Música: Valerie June e as mulheres que cantam com lobos

 texto por Luiz Espinelly

O ano de 2021 está sendo bem produtivo para Valerie June: em março a jovem cantora e instrumentista lançou seu terceiro álbum, “The Moon And Stars: Prescriptions For Dreamers” (pela Fantasy Records, label indie de Los Angeles), e em abril seu primeiro livro, “Maps for the Modern World” (via Andrews McMeel Publishing). As duas obras são independentes uma da outra, mas conversam um pouco entre si ao apresentar as formas como June tenta entender o mundo e encontrar equilíbrio para sobreviver com alguma leveza por meio de sua arte.

“The Moon And Stars” apresenta uma nova etapa na jornada da cantora. Se o grande trunfo de “The Order Of Time” (2017), seu disco anterior, foi mixar bem as influências de música americana mais tradicional, como folk, Appalachian music e o soul de Memphis, sua cidade natal, com as vivências urbanas da artista, que mora no Brooklyn, musicalmente o terceiro disco dá continuidade a esse diálogo entre tradição e contemporaneidade com maior ousadia, explorando psicodelia, R&B e afrobeat, flertando com batidas eletrônicas até então inéditas em seu repertório.

Essas novidades são cortesia da produção de June com Jack Splash (Kendrick Lamar, Alicia Keys, John Legend) – bem representadas na bonita faixa “Smile”, em que sopros e órgão hammond da Stax fazem um blend legal com uma batida eletrônica típica dos anos 2020’s, enquanto versos como “All I could do was smile” revelam a melancolia tão conhecida por quem enfrenta a dor de amadurecer na era Trump, pero sin perder la ternura e a esperança jamais, como “I’ll make it through somehow” complementa.

Um dos pontos altos do disco é a participação de Carla Thomas em “Call me a Fool” (que já ganhou esse clipe acima), em que a rainha do Soul de Memphis simbolicamente passa a coroa para a nova geração, em uma balada bem tradicional e muito bonita na qual June canta sobre suas cicatrizes com orgulho por não perder a sensibilidade.

“The Moon And Stars: Prescriptions For Dreamers” mostra que o lirismo de Valerie June segue afiado, investindo em temáticas caras para boa parte de seu público, antes bem explícitas em faixas como “Astral Plane”, que seguem sendo desenvolvidas aqui. Nessa mandala a cantora costura Clarissa Pinkola Estés, tarot, meditação e natureza. Não sei se a cantora de Memphis leu a série das “Parábolas”, de Octavia Butler, em que a protagonista Lauren Olamina é uma jovem negra que diante dos horrores de um mundo distópico cria e apresenta a possibilidade de um novo mundo, mirando as estrelas em busca de sobrevivência, mas Valerie June fez a trilha perfeita para essa narrativa (e também para a nossa), que anuncia a utopia e força necessárias para persistir até no título do disco.

O disco ainda traz “Colors” e “Why The Bright Stars Glow” como faixas de grande potencial, que podem agradar a ouvintes de Michael Kiwanuka e Benjamin Booker, mas para além dos possíveis hits, há um conceito permeando “The Moon And Stars: Prescriptions For Dreamers”, que faz do disco algo como pílulas para sobreviver aos nossos dias. Estou consumindo em altas dosagens e até o momento não notei sinais de contraindicações. Faça o teste por aí.

Luiz Espinelly, professor de literatura e guitarrista da Josephines: https://josephines.bandcamp.com/

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