e a estrutura das canções.

Guthrie e o ex-Heligoland Dave Oliffe assumiram diversos instrumentos para a gravação, que contou ainda com a participação da pianista Jolanda Moletta em “Trinity”. Isso gerou um clima de familiaridade que colabora para que o álbum seja uma experiência auditiva acolhedora. Por e-mail, Karen Vogt respondeu às perguntas do Scream & Yell com uma sensibilidade e autoconsciência que não são comuns mesmo em artistas que, como ela, têm mais de 20 anos de estrada. Papo bonito, que você pode começar a ler agora.

https://heligoland.bandcamp.com

O que os trouxe de volta após mais de 10 anos sem lançar álbuns?
Depois que lançamos nosso disco anterior, “All Your Ships Are White” (2010), começamos a trabalhar em um projeto escrevendo e gravando uma série de EPs em diferentes locações pela França. Para começar, essa não foi uma decisão verdadeiramente consciente, mas depois que fizemos o primeiro EP, “Bethmale” (2012), achamos tão divertido fazer desse jeito que decidimos seguir pelo mesmo caminho. Sempre tivemos em mente fazer outro álbum em algum momento, mas as coisas simplesmente rolaram desse jeito. Olhando em retrospecto, acho que foi realmente uma boa ideia fazer esses discos, que são mais experimentais para nossos padrões. Também é verdade que não somos exatamente o tipo de banda que tende a soltar música nova continuamente, sempre fomos mais circunspectos a esse respeito. Tentamos levar tanto tempo quanto sentimos que cada lançamento necessita. Cada um desses três EPs parece um mini-álbum para nós. Sempre soubemos que queríamos fazer outro álbum, mas ao longo do caminho encontramos outras ideias e maneiras diferentes de escrever canções que queríamos explorar. Todas essas experiências foram realmente proveitosas e nos deram uma inspiração fresca quando começamos a trabalhar nas canções que se tornaram “This Quiet Fire”.

Qual é a sensação de fazer esse retorno em um mundo que está de cabeça para baixo por causa da pandemia da Covid-19, com os shows ainda incertos e a experiência de ouvir música tendo se individualizado mais que nunca?
Tudo parece muito surreal e imprevisível. É também difícil de fugir do sentimento de estar desconectada de muitas formas: de amigos, da família e dos jeitos familiares de fazer e vivenciar as coisas. Num momento desses, parece realmente importante tentar se conectar cada vez mais com as pessoas. Tantas coisas que tínhamos como certas antes da pandemia estão agora inacessíveis ou pararam por completo, os shows ao vivo são apenas um exemplo. Talvez a coisa mais difícil de aceitar seja toda a incerteza sobre o que futuro pode reservar. Cada vez que a situação parece melhorar um pouco, muito rapidamente ela retrocede e mais problemas aparecem. Como musicista, é muito difícil saber o que pensar sobre isso tudo, Ou mesmo a melhor maneira de responder [à situação como um todo]. Por outro lado, fazer música não parece de forma alguma importante quando você pensa em todas as pessoas afetadas pelo vírus, seja por terem adoecido ou perdido amigos ou familiares. Mas a música pode também oferecer algo às pessoas em situações realmente difíceis. Às vezes, a música pode fornecer algum grau de confiança e conforto. Por mais sobrecarrega e negativa que a situação possa parecer por vezes, tenho tido a sensação de que é importante continuar trabalhando com música para tentar fazer algo novo e compartilhar. São tantas pessoas vivendo e trabalhando em isolamento, em diferentes graus, mas também há a sensação de que há mais pessoas estendendo as mãos umas às outras. Tanto “This Quiet Fire” quanto o EP experimental que lancei no ano passado, “I Just Want to Feel”, foram compostos antes da pandemia, mas eles também refletem questões de comunicação e conexão. Ideias desse tipo se tornaram muito importantes neste estranho mundo em que estamos vivendo.

O som do álbum é incrível, especialmente no tratamento do baixo e das guitarras. O quanto disso veio pela colaboração com o Robin Guthrie?
Ver e ouvir o Robin mixar nossas canções sempre foi uma das melhores partes de trabalhar com ele. Ele pega todos os elementos e ingredientes e os coloca juntos, posicionando de modo que cada uma das guitarras ou cada um dos baixos tenha seu próprio espaço na mixagem, mas ainda assim seja parte do som como um todo. A maneira como ele põe em camadas todos os sons significa que, a cada vez que você ouvir a canção, você pode encontrar detalhes e pequenos toques para apreciar. É um processo realmente intrincado e cuidadosamente orquestrado. Quando se trata das guitarras, não é preciso dizer que ele sabe exatamente como pegar todas as partes e tratá-las de tal modo que cada uma delas têm sua própria sonoridade, quase sempre bem diferente uma da outra, mas elas ainda vêm com esse sentimento de que todas fazem parte da mesma coisa. É realmente incrível assistir como ele mixa nossas canções.

