Entrevista: Aline Cléa e Anderson Soares falam sobre as Oficinas Cine Arts e sobre a Itaparica Film Commission

entrevista por João Paulo Barreto

À frente da produtora Cine Arts, responsável pela criação de diversos filmes nos formatos de curtas e longas metragens, além de séries de TV, a produtora Aline Cléa e o diretor Anderson Soares seguem alimentando paixões pelo audiovisual feito na Bahia. Além do foco na criação em produtos cinematográficos e para o entretenimento doméstico, Aline e Anderson estão à frente da Cine Arts Oficinas de Cinema, TV e WEB, que, começando novas turmas neste segundo semestre, trará de forma gratuita aulas destinadas às pessoas interessadas na formação nós diversos setores do audiovisual.

As oficinas já com inscrições abertas são as de Roteiro; Realização Audiovisual; Produção Audiovisual; Interpretação para TV e Cinema; Direção de Fotografia e Captação de Som; Direção de Arte; Produção de Impacto e Marketing; Montagem e Finalização; Acessibilidade Audiovisual e Animação 2D e 3D. Os encontros vão acontecer de modo presencial e on line. Aline, que já havia conversado com o Scream & Yell em 2021 por ocasião da 5ª edição do ANIMAÍ – Encontro Baiano de Animação, evento também produzido pela Cine Arts, traz aqui, junto a Anderson, um apanhado de todas as atividades que a nova leva de oficinas cinematográficas vai trazer.

A principal novidade fica por conta da parceria entre a produtora Cine Arts e a prefeitura de Itaparica, região localizada na Baía de Todos os Santos. O órgão local promoverá a criação da Itaparica Film Commission. “Chegou até a prefeitura de Itaparica nossa proposta de criação dos cursos. Foi a partir disso que o órgão público criou a Itaparica Film Commission em parceria com a Cine Arts. A ideia é que a produtora entre com a sua experiência em formar profissionais para o mercado e Itaparica traga toda a infraestrutura necessária e a parte da logística para que os estudantes tenham todo o apoio”, explica Aline.

Vivendo na Ilha de Itaparica desde 2020, quando buscaram por um local mais afastado da grande metrópole por conta da pandemia, Aline e Anderson trazem no projeto muito do afeto que criaram pela região. O diretor explica: “Será um espaço fixo na ilha de Itaparica focado em atrair filmes da Bahia, do Brasil, do Nordeste e do mundo. Essa ideia de ter a ilha de Itaparica como um espaço para se produzir filmes é algo muito promissor e nos apetece muito”, pontua Anderson. Nessa entrevista com o Scream & Yell, eles aprofundam a iniciativa!

Como surgiu o Projeto Cine Arts Oficinas de Cinema na Ilha de Itaparica?
Aline Cléa – Durante a pandemia, fomos morar na Ilha de Itaparica para tentar ter mais qualidade de vida diante do isolamento social. Isso foi possível porque estávamos trabalhando e estudando de forma remota. Foi aí que começamos a conhecer a realidade dos municípios de Itaparica e de Vera Cruz. Principalmente agora que será construída a ponte que vai ligar Salvador a Itaparica. Pensamos: “Estamos em um lugar que não tem sala de cinema, não tem teatro e que, nos próximos cinco anos, terá um desenvolvimento social e econômico que talvez ainda não possamos mensurar”. Foi aí que pensamos em trazer o Projeto Cine Arts Oficinas de Cinema para a Ilha e começamos a captação de recursos. O principal objetivo é oferecer dez oficinas profissionalizantes e gratuitas às comunidades dos municípios de Itaparica, Vera Cruz e Salinas da Margarida, podendo alcançar, também, outros municípios vizinhos. É um público que dificilmente teria uma oportunidade de ter acesso a conhecimentos tão específicos da cadeia produtiva do mercado audiovisual. Tudo isso em um formato que pretende atuar com uma metodologia que une teoria e prática, visando o preenchimento de trabalhadores do audiovisual e cobrindo toa a cadeia. Isso vai desde a produção, distribuição até a comercialização de produtos audiovisuais voltados para TV, Cinema e Web.

