Entrevista: Lucas Silveira (Fresno) fala sobre “Vou Ter Que Me Virar”, um dos grandes álbuns de 2021

entrevista por Bruno Lisboa

Com mais de 20 anos de estrada e dona uma discografia sólida de nove álbuns, a Fresno conquistou, de forma gradual, público e crítica e segue colhendo os frutos do seu trabalho. Prova disso é que seu mais recente disco, “Vou Ter Que Me Virar” (2021), fez parte de diversas listas de melhores do ano, figurando (inclusive) entre os 50 discos de 2021 da APCA e na lista dos 25 mais votados do Melhores do Ano Scream & Yell.

Cada vez mais distante das amarras do emo, gênero musical que ajudaram a popularizar nacionalmente no início dos anos 2000, o trio formado por Lucas Silveira (guitarra, baixo, teclados e vocais), Gustavo Mantovani (guitarra) e Thiago Guerra (baterista) tem feito de sua música instrumento para explorar as mais diversas sonoridades que podem ir do samba a música com bases eletrônicas.

Apesar do advento do isolamento social, em decorrência da pandemia, a banda se manteve na ativa, colocando também no mercado um disco de sobras de estúdio e remixes (“INVentário”) e, recentemente, um EP composto de dois remixes para as faixas “Já Faz Tanto Tempo” e “Vou Ter Que Me Virar”, que ganharam releituras através das parcerias com os produtores adieu e Mu540, respectivamente.

Em sua quarta entrevista ao Scream & Yell, Lucas Silveira fala sobre produtividade em tempos pandêmicos, diversidade sonora, a cultura dos remixes, as participações especiais presentes no último disco, os elogios tecidos por Lulu Santos e a sua repercussão, o cenário rock em terras brasileiras, desejos de carreira ainda não realizados, a importância de se posicionar politicamente, o recém anunciado retorno aos palcos e muito mais. Confira!

Apesar do período pandêmico a banda se manteve ativa, promovendo lançamentos diversos como dois álbuns (“Vou Ter Que Me Virar” e “Inventário”) e os recém lançados remixes das faixas “Já Faz Tanto Tempo” e “Vou Ter Que Me Virar”. Como tem sido esse período para vocês e como foi o processo de se manterem produtivos nesse período de reclusão social?
Tivemos que nos virar! (risos) Quando percebemos que seria necessário parar de fazer show, bateu primeiro um desespero, mas, ao mesmo tempo, essa pausa nos obrigou a cuidar de coisas da banda que a gente não cuidaria se não tivesse parado. Aproveitamos para nos reorganizarmos internamente. Um passo dado nesse tempo foi migramos mais pro digital, abrindo um canal na Twitch. Isso acabou nos dando expertise e conhecimento para fazer a QuarentEmo, que foi um sucesso estrondoso e nos encheu de esperança de que quando voltarmos a fazer show, o negócio vai ser insano.

“Vou Ter Que Me Virar” é, talvez, um dos discos mais versáteis da Fresno em vários sentidos. Historicamente é interessante perceber que a banda tem estado atenta a novas experimentações sonoras, característica que, aliás, não são comuns no rock contemporâneo. Mas olhando em retrospecto qual foi o momento chave para que a banda optasse por essa abertura?
Acho que não teve um momento que pensamos ‘agora vamos mudar’. No fundo, a gente sempre flertou com tudo isso que está no disco e em “INVentário”. Só que quando colocamos eles juntos, como uma exposição, parece que são algo muito diferente. Se pegar, por exemplo, a “INV001: 12 WORDS 30000 STONES”, que é em inglês e em português, tem a ver com “A Minha História Não Acaba Aqui”, “Revanche”, “Natureza Caos”, até as faixas mais de piano e diferentes, tem uma relação.

