Faixa a faixa: “Logo Ali”, o segundo disco de Bemti

Texto de abertura Renan Guerra
Faixa a faixa por Bemti

Três anos separam a estreia “Era Dois” (2018) de “Logo Ali”, segundo trabalho do mineiro Bemti. Nesse meio tempo ele fez shows, turnês em outros países, viajou muito, escreveu, ganhou um edital da Natura Musical e, como todos, experenciou uma pandemia no Brasil. Nesse meio tempo ele construiu o novo disco em um processo que tensionou a solidão, em encontros virtuais e à distância, criando um universo distinto que se encontra agora disponível para audição.

Curiosamente, mesmo as canções escritas por Bemti antes da pandemia, já tensionavam temas que se tornaram ainda mais caros nesse momento: solidão, distanciamento físico, saudade e memórias afetivas. Mas não pense que “Logo Ali” é um “disco de pandemia”, do tipo que se propõe a refletir sobre isso. Na verdade, esse é um disco de ambições mais universais: o amor, o medo, a saudade, as memórias e as construções coletivas existem aqui fora de um espaço-tempo, são como fotogramas de diferentes épocas.

Esse universo criado por Bemti ganhou vida a partir do apoio do Natura Musical, que possibilitou esse tempo de trabalho e de criação mais espaçado, mas além disso permitiu a troca do artista com inúmeros outros nomes: Fernanda Takai, Hélio Flanders, Marcelo Jeneci, Jaloo, ÀVUÀ, Josyara, entre outros – a ficha técnica de “Logo Ali” é uma beleza a parte. Esse grupo de artistas é convidado a entrar nesse espaço particular de Bemti, composto desse encontro entre referências indies e uma viola caipira completamente brasileira e interiorana; onde os sopros convivem com os sintetizadores; onde camadas e camadas de som criam a singeleza e a delicadeza.

“Logo Ali” é um grande disco que prova a complexidade criativa de Bemti, por isso mesmo é interessantíssimo mergulhar nesse universo a partir das perspectivas do próprio artista. Para isso ele escreveu um faixa a faixa que conta histórias, referências e intenções. Chega mais:

Faixa a Faixa por Bemti

01) “Canto Cerrado”: Abre o disco como uma música que vai “entrando em foco” aos poucos pra introduzir o universo épico do “Logo Ali”. Desde o começo eu tinha essa ideia de começar a jornada traduzindo em sons a imagem de “subir uma serra com a tarde caindo e encontrar uma Folia de Reis lá em cima”. O Paulo Santos, que foi um dos membros fundadores do Uakti, participa tocando diversos instrumentos, incluindo alguns inventados por ele. Já a Bianca Predieri toca Caixa do Divino – instrumento típico de Folia – e além deles há mais uma gama de instrumentistas de sopro e cordas. Foi uma honra ter o Paulo aqui, pois entre vários trabalhos que eu admiro, ele tocou com o Uakti no disco “Anima” do Milton Nascimento (de 1982) uma das grandes influências do “Logo Ali”. Nessa abertura você consegue escutar ecos de “Evocação das Montanhas”, do “Anima”; “Perth” do Bon Iver; “Little Bear” do Guillemots, entre outros inícios de álbuns que eu amo.

02) “Livramento”: Inaugura as “temáticas do coração” no disco com um afastamento repleto de contradições emocionais. A letra é uma parceria com a Nina Oliveira, que desde as primeiras ideias queria que “Livramento” fosse uma sofrência (por isso a métrica vocal bebe tanto do sertanejo contemporâneo, apesar da maior influência ser Laura Marling). Chamei o Marcelo Jeneci pra tocar sanfona, mas ele se empolgou tanto que acabou sendo co-produtor da música, cantando diversos vocais de apoio (como os assobios e vocalizes) e tocando piano Wurlitzer. O coro do final tem o Paulo Novaes, indicado esse ano ao Grammy Latino de Melhor Canção, o Cauê Lemes (pianista e pré-produtor do disco) e os dois produtores musicais do “Logo Ali”: Luis Calil e Pedro Altério).

03) “Catastrópicos!”: Continua o ritmo acelerado com um pop tropical de estrutura totalmente inusitada que te engana de 10 em 10 segundos. O arranjo colorido e a harmonia das minhas vozes e as do Jaloo te guiam por essa jornada complexa mas dançante. “Catastrópicos!” foi o primeiro single do disco e primeira parte da “trilogia dos pontos de exclamação”, ao lado dos outros singles (“Samba!” e “Se Entrega!”) que eu criei como uma história paralela, pra brincar e demonstrar um pouco a superlatividade sonora do “Logo Ali”. Essa foi minha composição mais difícil da vida, tanto musicalmente quanto liricamente, e fiz um grande esforço pra que esse relato sobre o “apocalipse de ser brasileiro” não ficasse restrito a esse período que estamos vivendo.

04) “Se Entrega!”: Talvez seja o momento mais direto do “Logo Ali”. Um enevoado indie-pop caipira com beats de reggaeton onde a letra romântica vai se cercando de um arranjo que cresce como uma ventania de fim de tarde de verão. Os vocais sintetizados foram criados pelo Rodrigo Kills (do Cyberkills) e misturam minha voz, com vocoder e o canto do passarinho Saci (Tapera Naevia), uma melodia super melancólica que marcou muito minha infância. O “Logo Ali” é repleto desses pequenos atos de antropofagia.