E na trajetória da produtora Cine Arts, esse formato de oficinas já vem de longa data, correto?
Anderson Soares – Sim. A Cine Arts Oficinas de Cinema começou em 2002 como pesquisa para a área audiovisual, em particular a cinematográfica. Ela surgiu de uma necessidade para criar filmes, trazer discursos, contar histórias. Mas montar uma equipe de cinema naquela época, no começo dos anos 2000, era bem difícil. Os colegas tinham cachês altos. Era difícil particularmente para se montar um projeto mais autoral. E como todo mundo na área, naquele momento não tínhamos recursos para fazer investimentos em projetos, tudo era muito mais difícil de se concretizar, encontramos na formação uma solução: formar essa mão de obra que se tornaram em muitos momentos nossos parceiros, criando uma rede inicial de realizadores para investir de forma justa nas histórias que iríamos contar. Mas, claro, com o intuito, também, de criar esse mercado. Inicialmente foi tudo muito difícil até encontrarmos o caminho certo, começamos nas escolas públicas, trabalhando com jovens. Também fomos para algumas escolas particulares, quando começamos a desenvolver isso. Mas logo percebemos que não é exatamente o perfil. Porque, como desenvolvemos uma formação técnica profissionalizante, precisamos de um público que está alçando voos mais altos visando mesmo o mercado de trabalho. Foi aí que decidimos formatar o projeto de outra forma e se iniciou todo o processo como Cine Escola. Mas, alguns anos depois, resolvemos fazer o Cine Arts, e foi quando veio essa parceria com a Universidade do Estado da Bahia (UNEB), que é quando ela entra como um projeto de pesquisa e extensão. Nós nos associamos a alguns professores e a alguns grupos de pesquisa e começamos a desenvolver isso. Mas somente alguns anos depois, em 2008, que a Cine Arts Oficina de Cinema teve, realmente, sua primeira edição. Foi possível devido a um edital da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult), com o qual fomos contemplados. Esse processo deu início entre uma cooperação interdepartamental com a UNEB e a PROEX fazendo tanto a pesquisa como extensão, bem como dando a chancela do projeto. Nesse primeiro formato, nós tínhamos sete oficinas e beneficiávamos por volta de 300 pessoas. As oficinas tinham mais alunos e cada uma funcionava uma vez por semana. Desse processo, nós fizemos 16 curtas metragens porque tínhamos 4 unidades. De lá saiu um piloto de série que depois se tornou o “Pequeno Gigante“. Depois fizemos mais seis versões. Na verdade, mais seis versões que, junto com essa, chegamos a sete edições.

E nesse formato atual, como se dará a divisão referente às oficinas e temas?
Aline – A princípio, serão nove oficinas com 240 vagas: Roteiro; Interpretação para TV e Cinema; Realização Audiovisual; Produção Audiovisual; Direção de Arte; Direção de Fotografia e Captação de Som; Produção de Impacto e Redes; Acessibilidade Audiovisual além de Montagem e Finalização. Como verificamos que o nosso público também é um público jovem e conectado, conseguimos incluir mais uma Oficina: Animação 2D e 3D, oferecendo mais vinte vagas totalizando 240 vagas oferecidas ao público. Acredito que com esta iniciativa teremos uma base estruturante para formação de postos de trabalho e renda nos municípios envolvidos, acompanhando o desenvolvimento das comunidades locais com a construção da ponte Salvador – Itaparica. A ideia é que o público possa estar preparado para atender demandas de produções próprias, como também absorver produções vindas de fora da cidade.

