Ao vivo em SP, Roberto Carlos mostra que continua cafona, kitsch e adorável

texto por Marcelo Costa
fotos por Fernando Yokota

Elizabeth II, a Rainha Elizabeth, nasceu em 1926. Roberto Carlos, o Rei, é de 1941. Apesar dos 15 anos de diferença, a sensação para nós, pobres mortais, é de que o reinado desses dois ícones da cultura pop existe desde sempre, que eles estão aí desde que o mundo é mundo enfrentando todas as intempéries da História – e te dizer que não foram poucas, viu – enquanto colecionam triunfos que honram suas coroas tanto quanto “deslizes” que mancham o currículo, ainda que não tenham lhes custado seus reinados. No caso do Rei, impressiona como as gerações passam e ele permanece. Julio Barroso, Cazuza, Renato Russo, Cassia Eller, Sabotage, Chorão, Lobão… a lista dos que brilharam e se foram é enorme, e Roberto, mesmo parado no tempo, segue em frente.

Em 2022, Roberto segue na estrada com uma turnê que repassa 65 anos de carreira, e sua primeira noite na capital paulista, diante de um Vibra São Paulo (ex-Credicard Hall), completamente tomado (cerca de 4 mil lugares com ingressos de R$ 100 a R$ 820 e suítes de até R$ 12 mil – com 15 lugares) surgiu marcada pela expectativa de sua postura diante do público após o desentendimento com um fã em um show no Rio, semanas antes, algo que o Rei tirou de letra, avisando nos primeiros minutos da apresentação: “Não fiquem tímidos em receber as rosas… Aquilo foi um momento especial e o que eu disse não foi para a plateia, mas para o cara que estava aqui (em frente ao palco). Eu fiquei bravo, e quando eu fico com ‘reiva’, porra” (risos gerais).

A noite havia começado minutos antes com a RC9, a banda do Rei, tocando sozinha “Como É Grande o Meu Amor Por Você” (1967, com citações de diversos clássicos do homem, como “Detalhes”, “Cavalgada” e “É Preciso Saber Viver”) em ritmo de festa de formatura. Os arranjos big band datadíssimos inspirados em Frank Sinatra aliados ao visual impagável de terno azul quase bebê dois números maior com camisa estrategicamente aberta na altura do peito peludo dão ao espetáculo um inescapável sotaque cafona, kitsch, mas basta Roberto assumir o microfone, soltar um suspiro e falar: “Quero dizer uma coisa pra vocês… muito simples… mas importante: ‘Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo’” para que o coração bata mais forte e os olhos marejem.

Lançada em 1981, e tocada nos finais de ano da TV Globo (e nas rádios) nos 40 anos seguintes, “Emoções” surge robusta, com arranjo big band impecável perfeito para comover a ala grisalha do ambiente (e ela deve ser, na base do chutometro, uns 80% da casa). São cinco minutos longuíssimos. “Como Vai Você” (1972) vem na sequência, com arranjo duvidoso de teclado emulando cordas fazendo a cama para a voz perfeita do Rei, mastigando delicadamente cada palavra. Ao final, ele dá a deixa para que o público finalize a canção, mas é surpreendido com o silêncio (pelo jeito, o pito no fã carioca deixou os paulistas ressabiados), mas ele insiste e consegue uma forte adesão (a cena irá se repetir algumas vezes na noite).

“Além do Horizonte” (1975) surge em ritmo de jazzinho abrindo caminho para um dos grandes momentos musicais da noite, que Roberto apresenta assim: “Essa é uma das grandes verdades que já falei nas canções que fiz com meu irmãozinho Erasmo”: a fodaça “Ilegal, Imoral ou Engorda” (1976) surge em arranjo de metais grandioso com Roberto levantando os ombros no “engorda” do refrão, o que o torna uma espécie desajeitada de Hulk azul. O show segue num crescendo com a intensa “Você em Minha Vida” (1976), em ótimo arranjo, que Roberto confessa ser inspirada numa frase que ele leu de Frank Sinatra (“Meu mestre”) sobre seu maior amor: “Ava Gardner foi o melhor e o pior da minha vida”, teria tido Sinatra.