05) “Quando o Sol Sumir”: É um encontro grandioso com a participação da Fernanda Takai, composição em parceria com a Roberta Campos e a presença do Helio Flanders no trompete. Quando comecei a escrever essa música com a Roberta tínhamos a ideia fixa de um “casamento no fim do mundo” e boa parte da música e da letra veio durante minha turnê no Sul no início de 2020, mais especificamente quando eu estava em Colônia, no Uruguai, um dia após ter tocado em Buenos Aires com o incrível Gabo Ferro (que viria a falecer poucos meses depois). Essa é uma das diversas músicas que eu comecei a compor antes da pandemia, mas que pareciam prever um “fim dos tempos” e que ganharam outros contornos quando foram concluídas recentemente. A parceria com a Fernanda foi de uma generosidade absurda e até hoje não acredito ao escutar, porque sou muito fã do Pato Fu desde criança.

06) “Não Tava Nos Meus Planos”: Foi composta durante uma imersão no estúdio Gargolândia, em fevereiro deste ano, e é uma parceria minha com o Pedro Altério. Uma das músicas mais recentes a estar no disco, a letra é sobre planos e sonhos quebrados mas também sobre uma certa paz que vem em algum momento da resignação: esse suspiro quando você percebe que não pode fazer nada sobre certas coisas. O final instrumental é o clímax do primeiro ato do disco e a música tem dois BPMs que se alternam. A minha intenção é que até aqui o ouvinte de primeira viagem esteja sem fôlego e só “respire” no interlúdio que vem a seguir.

Capa de “Logo Ali”

07) “Salvador (interlúdio)”: Separa o primeiro e o segundo ato do “Logo Ali”. Uma poesia que pretende emocionar e introduzir o ato mais solitário e de coração partido. Mas internamente eu também queria que fosse um momento de provocação ao me apropriar de alguns clichês da música brasileira. A participação da Josyara é como um trovão que te obriga a levar a sério e prestar atenção no que ela está falando e eu acho isso genial. Fiquei imensamente feliz por ela ter topado o convite, admiro e me identifico muito com essa jornada dela de neo-cantautora-instrumentista LGBTQIA+.

08) “Habitat”: Talvez seja minha música mais enfática sobre solidão e apesar de ressoar muito o cotidiano pandêmico, foi composta no fim de 2019. Pra mim é um bom sinal de que seja uma letra que possa ser identificada com qualquer solidão futura. No arranjo experimentamos com várias influências que eu amo: Phoebe Bridgers, Keane e até Adriana Calcanhotto, alguém que tem cantado de jeito muito sensível esses nossos tempos turbulentos, sem ignorar esses últimos anos.

09) “Eu Te Dei Tudo Que Eu Sou”: Foi a primeira música composta para o “Logo Ali”, no fim de 2018! Ela evoca um ressentimento trágico que nem aquele de “Tango” (música do primeiro disco com participação de Johnny Hooker) e já anunciava o tom cinematográfico do segundo disco. A inspiração pra ela foi uma sensação dupla de insuficiência, tanto num relacionamento (o mesmo que inspirou as músicas românticas do primeiro disco) mas principalmente em relação à indústria da música. Uma sensação de me doar por completo, mas não ser compreendido o quanto gostaria.

10) “Samba!”: Apelidada carinhosamente de “Samba da Björk”, é um dos arranjos mais complexos do disco e acredito ter sido uma escolha ousada de single. Pra mim “Samba!” resume bem vários dos conceitos do “Logo Ali”: os arranjos grandiosos a partir da viola caipira; as participações especiais como construção do arranjo e não só como uma “voz diferente que entra”; o questionamento do que é “soar brasileiro”; o tom “apocalíptico-tropical”, etc. Já havia trabalhado com a Bruna Black (parceira do Jota.pê no duo ÀVUÀ) algumas vezes e é sempre uma imensa alegria criar com ela. Lembro de enviar pro duo um audio de 11 minutos explicando exatamente como eu imaginava a participação deles: os dois cantam e emulam percussão, baixo e sintetizadores com as vozes. Em “Samba!” há ecos do disco “Medúlla” e de “Pagan Poetry” da Björk, os sopros dos anos 70 de Elza Soares, o clima dos “Afrosambas” de Vinicius de Moraes e Baden Powell, os synths de Moses Sumney e do Arcade Fire na época do “Reflektor”… Tudo isso pra criar um “carnaval fantasma” onde eu “via a sua cara em tantos caras”.

11) “Do Outro Lado (Mantra Tornado Grito)”: Anuncia: o mundo está realmente acabando! Composta por 6 mãos, a música surgiu no fim de março de 2020 como um “jam session na viola” entre eu e o Barro: eu estava preso em Recife depois que a pandemia cancelou uma turnê no Nordeste que eu tinha acabado de começar. Quando eu finalmente retomei a música um ano depois, em março desse ano, pareceu uma ótima ideia chamar alguém “do outro lado” do oceano pra contar essa outra perspectiva sobre essas jornadas que precisamos aguentar. O Murais topou o convite e compôs esse final inspirado em fados depois de eu contar que a viola caipira é “filha” da guitarra portuguesa. O final é o crescendo mais grandioso de todo o disco e a música também tem co-produção do jojô, que trabalha com nomes como Tagua Tagua e Filipe Catto.

12) “De Tanto Esperar”: Retoma diversos elementos de “Canto Cerrado” pra se perguntar: a caminhada termina? As duas músicas foram gravadas com o mesmo BPM sem eu ter percebido isso, e quando descobrimos essa coincidência foi natural que ela se tornasse o encerramento do “Logo Ali” (ela quase ficou de fora ao lado de outras cinco músicas). Essa é outra letra que eu comecei a escrever logo antes da pandemia e só terminei vários meses depois. “De Tanto Esperar” resume pra mim uma emoção que eu queria que o disco emanasse: uma vontade de seguir adiante, de viver e sentir várias outras coisas, apesar de um contexto totalmente inóspito.

Montagem da composição da capa inspirada na obra “O Derrubador Brasileiro”, 1879, de Almeida Jr.

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