Os remixes tem se tornado cada vez mais presentes na contemporaneidade e é interessante perceber como as faixas já citadas ganharam novas roupagens a partir do olhar de outrem. Nesse sentido, como nasceram estas parcerias? E ainda: qual é a sensação inerente ao ver o seu trabalho revisitado e remodelado?
Escolhemos quem vai remixar pelo conjunto da obra. Já curtíamos o trabalho do adieu, tanto que colaborou em “INVentário”. Já com o Mu540 foi quando vi um DJ set dele e fiquei de cara, porque ele misturava funk 150bpm com psy trance. A gente trabalha com remixes das nossas faixas desde antes de ser normal nas bandas do nosso segmento. Quando lançamos “Maré Viva” (2014), a gente fez o “Eu Sou A Maré Viva: Remixes”. Na época, o público de rock ainda era muito separado do público de coisa eletrônica, hoje em dia eu acredito que os estilos conversam muito mais. Ouvir uma música da Fresno numa versão diferente é sempre massa, mesmo que o fã não curta aquela versão nova, às vezes vai ter um público que vai curtir justamente por causa do remix.

Voltando a falar de “Vou Ter Que Me Virar”, o disco tem um time diversificado de participações especiais. Como se deu a seleção deste elenco e quais as contribuições os mesmos trouxeram para o resultado final?
Para escolher o time do disco não fazemos uma reunião de guerra, tipo ‘uau, vamos escolher esse, esse e esse…’, as coisas vão simplesmente acontecendo. Em 2020, quando estávamos fazendo o “Vou Ter Que Me Virar”, estava no auge da pandemia, isso fez com que os artistas ficassem em casa e foi natural que eles fossem entrando em colaborações, porque a galera sem fazer show estava de saco cheio de ficar parado em casa. Com isso, conseguimos fazer “BROKEN DREAMS (STRESS-DOMMAGE-INSOMNIE)”, com o Jason Butler, do Fever 333, ter Yvette Young e Alejandro Aranda, do Scarypoolparty, em outra música. As participações vão acontecendo, não tem uma história ‘ah, eu acho que esse disco vai ser bom ter participação de sei lá quem’, acaba não tendo nenhuma história especial. Já o Lulu Santos, sim. Quando a gente fez “Já Faz Tanto Tempo”, eu sentia que ela tinha muito a cara de Lulu Santos, do rock brasileiro clássico. Convidar ele foi uma consequência de uma relação que começamos a ter por rede social. Descobri que ele me seguia, a gente começou a trocar ideias, em algum momento eu falei: ‘ow, quando estiver em São Paulo cola aí para gravar um som’. Ele pirou na música e gravou. Ali mesmo eu já sentia que ia ser um hit do disco, que ia ser um negócio porrada. Foi muito massa.

E o Lulu lhe dirigiu rasgados elogios e, acredito eu, que receber congratulações de alguém desta magnitude é algo que nos faz “zerar a vida”. Após a repercussão da fala, que lhe atribuiu o status de “cantor mais apto que o rock brasileiro produziu”, você se sentiu pressionado?
Cara, esse elogio do Lulu Santos foi realmente mais uma maneira de zerar a vida. Felizmente, já conseguimos zerar a vida algumas vezes ao longo da carreira. Quando Fresno virou um verbete das palavras cruzadas Coquetel, eu também me senti zerando a vida ou quando a gente fez o estúdio Coca-Cola com Chitãozinho e Xororó… Foram várias “zerações” de vida. Até mesmo no QuarentEmo, quando a Anitta fez stories e botou cem mil pessoas dentro da nossa live. Vivemos várias coisas que foram muito doidas, mas, com certeza, esse momento do Lulu, dele estar envolvido artisticamente com a gente, é um deles. Toda vez que eu me pego ouvindo o som dele eu fico assim ‘meu Deus, eu não acredito que esse cara está no nosso disco’. Foi uma zerada de vida muito forte, o que é muito bom, né? Porque a admiração é completamente mútua, para mim ele é reizinho do pop e do rock brasileiro. Ele foi o arquiteto de como fazer uma canção pop no Brasil, é sempre uma música que tem detalhes de harmonia, de letra… O cara não joga uma palavra fora. Quando eu digo “jogar palavra fora” é porque, às vezes, a música tem um momento que é meio “fuen”, um verso que é meio “fuen” e ele não tem. Pega, por exemplo, “Certas Coisas”, não tem uma palavra fora do lugar. É muito bom.

