Entrevista: Maria Eugênia Moreira fala do livro “Três Palmos”

entrevista por Marcela Güther

Maria Eugênia está lançando “Três Palmos”, seu primeiro romance, via Editora Penalux (leia um trecho). O livro aborda a trajetória desesperada de um amor rompido, chegando aos limites da coerência — a obra conta com posfácio de Julia Raiz e orelha escrita por Júlia Grilo. “Perdão, relativismo, obsessão, egoísmo e afeto real” são os temas centrais, conta a escritora na conversa abaixo.

A narrativa começa com Emílio, que é deixado pela esposa Estela e sofre profundamente por amor. Depois da esposa ter ido embora, logo em seguida ocorre a morte do pai. Ele volta para a cidade de sua família e aprofunda o desprezo por tudo o que não é Estela. Emílio, então, decide sumir sem deixar rastros. “‘Três Palmos’ narra como o amor te transforma profundamente de maneiras em que não é possível recuperar um antes, o antes de você deixa de existir. O amor é sempre um tormento porque o amor é sempre uma tormenta, uma tempestade violenta dentro da nossa cabeça. O amor talvez seja às vezes intolerável, tira toda a nossa coerência”, escreve Julia Raiz, no posfácio.

Narrado principalmente em primeira pessoa, o livro não se resume a ela: há formatos e vozes narrativas diferentes, em descompasso, na tentativa de montar um quebra-cabeça. “A história vive a três palmos da pele de quem? Quem vive na cabeça de quem?”, questiona Raiz, no posfácio. Para ela, a narrativa acaba “nos pegando pelo pescoço e de repente estamos de cara com o que é intolerável”. “Quem lê o romance está diante de um arco constante de desespero, uma trajetória até o fundo do poço: do começo ao fim: Estela na cabeça. Como é amar tanto alguém a ponto de não escapar nem mesmo diante da morte?.”

Maria Eugênia nasceu em Jacareí, no interior paulista, em 2000. Criada na cidade de Cruzeiro, divisa dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, atualmente é graduanda em psicologia pela PUC-SP. “Três Palmos” é seu segundo livro, tendo sido precedido por “Urucum”, que, também foi lançado pela Editora Penalux e, segundo a autora, “foi um livro (livreto) publicado para as pessoas mais próximas, como uma espécie de confidência amiga. ‘Três Palmos’ não. ‘Três Palmos’ nasceu de uma tentativa de entendimento, de um jogo de papéis”, explica. Leia a entrevista completa:

Como e quando você começou a escrever?
Comecei a escrever com 14 anos, quando comecei a sentir uma necessidade animal de arquitetar em palavras alguns sentimentos. Comecei escrevendo pequenos poeminhas, embaralhando palavras e fingindo cenários.

Quais são as suas principais influências literárias?
Em primeiro lugar vem o Victor Heringer, sem dúvidas. Fui atingida pelos vídeo-poemas desse carioca bonitão. Tenho sotaque caipira até na escrita, então autores nacionais mais clássicos, como Guimarães Rosa, definitivamente me tocaram mais no processo de escrita.

E seus livros prediletos, quais são e por que?
Sou grande fã das obras do Garcia-Roza, então grande parte da minha lista de favoritos é de autoria dele (risos). Posso citar “Glória” (Victor Heringer), “Segredos” (Domenico Starnone) e “Baixo Esplendor” (Marçal Aquino). São todos livros de grandes desfechos sentimentais, não necessariamente narrativos. Sacada de mestre (risos).