A partir dessa proposta de criar as turmas de formação em audiovisual entre os moradores de Itaparica e adjacências, como a ideia do pólo cinematográfico, a Itaparica Film Commission de desenvolveu?
Aline – Chegou até a prefeitura de Itaparica nossa proposta de criação dos cursos. Foi a partir disso que o órgão público criou a Itaparica Film Commission em parceria com a Cine Arts. A ideia é que a produtora entre com a sua experiência em formar profissionais para o mercado e Itaparica traga toda a infraestrutura necessária e a parte da logística para que os estudantes tenham todo o apoio. Eles estarão presentes nas aulas teóricas, mas também nas atividades práticas. Nessas atividades, traremos a produção de doze curtas-metragens como trabalhos de aprendizagem e de conclusão das oficinas. Para isso, teremos o apoio do Sebrae por meio de qualificação e consultoria para empreendedorismo e gestão de carreira. Também teremos o apoio do SATED (Sindicato dos Artistas e Técnicos da Bahia) para conduzir os formandos a tirar seus registros profissionais. Além disso, contamos com o Instituto Vale do Rio Doce como patrocínio do projeto por meio da Lei de incentivo à Cultura Federal, tornando possível mantermos um corpo de profissionais qualificados e um parque tecnológico de equipamentos de filmagem top de linha à disposição da aprendizagem.

Anderson – Isso. A Itaparica Filmes é um convite da prefeitura de Itaparica para que a produtora Cine Arts possa administrar esse projeto. Aqui eu já vou usar um termo que eles preferem, o Itaparica Filmes. Porque com “Film Commission”, a comunidade artística local tem uma rejeição de qualquer nome que seja em inglês. E como a prefeitura de Itaparica já sabe dessa rejeição ao estrangeirismo, a essa ideia de trazer palavras em inglês para o nosso cotidiano, eles a chamam de Itaparica Filmes. Será um espaço fixo na ilha de Itaparica focado em atrair filmes da Bahia, do Brasil, do Nordeste e do mundo. Essa ideia de ter a ilha de Itaparica como um espaço para se produzir filmes é algo muito promissor e nos apetece muito. A ilha tem condições muito significativas para a produção audiovisual. Primeiro, é uma cidade pacata. Ela tem duas entradas, algo que, digamos assim, traz mais segurança a uma produção cinematográfica, por propiciar maiores condições de controle de entrada e saída da cidade. Os locais praianos têm imagens fantásticas. A própria Bahia de Todos os Santos. Você tem casas e espaço coloniais. Casas urbanas, lugares mais periféricos, além de matas e tudo mais. Ou seja, são várias formas de espaços que podem produzir diferentes filmes. O clima é muito agradável. Um lugar muito fresco, com chuvas esporádicas. Há períodos de estiagem, principalmente no verão. Assim, entendemos que Itaparica fornece condições para se produzir filmes que são muito boas.

Anderson citou a Universidade do Estado da Bahia (UNEB) como parceira da Cine Arts desde o começo, na década de 2000. Com esse novo passo, essa parceria continua?
Aline – Sim. Trata-se de um projeto de extensão da UNEB, em uma parceria que une poder público e privado na execução de um projeto cultural e social que trará significância e fortalecimento da cadeia audiovisual local, criando o que talvez seja o primeiro polo audiovisual da Bahia. A Itaparica Film Commission e o Projeto Cine Arts Oficinas de Cinema se tornam um núcleo inicial de uma indústria local que, com certeza, logo será ampliado com produções locais e produções de fora. Será a “Nova Paulínia do Nordeste”. Itaparica, por outro lado, é uma cidade histórica, linda, cheia de riquezas naturais, paisagens incríveis e com uma estrutura de hotelaria, restaurantes e, agora, mão de obra qualificada. Até por sua localização geográfica, trata-se de uma cidade silenciosa que reúne todas as qualificações necessárias para se produzir audiovisual.