A Fresno é parte da, talvez, derradeira era do rock brasileiro que flertou com o mainstream. De fato, a qualidade das produções atuais se mantém em alta, mas hoje em dia outros gêneros musicais têm conquistado o espaço midiático e o rock, de modo geral, voltou para o underground, para o bem ou para o mal, dialogando com um público mais segmentado. Nesse sentido, como você vê o cenário atual que, geralmente, se guia pelos números alcançados em redes sociais e plataformas de streaming?
Hoje em dia vejo o rock como um negócio que, obviamente, nunca morreu, mas se tu for abrir lá o mainstream, não existe rock acontecendo ali, quase não existem bandas. Às vezes o Jota Quest vai conseguir botar alguma coisa lá nos tops. Nesse meio tempo também muito se mudou quanto ao formato do que é feito em rock, né? Quando pensamos em rock mais como um estado de espírito, uma atitude, tem vários caras do rap aí que, querendo ou não, cumprem esse papel, mas se a gente se ater a sonoridade, com certeza está fora. Ao mesmo tempo, se você pegar as paradas gringas de um ano para cá, elas estão super rock de novo, no sentido de guitarras, baterias e baixos. Então, nada impede que, muito em breve, isso aconteça por esses lados. Por enquanto, ainda são suspiros, mas tem coisas acontecendo. A gente também vive um momento em que estar no mainstream não é o único caminho para o grande sucesso. Se tu pegar, por exemplo, BaianaSystem, o tamanho que os caras viraram sem ser um grupo que vai no Faustão é muito brutal. Atualmente, tu não precisa fazer esse crossover para o mainstream para ter sucesso, ganhar dinheiro e fazer shows enormes, o que é muito saudável para a música alternativa. Vemos artistas alternativos, gringos, sendo enormes, tipo o Radiohead enchendo estádios. Porque lá fora já existe a cena alternativa grande, possibilitando que surjam coisas que são alternativas, que são diferentes, que não são usuais, mas que alcançam o público grande. Então, não podemos mais medir o tamanho do rock pela presença dele no mainstream, porque ele virou uma outra coisa agora, eu acho que tem muitos caminhos de mainstream, caminhos de sucesso enorme que não passam por ir no Faustão e tocar na rádio.

Com mais de 20 anos de estrada a banda coleciona uma série de conquistas (prêmios, presença em grandes festivais, elogios por parte da crítica e do público…). Porém há algo que a Fresno não tenha alcançado?
Tem várias coisas que ainda não alcançamos. Talvez, inclusive, esse seja o grande motivo por não termos parado ou nem pensado nisso. Às vezes dá preguiça, mas nunca teve essa reunião de ‘vamos parar’, porque sinto que ainda não fizemos tudo o que podemos fazer. A gente não sente ‘tá, agora é só uma manutenção da carreira’. Ainda temos muito o sentimento de ‘po, agora vai, agora vai rolar’. Então, acho que, enquanto tem isso, tu ainda tem motivação para continuar, ainda tem território aí para explorar. Tem muitas coisas para fazer ainda e não acho que tivemos um impacto que seja definitivo. Eu não acho que já fiz a minha melhor música da vida e agora é só curtir uma aposentadoria. Primeiro: nunca ficamos do tamanho que eu consigo visualizar e quando eu penso nisso não é exatamente a grana, é pensar no tamanho mesmo, de ter o poder de fazer as coisas grandiosas que temos em mente. Então, acho que ainda não chegamos lá. Ainda não fizemos um show com a orquestra sinfônica de sei lá da onde, do jeito que eu sonhei, a gente ainda não tocou, sei lá, num Rock in Rio da vida, com as pessoas cantando o nosso som. Ainda não teve um monte de coisa, ainda não sinto que rolou tudo o que podia acontecer.

