Entrevista: Trisomie 21

Por Danilo Corci

Você já ouviu falar no Trisomie 21? Talvez sim, talvez não, mas o que importa de verdade é que a banda chega aos seus trinta anos de carreira sendo ainda uma influência gigantesca para bandas da nova geração. Pensar no som do She Wants Revenge, por exemplo, é ver que, muito antes desta nova onda dark eletrônica que vem recrudescendo, já havia um bastião criando pequenos clássicos, como “Djakarta”.

Por isso o lançamento de “Black Label”, o 14º álbum da carreira do grupo é importantíssimo. Oficialmente formado em 1980 pelos irmãos Herve e Phillipe Lomprez, então com dezoito e vinte anos, respectivamente, o Trisomie 21 sempre foi o rei do underground. Enquanto as massas ignoravam completamente a existência da banda, aqui no Brasil, por exemplo, o T21 era uma das presenças obrigatórias nas festas do Madame Satã e congêneres. Obviamente, não tardou para que a banda fosse rotulada de “gótica”. Mas longe do gótico tradicional, o Trisomie 21 pode ser visto do jeito correto: fazem música do jeito deles – Phillipe é engenheiro de som e professor de música.

E “Black Label” desponta como uma das grandes surpresas dos lançamentos de 2009. Enquanto bandas veteranas como Depeche Mode e U2, por exemplo, entregam um feijão com arroz amanhecido, o Trisomie 21 não renegou sua história, mas criou um disco completamente atual, um rock Trisomie 21. “Isso é fruto de uma coesão. O T21 são dois irmãos, é uma fórmula boa, temos uma coesão perfeita, cumplicidade. E tínhamos em mente de criar algo mais do que simplesmente música. Nós queríamos um estilo Trisomie 21, uma visão do mundo. Nós precisávamos disto.”, explica Phillipe em uma conversa via e-mail.

E a decisão parece ser realmente séria, afinal eles se juntaram à Chrome Music, selo que tem bandas do naipe de Front 242, depois de anos de independência. “Tínhamos de ficar concentrados no disco, não somos vendedores, precisávamos de ajuda.”, diz Phillipe justificando o contrato que caiu como uma bomba para os fãs. “É uma honra pra gente quando as pessoas nos falam sobre influências e sobre serem fãs, mas não deixamos isso nos influenciar. A única pressão que existe, de fato, é a nossa.”, afirma.

Porém, a chegada de “Black Label” mostra que a decisão foi acertada. “The Camp”, canção que abre o disco já dá uma amostra do que está por vir. Rock calcado em baixo, com a peculiar voz de Phillipe entrecortando os acordes, criando uma mistura que antigamente faziam usando bases sintetizadas. “De certa maneira, o baixo pra gente é bem importante. Em “Million Lights” não usamos, mas para o “Black Label” o som do baixo e da guitarra é espetacular, meio triste. Foi complicadíssimo, fizemos uma engenharia e tanto para criar sons específicos, um trabalho duro de estúdio.”, diz Phillipe.

“Glistering Like Gold”, a segunda canção, é ainda mais pungente. E repleta de tristeza, dolorida até, que faz a voz de Phillipe soar, de certa maneira, embargada enquanto o baixo se sobrepõe. “Talvez a tristeza seja bela sim, mas em “Black Label” isso não acontece o tempo todo.”, diz um duvidoso Phillipe quando o assunto é melancolia, algo que sempre marcou a carreira da banda. “‘Glistering Like Gold’ é sobre que nem tudo o que reluz é ouro, é uma mensagem sobre políticos, especialmente aqui na França, onde alguns fazem miragens, não milagres.”.

Isso fica ainda mais evidente em “Shakespeare”, quarta canção, uma espécie de simulacro do rock do Sisters of Mercy dos tempos áureos com pitadas críticas. “Não tem nada de gothic rock na canção. Fizemos do nosso jeito, como sempre. É apenas uma declaração política do nosso estilo, com pequenas frações literárias.”, diz secamente.

