Entrevista: Les Responsables

por Marcos Paulino

Uma banda de rock gaúcha que apresenta letras exclusivamente em francês parece algo um tanto surreal, certo? Não para quem já conhece Les Responsables, que está lançando seu primeiro disco, “La Vaporisation”, pela Sol Discos.

À parte certo estranhamento inicial pelo idioma em que as 10 faixas são cantadas, o álbum deve agradar aos fãs do rock cru, sem firulas e poses, que andava meio sumidão, hibernando à espera de uma brecha na já longeva onda emo.

Erwan Pottier, sociólogo que deixou Paris para fazer um doutorado em Porto Alegre, montou Les Responsables em 2006, depois de conhecer o baixista Felipe Faraco, o guitarrista Pedro Pastoriz e o baterista Luciano Bolobang.

Com a fama até agora mais restrita ao sul, a banda vem conquistando espaço em São Paulo, onde já se apresentou algumas vezes, e até em outras plagas, após ter músicas incluídas na trilha da série “9mm”, exibida no Brasil pela Fox. Mas a banda quer ir além. Nesta entrevista exclusiva ao PLUG, parceiro do Scream & Yell, Erwan, além de matar algumas curiosidades sobre Les Responsables, deixa claro que a banda quer desbravar novas fronteiras.

Há várias bandas de rock brasileiras que cantam em inglês, mas, em francês, talvez só Les Responsables. É bom ser diferente entre tantos iguais?
É bom ser feliz, gostar do nosso trabalho e ter eco no público, na mídia. A bem da verdade, não tem só Les Responsables que canta em francês no Brasil. Tem umas bandas que fazem incursões no francês, mesmo no rock. E tem outros cantores mais pop que também fazem música em francês. Mas claro que Les Responsables é só em francês, pelo menos até agora. Não descarto poder fazer uma incursão no português ou no inglês mais pra frente. A gente está compondo novas músicas com o objetivo de um segundo disco. Por enquanto, porém, está tudo em francês.

O que a banda mais tem de francês e o que mais tem de brasileiro?
Não sei. Talvez tenha de brasileiro a energia do rock sem complexo e, de francês, o charme do idioma misturado com uma certa ousadia. De brasileiro, talvez tenha essa energia do movimento antropofágico de Oswald de Andrade, devorar as culturas exógenas e incorporá-las como se fossem brasileiras. É bem possível que no futuro o Brasil tenha uma grande banda ou cantora de música francesa, como teve no rock com Os Mutantes, no metal com o Sepultura…

Numa banda mezzo gaúcha, mezzo francesa, as influências devem ser as mais diversas, certo? Que inspirações fazem a cabeça de vocês?
A gente tem influências, sim, do som predileto de cada um, que vai do rock inglês dos anos 60 ao rock americano atual, passando pela canção francesa pós-guerra até o movimento yéyé, o derivado francês do iê-iê-iê. Cada integrante gosta dos mais variados tipos de música.

O rock francês é um ilustre desconhecido no Brasil. Isso dificulta a repercussão do trabalho de vocês?
Não sei bem. Talvez o rock francês nunca tenha sido o destaque da música francesa, apesar de existir das formas mais variadas. No rock tradicional, quando a gente pensa em Justice, Daft Punk, Nouvelle Vague, tem muitas bandas francesas que o público não identifica como francesas, pois têm influências muito variadas. O problema é que cantores franceses que fazem um som bem francês não tocam muito aqui. De vez em quando a Globo passa uma música francesa na novela e basta.

Você trocou Paris por Porto Alegre. Como essa experiência influenciou as suas composições?
Basicamente, isso me libertou para experimentar, tocar um som sem medo de julgamento. É um processo bem natural, no Brasil, de montar uma banda, um projeto musical. Os músicos se encontram bastante, têm bandas que estreiam a cada semana. Os músicos experimentam diferentes projetos. Por isso, fiz um projeto, o Gainsbourg, com o King Jim dos Garotos da Rua, e apesar de ser bem diferente do som do Les Responsables, foi uma preliminar, que me libertou também, pois tem apelo por música francesa aqui. Enfim, a influência principal é que o público brasileiro quer se divertir em shows, então vem se divertir. Mas, na França, o público em geral começa a julgar antes do início, reclama e não se solta.

De onde vêm os personagens que habitam suas letras?
Ah, vêm da minha imaginação, e de uma mistura de uma vivência pessoal e outra vendo o que a gente pode ver nos outros.

Vocês têm a pretensão de se tornarem conhecidos além das fronteiras porto-alegrenses?
Já somos conhecidos até São Paulo, com certeza. A mídia fala da gente, o clipe passa na MTV nacional. Tocamos em São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre e tem nosso primeiro disco à venda no Brasil inteiro.

Indo mais além: é possível que Les Responsables faça o caminho contrário que você fez e encontre seu lugar na França?
Quem sabe! Seria fantástico tocar nos Estados Unidos, Japão, Europa. Mas, para achar nosso lugar na França, precisaríamos estar lá para mostrar nosso som ao vivo, que é a força principal da banda. No palco, é assim que bandas conquistam seu espaço. Mas a gente está bem aqui, muito bem. Mas quem sabe se a França não é um país do futuro?

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira

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