Com o foco na formação de novos profissionais, como será essa estrutura das oficinas em relação a execução prática dos conhecimentos aprendidos pelos alunos?
Anderson – Quando falamos de formar pessoas interessadas em trabalhar com cinema, percebemos que muitas vezes não há para essas pessoas oportunidades de avançar produzindo, de entender como é que acontece esse mundo atrás das câmeras. Como é que se faz para construir um filme. E no nosso processo ele não só vai aprender as técnicas relacionadas à área de atuação dele, como, também, vai aprender sobre as estéticas do cinema, a história do cinema, a trajetória. Esse aluno(a) vai produzir, também. Porque todo o conteúdo é prático/teórico e teórico/prático. Ele exercita as teorias. Exercita todas as estéticas que eles vão estudando e já vão exercitando. Isso faz com você fixe melhor isso e já te dá, também, um portfólio para quando terminar o curso. Esse aluno já poderá pensar nessa carreira. Isso é uma coisa na qual sempre pensamos. Não é só formar pessoas, entregá-las soltas, mas, sim, fomentar e desenvolver um plano de carreira. Desenvolver um projeto para que ele inicie uma carreira na área audiovisual, na área de cinema ou de TV. Claro que cada um vai escolher o seu processo. Um ponto que acho realmente importante no projeto Cine Arts, e aí não somente para Salvador, mas para o Nordeste e, consequentemente, para o Brasil, é fomentar nas pessoas o desejo de se tornar artistas ou técnicos do Cinema. Nesse processo, você forma tanto pessoas que são artistas, como roteirista, diretores, diretor de arte, quanto técnicos, que são aqueles ligados a cargos como direção de fotografia, câmera, captador de áudio. Você também tem aí a produção e, hoje, acessibilidade, com a qual já contamos desde a terceira edição. Acessibilidade porque todo conteúdo audiovisual precisa ser acessível. É uma norma técnica da agência reguladora, a ANCINE. Com isso, já formamos essas pessoas para serem esses técnicos de acessibilidade do conteúdo audiovisual para pessoas que tenham deficiências auditivas e visuais.

E a estrutura das oficinas? Você citou um total de dez. Como se dará essa divisão?
Anderson – Exato. Nessa versão, vamos oferecer dez oficinas. A pessoa que ingressar vai participar de uma oficina durante todo o período do curso e vai sair especialista naquela área. Por exemplo, temos a Oficina de Roteiro. Nela, você pega a ideia e a transforma em um storyline. Depois, em uma sinopse. Em seguida, um argumento. Depois, cria-se uma escaleta. É quando vira um roteiro. E ele já vai fazendo isso em cada unidade. Na primeira, ele vai fazer isso utilizando os filmes dos primeiros tempos. Nesse momento, fazemos quatro grupos e cada grupo vai atuar em quatro áreas. Na divisão, eles vão fazer um roteiro sobre o cinema mudo americano, no caso, inspirado nesse cinema. Outro inspirado no cinema do Expressionismo Alemão. Outro na Montagem Soviética. E o outro no Surrealismo. Na segunda unidade, nós vamos para as vanguardas. É quando pegamos o Cinema Noir, o Cinema do Neorealismo italiano, o Cinema Novo Brasileiro e a Chanchada. Na última unidade, e nessa versão só serão três unidades, eles já vão trabalhar os gêneros: comédia, terror, suspense e drama. E a partir disso, eles terão feito doze roteiros dentro dessa unidade. Aqui, também, será subsequente para cada uma das oficinas. Na de realização, ele vai aprender a dirigir filme, ser assistente, continuísta, ou seja, vai aprender a como transformar aquele roteiro em filme. E nessa formação, ele vai ter esse conhecimento de como liderar uma equipe, de como construir uma história.

