“Once Twice Melody”, a jornada mais ambiciosa do Beach House

resenha por Gab Piumbato

“It is happening again”…O Beach House que aprendemos a amar é a banda menos original do mundo. Tudo já estava ali quando eles surgiram. Chame de shoegaze, dream pop ou a etiqueta que você preferir. E no entanto…é justo dizer que a carreira dessa dupla parece uma criptomoeda cujo gráfico só mostra a seta apontando para cima.

É o investimento musical indie mais seguro desde 2006. Se você ainda não foi a um show do Beach House, com receio de que a magia desapareça em cima do palco, também não há nada a temer (como que pode “Silver Soul” ser ainda melhor? Aquele “yeah” derrete qualquer coração): a devoção de ver esse sonho adolescente desabrochar ao vivo é de fazer agradecer às estrelas da sorte.

“Once Twice Melody” é o seu oitavo disco de estúdio, excluindo compilações (como a excelente “B-Sides and Rarities” de 2017). Se um alienígena desembarcasse no redondo Planeta Terra em 2022 em busca de Arte, querendo investigar como é que um ser humano pode ficar arrepiado ao ouvir sons (de qualquer tipo: a voz madura de Victoria Legrand, sintetizadores, baterias eletrônicas, slide guitar, solos com efeito de delay ou reverb em reverso), os quatro capítulos da jornada mais ambiciosa do Beach House seriam o exemplo mais adequado.

Sim, quatro. Num movimento ousado, digno das bizarrices de um Wayne Coyne, o Beach House decidiu lançar o disco em quatro capítulos: o primeiro foi liberado em novembro do ano passado; o segundo em dezembro, o terceiro em janeiro e o quarto, e último, encerrou a saga na sexta-feira (18/02). No total, 18 músicas novas (embaladas em um vinil duplo, cassete duplo ou CD duplo além de streaming).

Qual momento escolher para apresentar aos nossos amigos ETs? Os sete minutos e onze segundos de “Over and Over”? O incêndio lento de “Another Go Round”? Ou justamente “ESP” (percepção extrassensorial), a certeza de que Legrand e Alex Scally nos levam para outro universo, como em “Illusion of Forever”? A pureza deslizada nas cordas de “The Bells”? Desculpe, são 18 músicas dessa vez, dá até para perdoar esse solo safado de gameboy em “Hurt To Love”.

Não é preciso estar no escuro para saber que ninguém nunca foi infeliz ouvindo Beach House. Não tem nada de novo mesmo. Parece até aqueles versos do John Ashbery: “é preciso escrever sobre as mesmas velhas coisas / do mesmo modo, repetindo as mesmas coisas de novo e de novo / para que o amor continue a ser gradualmente diferente”. Beach House é um espaço-tempo que nos atira para fora e para dentro. Então “light each candle, here tonight then gone forever”…

– Gab Piumbato é jornalista e autor da melhor discografia comentada de Bob Dylan em português (aqui). Também escreveu uma discografia comentada de Cat Power (aqui)

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