Meu disco favorito de 2021: KEY, por Ana Clara Matta

MEU DISCO FAVORITO DE 2021 #5
“Bad Love”, KEY
escolha de Ana Clara Matta

Artista – KEY
Álbum – “Bad Love”
Lançamento – 27/09/2021
Selo – SM / Dreamus

Até o dia 8 de dezembro de 2021 eu ainda não havia escolhido (dentre um punhado de 3, 4 opções excelentes) um disco favorito do ano que terminava. Em 8 de dezembro eu decidi meu disco favorito de 2021, mas não foi apenas isso que marcou esse dia. Enquanto enviava minha escolha para o editor Marcelo Costa através de uma DM, outro acontecimento movimentava a minha timeline – a morte de Robbie Shakespeare, do duo Sly and Robbie. Enquanto eu falava “o meu disco favorito de 2021 é ‘Bad Love’, do KEY” eu pensava “em alguns anos, não teremos mais pioneiros vivos na música”. Tudo apontava para um momento de reflexão, uma olhada para o que um dia soou como futuro, se concretizou como presente e está rapidamente (e assustadoramente) se tornando passado. Essa não é, afinal, a definição de morte? Quando o futuro alcança o presente em um ponto final? E nesse caso, quando tudo que é futuro na música se tornar presente, é a morte da arte?

Quase todo artista que criou um gênero, ou revolucionou um existente, já morreu – de ícones que tiveram décadas e décadas para mostrarem seu potencial, como David Bowie, até estrelas cadentes que queimaram marcas profundas rapidamente, como SOPHIE. Cada notícia sobre Joni Mitchell ou Brian Wilson é um baque, um soluço em meio a uma contagem regressiva silenciosa. Em um gênero, porém, os artistas mais importantes ainda estão produzindo seus melhores trabalhos – e isso, a busca por colocar o dedo indicador no pulso da cultura atual, me fez, como crítica e como fã, gravitar em direção ao K-Pop com força nos últimos anos.

Com a explosão de grupos como BTS e Blackpink o K-Pop se tornou inescapável na música popular do planeta inteiro, mas a história desse subgênero antecede em mais de 20 anos a estreia dessas bandas. Seo Taiji, o “pai” do K-Pop, é um dos criadores de gênero musical que ainda vivem e criam, e as bandas que revolucionaram a cena continuam no auge de suas potências criativas, como o grupo SHINee.

O SHINee é, provavelmente, a banda de maior impacto no cenário musical mundial que você não conhece. Criada como uma “banda experimental” pela maior gravadora da Coreia do Sul, o SHINee era o quinteto dos sonhos: um vocalista classicamente treinado, Onew, um compositor e poeta com a voz mais versátil do k-pop, Jonghyun, um prodígio da dança, Taemin, um rapper com visual de supermodelo, Minho, e Key, um grande enigma colocado no papel de rapper secundário, mas com a personalidade mais imprevisível do k-pop e talentos em trend hunting, artes visuais e moda. No início a liberdade criativa era mínima, mas com a série conceitual de discos “The misconceptions of us” os membros começaram algo sem precedentes no gênero – a assumir o controle criativo e as decisões não só musicais mas também em figurino, coreografia e conceito dos álbuns.

Tudo isso desembocou em “Odd”, o disco que mudou tudo que viria a ser conhecido como o k-pop contemporâneo, capitaneado pela atmosfera deep house e as roupas casuais do hit “View”. A morte de Jonghyun, por suicídio, permanece como o maior baque histórico na música coreana, e é impossível separar a trajetória posterior do SHINee desse fato. É uma longa introdução para um pequeno EP de 6 músicas, mas o contexto é muito importante para a grandiosidade de “Bad Love” – um contexto que grande parte do público brasileiro não conhece. “Bad Love” é a culminação da liberdade criativa e da maturidade artística de um Key que já se tornou parte da história da música pop, um espécie de análogo sul-coreano à Madonna (mesmo que toda comparação ocidental para artistas do k-pop seja apenas um atalho retórico barato), camaleônico e trend setter.

Durante os anos 00, o padrão na cultura foi a distopia: a visão pessimista, desesperada, do futuro. Quando o futuro, tornado presente, se tornou pior do que algumas distopias que costumávamos criar há 20 anos, outra tendência se torna mais convidativa: o retrofuturismo. Não dá para falar de “Bad Love” sem falar do objeto físico “Bad Love”, uma série de edições em CD com embalagens que remetem a brinquedos dos anos 50 e livros de literatura pulp, lotadas de brindes como pôsteres em formato de filme de sci-fi exploitation e cards colecionáveis em pacotes como os de figurinha. Tudo isso foi pensado e exigido pelo artista como parte da experiência de seu segundo disco solo. A estética é, em partes iguais, Flash Gordon e John Waters. Tudo o que gerações passadas esperavam do século XXI, lançado em meio a um ano de 2021 que não nos deu jet packs e pistolas de raios gama.

No som, “Bad Love” é uma revisitação do pop ocidental dos últimos anos sob o ponto de vista de alguém que é alienígena perante a ele, alguém que sempre o consumiu à distância. Os pontos de referência criativos de Key não são sul-coreanos, mas nomes como Bowie e Lady Gaga, e é fácil perceber isso no pop aberto da faixa-título do disco, uma catarse sobre um relacionamento tóxico infusionada com a música disco. “Saturday Night” traz uma batida que lembra os melhores dias do Scissor Sisters para falar sobre perda, e “Hate that…” é abertamente amarga, um dueto sobre sentimentos mesquinhos divididos entre ex-amantes cantado por Key com sua melhor amiga de anos, Taeyeon, do grupo Girls Generation. “Helium”, escrita inteiramente em inglês, é um hit pronto que poderia estar no “Future Nostalgia” de Dua Lipa.

“Eighteen (End of my world)” foi escrita por Key como uma mensagem para seu eu de 18 anos, idade com a qual ele estreou no mundo da música, e fala sobre a sensação da proximidade do fim de sua carreira como ídolo pop. É uma elegia escrita a próprio punho para os sonhos, sejam eles os realizados ou os frustrados, de um menino que, no nosso passado, olhava para 2021 como o futuro. Talvez o Key de 18 anos achasse que a vida dele seria mais fácil e glamourosa. Que existiriam jet packs e pistolas de raios gama. Mas “Bad Love” é uma homenagem aos futuros que imaginamos, aos passados que vivemos, e aos presentes que tentam sobreviver ao avanço cruel do tempo.


– Ana Clara Matta (@_ana_c) é editora do  Ovo de Fantasma e escreve para o Scream & Yell desde 2016.

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