Trabalhar em duo teve algum impacto no processo criativo da banda? A impressão é de que isso te encaminhou a assumir a frente na composição.
Ao longo dos anos, eu fui gradualmente me tornando mais confiante no que diz respeito à composição e agora eu me sinto muito mais confortável explorando esse caminho sozinha. Eu acho que isso adiciona um caráter levemente diferente às canções. Tendo feito esse disco e trabalhado em uma série de projetos colaborativos nos últimos anos, me sinto agora muito mais inclinada a perseguir uma ideia para uma canção a deixá-la de lado simplesmente porque não é algo que apareceu enquanto estávamos todos tocando juntos. A vasta maioria de nossas canções sempre foi composta dessa forma: ficávamos todos na mesma sala tocando juntos e começávamos a improvisar, seguindo um ao outro e vendo onde a ideia levaria. Minha atitude provavelmente mudou um bocado neste ponto: agora eu tento seguir meus instintos e focar no que uma ideia pode se tornar, e não penso mais tanto sobre o processo no qual ela surgiu. Nos últimos anos eu também fiquei cada vez mais envolvida com gravações domésticas e agora eu tenho meu setup com microfones, software, e tudo mais. Isso significa que quando eu tenho uma ideia, posso gravá-la eu mesma e começar a explorar, tentando sacar como ela pode soar e onde pode chegar.

A música que o Heligoland faz é um convite à introspecção, à escuta atenta. Mas a relação das pessoas com a música é diferente hoje em dia. Celulares estão longe de oferecer alta fidelidade, ou mesmo proporcionar uma boa experiência auditiva. Você sente que existe uma desconexão também entre o modo como vocês fazem música e o modo como as pessoas a escutam?
Essa é uma pergunta difícil. Por um lado, eu adoraria que todo mundo pudesse ouvir nossa música em fones de ouvido muito bons e curtir todos os detalhes, especialmente todos os pequenos toques da produção e mixagens que o Robin trouxe. Parte disso inevitavelmente se perde com esses plugues de ouvido, dependendo do que mais estiver acontecendo ao redor. O modo como eu ouço música reflete a maneira como eu cresci: com discos. Eu amava ouvir álbuns do começo ao fim, ficando totalmente imersa no som e na música. A música não era algo que eu via como um som de fundo. Mas isso tudo mudou e agora as pessoas realmente apreciam a música em toda sorte de maneiras possíveis, e em diferentes lugares. Seria maravilhoso se as pessoas fizessem uma imersão no álbum que fizemos, mas eu prefiro que elas optem por fazer isso por elas mesmas. É algo completamente fora do nosso controle. E isso não é necessariamente uma coisa ruim. Nosso novo álbum “This Quiet Fire”, é esse tipo de disco que é bastante pessoal e intimista, então é natural que imaginemos que as pessoas preferem ouvi-lo em isolamento. Mas sinto que há variedade e profundidade suficientes nas canções de modo que as pessoas podem se conectar com elas de maneiras diferentes, e em diferentes situações. Às vezes, recebo mensagens de pessoas que falam sobre como havia espaço suficiente nas canções para que elas pudessem adicionar seus próprios pensamentos e sentimentos. Isso implica que elas puderam se ligar às canções à sua própria maneira. Isso é algo muito importante para mim, e estou sempre tentando deixar esse espaço para que as pessoas possam desfrutar da música de jeitos diferentes.

Quais são os planos de curto e médio prazo para promover “This Quiet Fire”?
Além das versões físicas – em CD, vinil e cassete – também lançamos dois vídeos para coincidir com o novo disco. Espero que ainda venhamos a ter pelo menos mais um ou dois. Idealmente, adoraríamos fazer um vídeo para cada canção, mas isso é pedir muito, seria um projeto grande demais para levar adiante. A outra razão pela qual estamos tão focados nos vídeos é porque não podemos tocar ao vivo neste momento. Sem chances de shows ou sessões para rádio ou qualquer outro tipo de performance ao vivo, fazer vídeos talvez seja o melhor jeito de ajudar a espalhar a palavra sobre a música. Tivemos uma sorte incrível com os realizadores que fizeram os vídeos de “Palomino” e “Hera.” Esses dois vídeos me parecem duas contrapartes realmente maravilhosas para as canções. Em um sentido geral, o objetivo é simplesmente fazer tudo o que podemos para ajudar a música a encontrar seu caminho atè as pessoas que podem curti-la ou descobrir algo por elas mesmas nas canções. Isso me parece o máximo que você pode esperar de qualquer disco, e é uma parte enorme do porquê eu faço música.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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