Quais são os seus hábitos de escrita? E como é seu processo?
Trabalho melhor no final do dia, quando sento com calma e com a cabeça ainda funcionando. Costumo colocar uma música no ambiente ou um vídeo-poema – qualquer coisa que tenha uma voz diferente da minha – e escrever distraída. Acaba dando certo e sendo menos solitário (risos). Escrevo em períodos concentrados, mas estou sempre rascunhando alguma coisa. Já tentei muito estabelecer objetivos e exercícios de escrita diários, mas acabo não sendo honesta com o meu ritmo e por isso nunca dura. Sobre meu processo de escrita, eu costumo juntar e costurar rascunhos que se comunicam e não se cancelam, misturando objetos mas mantendo o sentimento frente a eles. Às vezes dói e demora, outras diverte e demora também. Tento sempre encarar a escrita como um desabafo que precisa ser formulado para que se entenda e, com isso, acabo presa em um mesmo texto por meses. Me frustro muito, claro, mas tenho aprendido a respeitar o punho que segura o lápis, acima de tudo. Sem atropelamentos.

De que forma a sua graduação em psicologia influencia sua escrita literária?
Influencia absurdamente. Chega a ser uma questão, uma dificuldade, mas também um recurso a mais. A psicologia tem palavras-chave com sentidos distintos daqueles que entendemos e usamos no cotidiano, então acaba sendo um desafio escrever livre do tom que aprendi com a academia.

Você já tem um livro de crônicas publicado. “Três Palmos” é o seu segundo livro? O que fez você escolher escrever um romance dessa vez?
“Três Palmos” é meu segundo livro. “Urucum” foi um livro (livreto) publicado para as pessoas mais próximas, como uma espécie de confidência amiga. “Três Palmos” não. “Três Palmos” nasceu de uma tentativa de entendimento, de um jogo de papéis. Surgiu como um conto, mas depois de um tempo eu precisava de outros finais. Acabou sendo um romance por conta própria, eu acho.

Se você pudesse resumir os temas centrais de “Três Palmos”, quais seriam? E por que os escolheu?
Perdão, relativismo, obsessão, egoísmo e afeto real. Escolhi como problema do livro o desfecho de uma relação e acredito que os temas estão incrustados sempre, em diferentes graus, nesse acontecimento.

De onde surgem suas principais ideias para a escrita?
Minhas ideias vêm do cotidiano, eu acho. De como ele me afeta e de como me vejo afetando ele também. Não acho que existam grandes hábitos para se deixar afetar pelos acontecimentos do dia, tento apenas me manter sensível. Me mantendo sensível, mantenho uma criatividade, uma fabricação constante de impressões e, consequentemente, mantenho uma escrita acontecendo.

Quais obras/autores influenciaram diretamente “Três Palmos”?
Eu diria que os mesmos que me influenciam no geral, mas adicionando as obras do Marçal Aquino, onde o personagem principal sempre morre de amores por alguém e, vez outra, não disfarça.

Como foi o processo de escrita de “Três Palmos” em plena pandemia?
Fiquei um ano trabalhando ativamente no livro, mas os fragmentos do texto e o assunto já estavam há muito mais tempo na gaveta. Acho que a pandemia me obrigou a fuçar os rascunhos e a sonhar com a história, já que a vida dentro de casa não permite tantas outras distrações. Foi um processo de muita contradição, mas nada solitário. O livro foi uma companhia durante a quarentena. Sofremos juntos.

Para você, quais são os principais desafios da publicação independente?
Acho que, em primeiro plano, a divulgação. É como tentar pescar sem isca, ou com uma boa isca em um lago sem peixes. Exige paciência, confiança e, principalmente, alguém que ensine a lançar a linha.

Você tem projetos de escrita para o futuro?
Queria muito, em algum momento da vida, escrever um bom livro de contos. Gosto muito desse gênero, me arrisco bastante nele, mas acho extremamente complexo a montagem de um livro nessa linha. Fora isso, tenho guardado uma coleção impecável de notas escritas nas costas de notinhas fiscais de supermercado… Quem sabe um dia eu consiga costurá-las em um novo livreto.

– Marcela Güther é jornalista, produtora de conteúdo, assessora de imprensa e mediadora do Leia Mulheres.

One thought on “Entrevista: Maria Eugênia Moreira fala do livro “Três Palmos”

  1. Parabéns!! Achei incrível o livro e à ideia dele… quero ler para saber o desenrolar dessa história. Sucessooo

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