O piano preenche o ambiente com as notas clássicas de “Detalhes” (1971), o público urra, afinal estamos diante de uma das maiores peças românticas da música brasileira de todos os tempos, que surge aqui num arranjo delicado, que vai crescendo aos poucos, de maneira bela. O transe é interrompido pela melosa “Desabafo” (1979), que ao final traz Roberto pedindo para que só os homens cantem a última frase… “na hora que você quer”, porque, segundo ele, “nós, os caras, sabemos que nunca é na hora que nós queremos”. Isolda é saudada em “Outra Vez” (1977), que é daquelas canções que a gente aprende a cantar antes mesmo de falar, mas quem se destaca no momento é uma fã que encaixa um berro de “Eu te amo” no meio de uma pausa da letra, e é retribuída pelo Rei: “Eu também te amo”.

Roberto, então, homenageia a mãe em “Lady Laura” (1978), e a mãe de Jesus em “Nossa Senhora” (1993), que será a canção que terá o coro mais efetivo do público em toda a apresentação. Se o Estado é laico, ou deveria ser, o show de Roberto não é, e nem tem que ser, mas a constatação do coro encobrindo um repertório tão poderoso deixa um incomodo gostinho ateu na ponta da língua (rezarei 10 Ave-Maria depois de terminar o texto, prometo). Roberto deixa o palco, e a banda se diverte num longo improviso de “O Calhambeque” (1964) com todo mundo solando em longos sete minutos até que o homem volte ao microfone e engate a terceira. “Olha” (1975) rende outro momento curioso: na hora que Roberto canta a frase “a cabeça cheia de problemas”, uma mulher grita “sou eu”, no que o Rei emenda, para risos gerais: “Você também?”.

O arranjo big band não casa tão bem com a beleza de “Fera Ferida” (1982), mas funciona a perfeição em uma das músicas mais cruéis de todo o repertório de Roberto e Erasmo: “Por cavalheirismo, por elegância, até mesmo por ética, nunca vou poder dizer para quem eu fiz essa canção”, avisa o Rei antes de arrepiar com os primeiros versos de “Sua Estupidez” (1969), talvez a canção mais raivosa e violenta sobre o fim de um relacionamento. O show poderia ter acabado aqui e, na verdade, acabou, porque as concessões ao material mais “recente” são puro desperdício com a graciosa “Mulher Pequena” (1992) e a dispensável “Esse Cara Sou Eu” (2012), batizada 10 anos atrás como a “Melô do Stalker”, ocupando espaço precioso no set list.

Ainda há tempo para a gainsbourgniana “Cavalgada” (1977) em arranjo com guitarra presente e show de luzes antes do momento “’garoto’ enxaqueca” do Rei na atualidade: bastam os primeiros acordes de “Como É Grande o Meu Amor Por Você” (a música das rosas nas turnês anteriores) para que grande parte do público se levante e parta afoito para a beira do palco. Roberto, incomodado, comenta: “Vocês chegaram mais cedo. A hora (das rosas nessa turnê) é em ‘Jesus Cristo’”, ele diz, sério, e continua (com a música rolando): “Esqueci de avisar, mas vocês sabem, né”, para se dar por vencido: “Tá bom, hoje passa, desde que vocês fiquem quietinhas aí”, diz, repreendendo por antecipação. Nitidamente, o amor que era grande diminuiu nos últimos shows. “Jesus Cristo” (1970) surge e, com ele, a multiplicação dos buques de rosas (até a hora do jornalista deixar o recinto tinham sido oito, e contando). Ainda teve fã que ficou sem

Em duas horas redondas de um raro show em tempos atuais sem manifestação política por parte do público (será que ele é? será que eles são?), Roberto Carlos mostrou porque continua sendo um dos maiores entertainers da música brasileira (senão o maior). Com um repertório essencialmente setentista, época em que ele deixou de ser o “roqueiro da Jovem Guarda” para se tornar o “amante a moda antiga” de milhões de brasileiras (e brasileiros), marcado por arranjos Las Vegas, o Rei segue na estrada – e, de vez em quando, em alto mar – mostrando clássicos, ouvindo de “eu te amo” a “gostoso” e “casa comigo” enquanto, controladamente enfurecido, distribui rosas (ainda sem espinhos, ainda!). Sua monarquia continua sendo um dos grandes eventos da música brasileira.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/

2 thoughts on “Ao vivo em SP, Roberto Carlos mostra que continua cafona, kitsch e adorável

  1. Devo dizer que eu iria, sim, num show de Roberto Carlos, pra agradar minha mãe. Adoro suas composições roqueiras. Adoro Caetano Veloso em “Verdade Tropical” dizendo que Gal Costa seria uma “super Wanderléa” e precisava de Roberto e Erasmo no repertório para isso. Roberto é figura midiática importantíssima para o pop nacional. Não existiria Tropicália sem Roberto. Não existiria Anitta sem Tropicália. Né?

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