Um hino para o 7 de setembro de 2021

Texto por Gab Piumbato

“Havia milhares e milhares de pessoas querendo esta canção, então eu a escrevi”. Para o Bob Dylan do começo dos anos 60, era esta uma tarefa fácil de se impor. Canções como esta brotavam em um quarto de hora, muitas vezes em cafés repletos de barulho e confusão. Passadas as sete décadas de existência, Dylan diria que se compusesse hoje “Masters of War”, não faria mais nada por duas semanas.

Não foram necessárias mais do que seis tomadas (apenas três completas) em estúdio para registrar para a eternidade uma das canções mais virulentas da história:

Bob Dylan tinha 22 anos quando compôs esta canção. Se você ainda não conhece a letra, aqui vai a tradução de Angelina Barbosa e Pedro Serrano:

Poucas vezes a música popular viu tanta bile vazar em oito estrofes. A última é tão violenta que muitas vezes sequer chega a ser cantada pelos intérpretes (caso de Joan Baez e Judy Collins). “Eu não canto canções nas quais desejo que as pessoas morram, mas não pude evitar”, afirmou Dylan no encarte do álbum The Freewheelin’ Bob Dylan. É mesmo incrível que a canção que tenha inspirado o arranjo seja este “simples” folk de Jean Ritchie:

Dylan teria tomado conhecimento de “Nottamun Town” durante a sua passagem por Londres, no início dos anos 1960. Para quem deseja saber mais sobre as visitas dele à Inglaterra, recomendo o livro de KG Miles e Jackie Lees, ainda sem tradução para o português.

Cada apresentação consolida uma nova camada história a esta canção. É justo dizer que ela ultrapassou em muito a intenção do autor de se se referir “em forma de ira poética às maquinações do complexo militar industrial” (Chris Gregory) de Eisenhower. Vejamos o caso do show de Nuremberg em 1978, no mesmo estádio onde Hitler adorava fazer os seus discursos nazistas. Não é uma delícia ouvir Dylan metralhar a estrofe final neste local?

Há ainda outra apresentação controversa, a dos Grammy em 1991:

A descrição de Greil Marcus é quase tão boa quanto o próprio vídeo: “Os músicos pareciam gangsters hipsters que passaram os últimos dez anos no mesmo bar esperando o momento ideal pra entrar em cena”. Outros jornalistas tiveram impressão diferente: “parecia que ele estava cantando em hebraico”.

Mas são as palavras do próprio Dylan, 20 anos depois, que conferem o sentido de gravidade para o evento daquela noite: “Eu fiquei desiludido com todos os personagens naquele momento – com o seu caráter e a sua habilidade de manter a sua palavra e o seu idealismo e a sua insegurança. Todos que têm a ousadia de confiar suas torturadas psiques interiores em um mundo externo mas não podem sequer ser verdadeiros em manter a sua palavra. Dali em diante, isso era o que o negócio da música e todas as pessoas nele envolvidas significavam para mim. Perdi o respeito por todos”.

Não ajudou que Dylan estivesse ardendo em febre, se sentindo traído pelos colegas músicos que deveriam se apresentar. Um a um, todos cancelaram a sua participação no show em sua homenagem. Que ele andasse exagerando na bebida também contribuiu para tornar essa performance inesquecível. A sua aparência desleixada e a urgência com que atirou os versos no microfone não deixam ninguém indiferente.

Há outra interpretação, no Madison Square Garden em 2002, que merece a nossa audição. Subi o áudio no youtube, então é bom ouvir agora pois a gravadora pode derrubar o vídeo a qualquer momento. Esta é a descrição de Greil Marcus: “Ele se juntou a três músicos num círculo, com ele ao centro: tocando violões e um contrabaixo acústico, sentados nas cadeiras, eles pareciam um bando de bruxos reunidos, e a canção soou como uma maldição cavada a partir da própria terra”.

Eddie Vedder, o último sobrevivente do mais trágico movimento musical da história ocidental (sim, o grunge), costuma tocar bastante esta canção em seus shows solos. Kurt Cobain disse uma vez que ao envelhecer provavelmente se tornaria um trovador, mas infelizmente ele não viveu o suficiente para confirmar a sua profecia – caminho que de fato foi seguido por seus companheiros dos 90s, especialmente Vedder e Chris Cornell. Das versões que conheço do Pearl Jam, esta é a minha preferida:

Mas a interpretação mais arrepiante desta canção acusatória é a do ator Virgo Mortensen. Como se cantasse uma música folk de tempos imemoriais, a capella, ele começa murmurando a melodia. Numa espécie de mantra, sintonizando o estado mental e emocional necessário para dizer estas palavras. Como um animal enjaulado, prestes a ser solto na arena de batalha. E o que vem a seguir, na ausência de instrumentação, é a pura voz da coragem, da consciência, da devoção em uma causa justa. Não há como ser derrotado, porque a vitória é total. Sobreviver não basta, é preciso aniquilar o inimigo. Só assim uma terra pode ser salva. Só assim uma comunidade pode ser fundada, livre de toda traição imperdoável.

Esta é a canção que eu quero ouvir neste sete de setembro de 2021.

– Gab Piumbato é jornalista e autor da melhor discografia comentada de Bob Dylan em português (aqui)

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