E as subdivisões entre os campos profissionais de atuação?
Anderson – São várias subdivisões nas oficinas. Temos a Produção, que é quem vai conseguir os meios para que o filme aconteça. E aí o aluno vai ter aprender a fazer projeto, captar recursos, como as autorizações, os contratos, as liberações de imagens, e toda essa parte legal de como um filme pode ser, depois de pronto, exibido nos cinemas e nas TVs. Há, também, a Direção de Arte, que é a parte artística da história, que é quem vai dar às imagens, o figurino, maquiagem. É quem cria a arte dentro do filme. Vamos focar, também, na Fotografia e no Som, que, nessa versão, está em uma oficina somente, a Oficina Técnica de Direção de Fotografia e Som. E ela vai ensinar tanto a direção de fotografia, o uso de câmeras, o uso de luz, captação de som, gravação… ou seja, toda essa parte técnica de luz, som, maquinário e demais assessórios que possam transformar o filme. Vamos ter, também, oficinas de interpretação, que vai ser exatamente a parte do ator. Esse ator que está em cena, que dá o rosto, que dá a vida, ele também segue todas as estéticas. Nós temos oficina de montagem, que fecha esse ciclo. Nele, os alunos vão aprender a montar esse filme. Depois vem a acessibilidade, que vai tornar todo esse conteúdo acessível com audiodescrição, libras e legendas para as pessoas que são deficientes auditivas e sabem ler. Aí você vai ter a oficina de produção de impacto, que é essa ideia: não basta só fazer o filme. Você tem de tornar as pessoas interessadas em assistir a esse filme. E a produção de impacto e marketing e redes sociais vai servir exatamente para pegar os filmes produzidos e convidar as pessoas a assistirem.

E esse produto final será exibido em cinemas em alguma mostra específica?
Anderson – Durante a trajetória dessa versão do projeto, a cada unidade nas quais os alunos forem produzindo esses filmes, nós faremos uma exibição em praça pública dos trabalhos. Acontecerá nas localidades de Salinas das Margaridas, Itaparica e Vera Cruz. Ou seja, é um dia no qual faremos a exibição com projetor e tudo mais, chamamos os alunos, convidamos as pessoas e vamos assistir ao resultado do trabalho. Costumamos sempre fazer o lançamento dos filmes realizados no projeto ou em uma sala de cinema, ou em uma praça pública, esta atividade para os estudantes, também é uma atividade pedagógica, ele produz o filme, divulga, e exibe para o público, vendo a reação das pessoas ao assistirem seus filmes, e isso é sempre muito emocionante.

Observar essa possibilidade de construção de um novo polo de cinema na Bahia é algo muito simbólico para esse momento social e político pelo qual o Brasil passa. Vocês têm essa percepção, também?
Aline – Sim. Eu sinto que é uma oportunidade única em criarmos uma cidade de cinema na Bahia, que abrigue as produções locais e as produções de fora. Precisamos qualificar as pessoas, para que estejam preparadas quando as oportunidades chegarem. A Ilha não será a mesma com a construção da ponte, ao menos vamos empreender para que as pessoas estejam com estas qualificações profissionais e possam, estar fortalecidos num futuro próximo.

Anderson – Verdade. É um momento em que se propõe mudanças políticas, mudanças sociais, uma necessidade de um olhar mais profundo sobre a produção cultural e particularmente a produção audiovisual. Um momento no qual os governantes olhem mais para a Cultura. Enxerguem mais o fazer artístico, o fazer cultural, e a produção de filmes como elemento simbólico e expressivo do seu povo, das suas culturas, e dos legados e históricos construídos. Quando isso acontece, você começa a ter, também, as pessoas, a população como um todo interessada nisso. E quanto às pessoas, o Brasil já é um grande consumidor de filmes, de séries. Não à toa, aqui tem tantas opções de VOD (Vídeo sob demanda). Isso é porque nós somos um povo que é um grande consumidor de conteúdos audiovisuais, de videogames, de animações, de séries e tudo mais. Mas precisamos, agora, produzir conteúdos que falem do povo brasileiro. Conteúdos feitos pelo povo brasileiro. Assim, poderemos, também, conhecer as nossas histórias. E aí eu acho que a iniciativa da Itaparica Filmes, e nessa junção com a Cine Art, vai fomentar um momento bem promissor para essa construção audiovisual perene.