As onze canções que compõem “Black Label” são mágicas, do tipo de unidade que sempre foi característica da banda. “É difícil explicar porque não é simples. Sentimos a atmosfera que nos cerca, processamos isto com nossos sentimentos e usamos isso para criar música. Isso nos leva a usar guitarras, baixo, bateria ou samplers. Tudo depende do momento. Expressamos nossos sonhos”, explica Phillipe sobre a unidade do disco e também da carreira da banda.

Sim, é um processo único. Se nos três primeiros discos da banda existiam sempre uma segurança de saber o que viria, isso mudou nos discos seguintes e está muito presente em “Black Label”. “One Minute In The Dream World”, “Outside The Door”, “Angels of Rain” e “Shadows Army” mostram isto. Continua sendo um rock, mas é outro tipo de rock. Os elementos estão ali, mas foram processados por Herve e Phillipe Lomprez.

Retornando aos fãs, “Black Label” tem ainda mais um componente: talvez seja o disco mais acessível do Trisomie 21. “Sim, talvez seja nosso disco ‘mais fácil’, mas como digo, sempre há maneiras diferentes de se ouvir o disco.”, responde. Esta enigmática resposta não mostra necessariamente concessões, mas aponta, sim, que o Trisomie 21 está de olho no que acontece.

“O jeito de faze arte tem um pouco a ver com isso. A visão artística das coisas está por aí, é um poder sem fronteiras, foge do controle do artista, o processo criativo é um renascimento, um novo começo. O mundo está mudando, nós precisamos mudar, mas nossos valores devem permanecer.”, explica em tom de justificativa. Isso significa que Phillipe está ouvindo várias coisas novas? Não necessariamente. “Eu e o Herve não ouvimos muita música. É o de sempre. Alguns DJs como Jack, de Marselha, Caretta, DJ Mini, Timo… E bandas como Adult, Convenant, Front 242 sempre caem bem.”.

Talvez este passado seja encontrado em canções como “Hear Me Now”, “Sadness Forces”, “Half a Drop” e “The Lined Hands of Afternoon”, as que mais flertam com toda a história do grupo. “Black Label” é emblemático. É um fino exemplar de que quando se deixa a preguiça de lado, bandas das antigas podem soar revigorantes e espertas, com algo novo a dizer. E tudo isso sem planejar o futuro. “O futuro é agora, o futuro é Black label.“, encerra Phillipe numa tentativa de frase de efeito. Mas no fundo, ele está mesmo certo.

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Danilo Corci é jornalista e editor dos sites Speculum e Mojo Books

4 thoughts on “Entrevista: Trisomie 21

  1. Caramba! Nunca imaginei ler sobre o Trisomie aqui no SY. Grande Surpresa. Vou atrás desse disco. Fiquei curioso. Sempre gostei muito das músicas deles, porém me decepcionei horrores com o show no Brasil. Pobre demais. karaokê demais….Já bandas como o Depeche Mode sabem fazer como ninguém e se tornam imbatíveis nesse quesito, em se falando de bandas eletrônicas…

  2. Pingback: [FiberOnline]
  3. Sensacional matéria + entrevista! O Trisomie 21 é ótimo, uma banda íntegra e que sempre lança bons discos. Não concordo muito, porém, como que foi dito sobre o Depeche Mode (“feijão com arroz amanhecido”? tem certeza disso? Vc pode até não gostar dos útlimos discos, mas não tem nada ali de mofo oitentista ou coisa do tipo). No mais, parabéns pela matéria.

  4. Black Label é um bom disco! mas não é um dos melhores, aprendi a amar esta banda justamente por ela ser diferente de tudo o que eu já tinha ouvido! a primeira vez que ouvi “See in the Devil in me”;”La Fête Triste” e “Ill se Noie” sabia que era uma obra de arte singular, feita por gente muito talentosa e criativa, pude ver o T 21 ao vivo em 2009 e fiquei orgulhoso disso, mas quanto ao “Black Label” só posso dizer que é um belo disco, que mostra outra faceta de Lomprez, mas que para mim soa comum demais para uma banda que fazia dos samples um instrumento quase desplugado tamanha era as antíteses complexas e minimalistas que permeavam suas canções de dimensões inimagináveis!

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