O setor da cultura tem sofrido nos últimos anos as agruras de ter um governo reacionário à frente da pasta. Você, sem temer represálias, sempre deixou demarcado o seu lado dentro desse cenário político polarizado. Nesse sentido, qual a importância de se deixar demarcado o seu posicionamento? Acredita que a vitória de um candidato à esquerda pode nos reconduzir à reparação de danos causados pela era Bolsonaro?
A pior coisa que você pode fazer é ser chapa branca e não se comprometer com lado nenhum. Porque hoje em dia a gente está num momento tão tenso nessa coisa de esquerda e direita, que o mero fato de uma pessoa não saber exatamente de que lado você está nessa história já faz com que tu tenha uma desconfiança do tipo ‘ih mano, esse cara aí é minion’ ou, no caso dos minions, ‘ih, esse cara é comunista’. Então, assim, tenha um lado claro, tu não precisa fazer disso a sua temática principal das redes, mas é muito importante que um artista se posicione. Hoje em dia, eu e muitas pessoas, quando vamos ouvir alguém ou consumir o conteúdo, queremos saber qual é dessa pessoa, para ver se vamos dar Ibope para ela. E com artistas é a mesma coisa. Inclusive, se você for um bolsominion inveterado, eu acho bom para sua carreira que tu se demonstre como um bolsominion porque, querendo ou não, existe um público bolsominion aí para você. Eu com certeza sempre me posicionei e me posiciono cada vez mais, justamente porque sinto que cada dia que passa é mais necessário que eu finque um pé nas minhas convicções, sem medo de eventual represália ou de um fã que fala, ‘nunca mais vou ouvir vocês’. Porque estamos vivendo num momento em que isso é muito necessário. Talvez em outra época isso não fosse tão essencial. Pode ser que os isentões até fossem de fato isentões, talvez fossem pessoas apolíticas, mas o que vem acontecendo com o mundo e com o país foi fazendo com que eu procurasse me informar. É muito importante ter um posicionamento claro porque quem não faz isso acaba sendo odiado por todo mundo.

Por fim a banda anunciou recentemente o retorno aos palcos com uma série de shows pelo país. Nesse período de incertezas quanto ao retorno aos palcos, devido a variante ômicron, quais são as expectativas alimentadas para estas apresentações?
Querendo ou não, ainda é um período de indefinição. Talvez para uma galera mais geração Z, a galera já está meio que “foda-se”, mas, no fundo ainda existe uma indefinição. Ao mesmo tempo, não podemos esperar o negócio ficar completamente “safe” para tomar atitudes de carreira. O que temos que fazer é ter datas e literalmente rezar para que a situação não piore, rezar para que as pessoas tenham consciência de se preservar e de não alastrar a pandemia – que querendo ou não, ainda existe, para que possamos ter uma vida próxima da normalidade no futuro. Eu acredito que o COVID é uma coisa que vai se manter na nossa discussão, na nossa sociedade e na nossa vida, mas que a gente vai contornar esse problema de várias maneiras. Um, obviamente, com vacina, mas também com prevenção e com uma eventual redução do risco, mas não vai sumir. Ao mesmo tempo, temos que ter os shows lá para que eles existam, para que, inclusive, possamos adiá-los, caso seja preciso. E obviamente, cobrar o mínimo das pessoas e cobrar das casas, que exijam um passaporte de vacina. Que as pessoas se vacinem com a terceira dose e se precisar ter uma décima dose, que as pessoas tomem a décima dose, para que a gente se coloque num menor risco possível.

– Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. A foto que abre o texto é de Camila Cornelsen.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.