De fato, essa ideia do poder do audiovisual como algo fomentador economicamente precisa urgentemente voltar a ser notada.
Anderson – Sim. Não somente isso. Essa força, esse poder do audiovisual, a força em contar nossas histórias, em mostrar o momento histórico em que nós vivemos. Quando filmamos ruas, pessoas, trajes. Tanto em documentários, quanto em ficções, quanto em animações. Como retratamos esse tempo. Isso é um material muito expressivo para futuras gerações saberem como nós vivemos nesse momento. Para além disso, nós temos, também, o elemento simbólico da Cultura Artística. É a visão do artista, visão deste momento artístico. Como estamos sentindo as relações humanas. E expressar isso em filmes é muito importante. São autorias, são materiais que vão ficar para um legado. Um legado para sempre. Todas as versões, como a gente sempre faz um processo de formação teórico/prático, todas as versões resultam, e não só no final, mas, também, durante o processo, em muitos conteúdos e muitos filmes que são emblemáticos. Não só porque eles expressam aquele momento análogo ao Cinema, à construção do Cinema, à construção do Homem no Cinema, e à construção dos nossos alunos, mas, também, porque trazem uma expressão de quem quer falar para o mundo sobre seus anseios, suas paixões, suas decepções e suas frustrações. Tudo isso vai ser expresso naqueles filmes.

É uma questão de identidade, de fato.
Anderson – Sim. Isso é uma coisa também importante que cada vez mais perdemos: o povo brasileiro, o público brasileiro, cada vez mais vem perdendo conexões com sua arte. Isso porque assistimos a muito mais filmes de fora, particularmente muito mais filmes hollywoodianos do que brasileiros. Talvez o que mais ainda nos assegura como espectadores de dramaturgia e teledramaturgia brasileiras são as novelas. Realmente, a grande força brasileira são as novelas. Então, é muito importante criarmos esses conteúdos. Ampliar a filmografia, a leitura fílmica do povo brasileiro. A leitura fílmica das pessoas, do público como um todo, para que se afeiçoe com a nossa forma de falar. Aqui tem uma coisa que é muito interessante. Quando ouvimos o nosso sotaque baiano, nordestino, na tela, isso gera estranheza. Nós estranhamos o nosso próprio sotaque. Nós estranhamos quando olhamos no filme e vemos nossos espaços urbanos. Aquilo causa estranheza porque, normalmente, não são lugares e não são pessoas que protagonizam histórias na tela. Então, também elevar essa autoestima do soteropolitano, do baiano, do nordestino em ver seus lugares, seus discursos, seus sotaques, seus jeitos na tela, isso vai fazer com que você possa construir uma forma de reconhecimento dos seus valores. Então, esse poder e essa paixão de fazer filmes, de construir, é algo muito simbólico. Mas, também, tem a questão econômica. Porque você acaba empregando muitas pessoas. Por exemplo, uma série como “Pequeno Gigante”, nós tivemos quase 600 pessoas trabalhando diretamente. Em um mercado, um polo de cinema no qual você tenha produção constante, você pode manter essas pessoas em um trabalho fixo. É uma indústria que não polui. É uma indústria que não tem destruição de meio ambiente, de nada. Isso porque a maior parte do material que você consome é humano. São as ideias. É uma indústria criativa. Você tem ideias, sonhos, ou seja, você tem muito mais coisa intangível do que algo material sendo consumida ali. Com isso tudo, produzir e realizar filmes, distribuir e atrair filmes para serem feitos aqui vai ser muito importante. Com a Itaparica Filmes, você ainda tem essa possibilidade de atrair essas pessoas para o Turismo. Quanto mais pessoas em diversos lugares verem nossas praias, nossa gente, nossas ruas, vão sentir vontade de praticar o Turismo. De vir visitar e conhecer aquelas cidades. Isso, claro, será inicialmente Itaparica, mas isso aqui, também, pegando Salvador, a Bahia e o Nordeste. É isso. Vida longa ao audiovisual baiano, nordestino e brasileiro.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

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